Justiça libera motorista que causou mortes em Escada no dia do velório de criança
Josenildo Oliveira da Silva usará tornozeleira eletrônica; Maria Eduarda segue em estado gravíssimo no HR e pequeno Lorenzo ainda será velado
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Com informações de Aline Moura, Luciana Queiroz, Rafaella Pimentel e Simone Santos
O município de Escada, na Mata Sul, parou para dar o último adeus ao pequeno José Lorenzo, de 8 anos, nesta terça-feira (21). No mesmo dia em que os familiares esperavam a chegada do corpo à cidade para o velório e sepultamento, a Justiça de Pernambuco concedeu liberdade provisória a Josenildo Oliveira da Silva, de 48 anos.
O motorista conduzia a caminhonete desgovernada que causou a tragédia. Até então, a família não sabia ao certo o que tinha acontecido com ele, que atingiu quatro pessoas ao dirigir embriagado e também deixou a prima de Lorenzo, Maria Eduarda Celestina, de 20 anos, em estado gravíssimo.
Em audiência realizada por videoconferência pelo plantão da Central de Garantias do Cabo de Santo Agostinho, foi decidido que Josenildo responderá ao processo em liberdade. Como medidas cautelares, ele deverá usar monitoração eletrônica (tornozeleira) e teve o direito de dirigir suspenso.
O luto que se transforma em revolta
A decisão judicial foi informada ao Tribuna Online PE depois de a TV Tribuna PE/Band mostrar o sofrimento dos familiares, que não sabiam o destino do motorista, se ele havia sido preso ou não.
A notícia da liberdade provisória, no entanto, não poderia ter chegado em hora mais difícil. Ainda nesta terça-feira, a família de Maria Eduarda recebeu uma ligação do Hospital da Restauração pedindo que eles comparecessem ao local com urgência. E não passaram maiores detalhes. A preocupação era de que ela também tenha morrido, pois teve forte traumatismo craniano e estava com dificuldade de se alimentar. Mas a notícia não foi confirmada pela Secretaria de Saúde estadual.
A revolta dos familiares agora ganha um novo alvo: a sensação de impunidade. Testemunhas afirmam que Josenildo e o passageiro, Andreilson André da Silva, saíram abraçados de um bar momentos antes do atropelamento. Eles não conseguiram nem descer do veículo de tão bêbados que estavam, segundo testemunhas.
No local do crime, a caminhonete foi incendiada pela população e o motorista só não foi morto porque a Polícia Militar interveio. No mesmo lugar, dava para ver a irresponsabilidade do condutor e do amigo. Eles desceram uma ladeira íngreme embriagados, uma via que é difícil transitar até mesmo sóbrio.
O grito de "corre, corre" e o impacto
Ainda nesta terça-feira, a mãe de Lorenzo, a dona de casa Evelyn Kaylane Maria da Silva, 23 anos, relembrou os segundos que antecederam a tragédia. Eles lanchavam na calçada no momento em que a caminhonete surgiu. “Fui pegar um copo de refrigerante para ele e um para mim. Meu irmão saiu de casa e eu só escutei ele falando: corre, corre”, relatou.
Segundo ela, o choque foi imediato e não houve tempo para reação. “Quando vi, o carro já estava em cima. Vinha muito desgovernado, batendo em tudo, quebrou o poste. Na hora, não pensei que meu filho estava ali”. Só após levantarem o veículo é que a família percebeu que Lorenzo estava embaixo das rodas. E veio mais um grito, dessa vez de dor.
Cobrança por respostas
A incerteza sobre o paradeiro dos responsáveis também alimentava a dor da família. Antes de saber da decisão da Justiça, a mãe questionava o silêncio das autoridades. “A gente não sabe onde os indivíduos estão. Se estão presos, não sabemos, porque a polícia não quer dar um resultado. Eu quero justiça, porque dois irresponsáveis bebem no meio da rua e cometem esse crime”.
Bolas brancas, pranto e revolta em Escada
Na despedida, uma multidão de parentes e amigos da família andaram pelas ruas de Escada acompanhando o carro que transportava o corpinho de José Lorenzo, carregando cartazes (alguns de protesto) e bolas brancas. Durante o velório e enterro, a revolta com a notícia de que o motorista vai responder ao crime em liberdade teve um misto de dor e revolta. José Lorenzo foi enterrado no Cemitério São Luiz, na mesma cidade onde morava.
Antes de ele ser sepultado em uma das gavetas do cemitério, a mãe pediu para abrir o caixão e ver o fiho pela última vez. Ela desmaiou. Em outro momento, o melhor amigo de Lorenzo pediu o mesmo, não conseguia aceitar. O caixão foi aberto novamente, como se esperassem um milagre.
Houve pranto e revolta pelo sentimento de impunidade. Muitos só souberam da notícia da liberdade provisória do motorista durante o enterro. E várias perguntas ficaram em aberto para os familiares e amigos, enquanto o caixão era deixado na gaveta para ser lacrado. A principal delas era: por que um homem que dirige embriagado, tira a vida de uma criança e atinge mais três pessoas está em liberdade?
O Tribuna Online PE e a TV Tribuna PE/Band seguem acompanhando o desdobramento do caso e a reação da comunidade de Escada diante da soltura do condutor.
Veja a matéria de Luciana Queiroz e Elias Valadares no JT1, e de Rafaella Pimentel da TV Tribuna PE
Veja combertura do Brasil Urgente com Simone Santos, que acompanhou toda dor e revolta da população
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