Quem são as mulheres no comando dos helicópteros no Espírito Santo
Profissionais do Notaer atuam em enchentes e emergências e relatam os desafios e as emoções de salvar vidas no Espírito Santo
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Do alto, em meio a enchentes, incêndios e resgates urgentes, elas assumem o comando. Cada vez mais presentes na aviação, mulheres pilotam helicópteros do Núcleo de Operações e Transporte Aéreo (Notaer) e ajudam a salvar vidas.
A história dessa presença feminina passa pela trajetória da major da Polícia Militar Elizabeth Bergamin, de 44 anos, comandante de aeronave do Notaer e primeira mulher a ingressar na aviação da unidade, em 2009 — época em que não havia estrutura para receber as mulheres.
Com 25 anos na corporação e quase duas décadas dedicadas ao voo, ela acompanhou de perto a transformação do espaço. Desde então, a major se tornou comandante habilitada para todos os tipos de aeronaves operadas pelo núcleo.
A piloto do Notaer, major Laura Costa, de 44 anos, ingressou na PMES aos 20 anos e iniciou na aviação em 2014, com o curso de piloto privado.
“No ano seguinte, iniciei na aviação de segurança pública, no Notaer, onde segui acumulando formações e horas de voo até me tornar comandante de aeronave, em 2024.”
Segundo ela, o interesse surgiu ainda no Curso de Formação de Oficiais. “Sempre que via o helicóptero em operação, tinha vontade de estar ali, participando dos resgates e dando apoio. É uma profissão desafiadora.”
Entre as missões mais marcantes, destacou o primeiro resgate como comandante. “Era um parapentista preso em uma pedra. Foi o momento de testar minha capacidade e ver se estava preparada. E deu certo — foi perfeito.”
Entre as novas gerações que começam a ocupar esse espaço está a capitã da Polícia Militar Karina Bortoluzzi, de 30 anos. Ela atua como copiloto no Notaer e ainda está em fase de formação para alcançar o comando de uma aeronave.
Segundo ela, o interesse pela aviação surgiu ao longo da carreira, ao conhecer o trabalho do Núcleo e perceber a possibilidade de ampliar sua atuação.
“Quando vi a oportunidade, me senti imbuída de um sonho. Foram anos de preparação até conseguir chegar aqui.”
Ainda no início da jornada – com cerca de 80 horas de voo –, a capitã destacou a expectativa de crescimento na área. “É um caminho longo, mas tenho muitos anos de serviço pela frente e estou muito feliz com essa conquista.”
“Ser piloto é a realização da minha vida”
A Tribuna — Como começou sua trajetória até o Notaer?
Elizabeth Bergamin — Ingressei na Polícia Militar em 2001 e, durante um curso em São Paulo, em 2008, conheci mais sobre a aviação de segurança pública e me interessei. No ano de 2009, abriu um processo seletivo para pilotos do Notaer, no qual eu me inscrevi e passei, iniciando o curso e minha caminhada na aviação.
Naquela época, já havia mulheres na aviação da unidade?
Não. Eu fui a primeira. Não existia nenhuma restrição formal, mas também não havia estrutura pronta para nós. Por exemplo, não tinha alojamento feminino, banheiro separado, nada. A unidade precisou se adaptar para me receber.
Quais foram os principais desafios no início?
Havia uma resistência inicial, que não era algo proposital, e sim por ser algo novo e diferente. Era novidade ver uma mulher pilotando e no comando de missão. Com o tempo, isso foi sendo superado.
E como é hoje?
Hoje é completamente diferente. Já temos outras mulheres chegando e elas encontram uma unidade estruturada, sem essa barreira inicial. Estamos completamente inseridas no sistema. Isso é uma vitória muito grande.
O que mais te marcou ao longo desses anos de atuação?
As missões em situações extremas, principalmente nas enchentes. Em alguns casos, somos o único recurso. O único socorro que chega aonde ninguém mais consegue. Um exemplo recente foram as chuvas de Mimoso do Sul, em 2024. Já resgatamos pessoas em telhados, famílias inteiras isoladas, pacientes que precisavam de atendimento urgente. São cenas que marcam muito.
Essas experiências impactam você fora do trabalho?
Com certeza. Você volta para casa, deita na sua cama e lembra das pessoas que ficaram ali, de tudo o que perderam. Como mãe, me toca ainda mais quando envolve crianças.
Ainda existe surpresa por parte das pessoas ao ver uma mulher pilotando?
Existe, principalmente no interior. Muitas vezes, as pessoas acham que o piloto é o homem da equipe. Já aconteceu de perguntarem se eu era aeromoça. Mas também já vi meninas se surpreendendo e saindo felizes por ver que a piloto era uma mulher.
Você se vê como inspiração para outras mulheres?
Sim, e procuro incentivar. Sempre digo para não focar só nas dificuldades, mas no que pode ser conquistado. Cada desafio serve para fortalecer. O importante é olhar para onde se quer chegar.
Que mensagem você deixaria para mulheres que pensam em seguir esse caminho?
Eu não quero ser igual aos homens, quero chegar lá com as minhas características. Cada uma pode ocupar seu espaço do seu jeito. O importante é acreditar e seguir em frente.
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