Guerra pressiona inflação e influencia alta de combustíveis e alimentos
Impacto mais relevante no índice veio da gasolina, que subiu 4,59% em março
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A inflação oficial do Brasil, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), começou a refletir os impactos da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, que aumentou as cotações do petróleo.
Em março, o IPCA acelerou a 0,88%, após marcar 0,7% em fevereiro, segundo dados divulgados nesta sexta (10) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O avanço de 0,88% é o maior para meses de março em quatro anos, desde 2022 (1,62%).
O índice foi pressionado pelas altas dos grupos transportes (1,64%) e alimentação e bebidas (1,56%) -o primeiro inclui os combustíveis. Juntos, os dois segmentos responderam por 76% do IPCA, disse o IBGE.
A taxa de 0,88% ficou bem acima da mediana das projeções do mercado financeiro, que era de 0,76%, conforme a agência Bloomberg. O intervalo das estimativas ia de 0,66% a 0,85%. Isso significa que o IPCA de 0,88% superou até a previsão máxima.
Com o novo resultado, a inflação também acelerou no acumulado de 12 meses. A alta do IPCA nesse recorte alcançou 4,14% até março, após marcar 3,81% até fevereiro.
A economia mundial começou a sentir os impactos inflacionários da guerra após o início dos ataques em 28 de fevereiro.
Com a tensão no Oriente Médio, as cotações do petróleo tiveram disparada, provocando reajustes em derivados como gasolina e óleo diesel.
O gerente da pesquisa do IPCA, Fernando Gonçalves, disse que "especialmente nos combustíveis" já se sente o efeito das "incertezas no cenário internacional".
O impacto mais relevante no índice veio da gasolina (0,23 ponto percentual), que subiu 4,59% em março.
Os transportes também foram pressionados pelos reajustes da passagem aérea (6,08%) e do diesel (13,9%). A variação mensal do diesel foi a maior em mais de duas décadas, desde novembro de 2002 (14,63%).
Esse combustível pesa menos do que a gasolina na composição do IPCA, mas a sua carestia pode gerar repasses para outros bens e serviços, como é o caso dos alimentos.
"Como a nossa produção é escoada em grande parte por rodovias e utiliza óleo diesel, isso acaba trazendo impacto para os preços dos alimentos. O frete fica mais caro", afirmou Gonçalves.
A alta dos combustíveis reflete questões como os aumentos promovidos por importadores privados. A Petrobras até subiu o preço do diesel em suas refinarias, mas o reajuste foi atenuado pela isenção de impostos federais.
A pressão sobre a inflação preocupa o governo Lula (PT), que tenta conter a carestia antes das eleições de outubro.
Na segunda (6), o Executivo anunciou criação de uma subvenção extra para o diesel e o gás de cozinha, além da decisão de zerar as alíquotas de PIS/Cofins sobre o biodiesel e o querosene de aviação.
ALIMENTOS SOBEM COM RESTRIÇÃO DE OFERTA, DIZ IBGE
Dentro do grupo alimentação e bebidas, houve alta nos preços da alimentação no domicílio, que subiu 1,94% em março.
O IBGE citou a influência do tomate (20,31%), da cebola (17,25%), da batata-inglesa (12,17%), do leite longa vida (11,74%) e das carnes (1,73%). O aumento no custo de alimentos pode ser associado a restrições de oferta, segundo o instituto.
Do lado das quedas, o IBGE destacou a maçã (-5,79%) e o café moído (-1,28%).
A alimentação fora do domicílio, em locais como bares e restaurantes, subiu 0,61% no mês passado.
Em uma situação hipotética sem os combustíveis, o IPCA teria sido de 0,64% em março, e não de 0,88%, conforme o IBGE. Com a retirada da gasolina do cálculo, a taxa ficaria em 0,68%.
"Os dados indicam que os efeitos do conflito no Oriente Médio, que tem afetado os preços do petróleo e dos fertilizantes usados no agronegócio, já começam a aparecer na inflação brasileira", afirmou Claudia Moreno, economista do C6 Bank.
PROJEÇÕES DE INFLAÇÃO E JUROS
De acordo com a edição mais recente do boletim Focus, divulgada na segunda pelo BC (Banco Central), a mediana das projeções do mercado para o IPCA deste ano subiu pela quarta semana consecutiva.
A expectativa para o acumulado de 2026 avançou de 4,31% para 4,36%. Com isso, ficou mais próxima do teto de 4,5% da meta de inflação perseguida pelo BC. Há quem projete variação acima desse patamar.
Analistas também chamam a atenção para um risco adicional: a ameaça do evento climático El Niño no segundo semestre. Dependendo de sua intensidade, o fenômeno pode dificultar a produção de alimentos, com efeitos sobre os preços.
Para economistas, o cenário pode fazer o BC reduzir a intensidade do ciclo de cortes da taxa básica de juros (Selic), iniciado em março. O Copom (Comitê de Política Monetária), que integra a instituição, volta a se reunir em 28 e 29 de abril para definir o patamar da Selic, atualmente em 14,75% ao ano.
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