José Antonio Martinuzzo: "Na era da solidão, buscamos por parceiros perfeitos”
Especialista aponta que relações com inteligência artificial refletem a solidão e podem aprofundar o isolamento e as dificuldades nos vínculos reais
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A busca por relações amorosas com a Inteligência Artificial pode ser resultado de uma série de características da sociedade contemporânea. Para o doutor em Comunicação e pós-doutor em Psicanálise José Antonio Martinuzzo, a solidão é o principal elemento desse fenômeno.
Em conversa com a reportagem, ele analisa as causas e os impactos desse tipo de vínculo.
A Tribuna — O que pode levar uma pessoa a considerar ter uma relação com uma IA?
Martinuzzo — Acredito que a solidão seja um fator importante. Ela surge quando a pessoa não consegue estabelecer vínculos, seja por medo, insegurança ou dificuldade de convivência. A pessoa vive na paranoia, com uma necessidade de controle constante.
Diante disso, surge a busca por relações sem risco, com garantia de segurança, lealdade e controle. E é aí que surge a Inteligência Artificial, oferecendo essa ilusão.
Então as relações com a IA oferecem essa sensação de segurança?
Quando alguém busca um amor, está buscando alguém que responda às suas faltas. É uma busca por olhar, escuta, vínculo, cuidado, interação apaziguadora. Em um mundo de medo, insegurança e instabilidade, se alguém oferece isso em um ambiente aparentemente seguro, há adesão.
Na era da solidão, buscamos parceiros perfeitos. E na relação com a IA, o sujeito acha que encontrou o parceiro ideal, mas na verdade encontrou um espelho, construído com base nas informações que ele mesmo forneceu. Esses sistemas dão as respostas que a pessoa quer ouvir, justamente para mantê-la ali, engajada e gerar lucro.
Mas essas relações com a IA podem ajudar a superar esses sentimentos?
Não. Pelo contrário, pode piorar. Superar a solidão exige se lançar à vida, arriscar vínculos, sustentar relações. Quando a pessoa recorre a uma solução artificial, ela reforça as causas da solidão: o medo do outro, o individualismo e a recusa ao compromisso.
Ela se fecha ainda mais e se torna menos preparada para conviver com outras pessoas.
Podemos dizer que os relacionamentos com IA são uma continuidade dos namoros digitais?
Não exatamente. Ambos acontecem no ambiente digital, mas são lógicas diferentes. As redes sociais conectam pessoas reais, são como a praça pública de antigamente. Você vai ali para encontrar alguém de carne e osso.
Já as Inteligências Artificiais criam uma relação entre humano e máquina. Não é mediação entre humanos, é substituição por um sistema que simula um humano.
O avanço desse tipo de relação pode trazer prejuízos para a sociedade?
Sim, com certeza. Essas tecnologias deseducam as pessoas para lidar com a vida real. Elas dificultam o enfrentamento da frustração, do risco, da diferença, dos limites e até da relação com o próprio corpo.
No plano coletivo, isso é ainda mais grave. Uma pessoa que só convive com esse “espelho” terá dificuldade de lidar com o “não” da vida. Vivemos uma realidade cheia de limites e frustrações. Ignorar isso é perigoso.
E qual seria a melhor forma de lidar com esse cenário?
Mais do que nunca, é preciso investir em uma educação voltada para a convivência humana, para lidar com medos, frustrações e desafios sem buscar atalhos que anestesiem essa experiência.
A tecnologia pode ser usada, mas não deve substituir as relações reais, que são fundamentais para o desenvolvimento das pessoas. As relações afetivas existem para serem vividas entre pessoas que têm capacidade de sentir.
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