Escritor e psiquiatra: “Precisamos reaprender a sofrer”
Em novo livro, escritor e psiquiatra afirma que sentimentos negativos fazem parte de uma vida saudável, mas não devem ser ignorados
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Sentir tristeza, angústia ou frustração não é, necessariamente, um sinal de doença. Segundo o psiquiatra e escritor Daniel Martins de Barros, os sentimentos negativos também fazem parte de uma vida saudável. E ignorá-los ou tentar eliminá-los a qualquer custo pode trazer ainda mais sofrimento.
Em seu novo livro “Sofrimento Não É Doença: Nem Todas as Dores Precisam de Remédio, Mas Todas Merecem Cuidados”, o médico busca mostrar que o diagnóstico psiquiátrico é algo sério e rigoroso, que não pode ser banalizado nem deixado de lado.
“Observando a sociedade, percebi como as pessoas usam o diagnóstico de forma errada. Às vezes exageram, querendo ver doença em tudo, mas, por outras, minimizam e fogem como se o diagnóstico fosse uma coisa ruim por si só”.
Em conversa com a reportagem, Daniel falou sobre os limites entre sofrimento e doença, o impacto das redes sociais e a importância de não enfrentar as emoções sozinho.
A Tribuna — A frase de abertura do seu livro é “Precisamos reaprender a sofrer”. Por que desaprendemos isso?
Daniel Martins de Barros — A tecnologia do bem-estar e da saúde nos livrou de milhares de sofrimentos, e isso é ótimo. Mas não nos livrou de todos. Ser humano é igual a passar por sofrimentos. Se esperamos que haja remédio para todos eles, inevitavelmente iremos nos frustrar e acabar sofrendo ainda mais.
Em que momento passamos a enxergar o sofrimento como algo que precisa ser eliminado?
É um processo de longo prazo. À medida que vão surgindo remédios e tratamentos, cada vez toleramos menos o sofrimento. E claro que sempre que houver a possibilidade de um tratamento, eu defendo que ele seja usado. O problema é a propaganda de que todo sofrimento é um erro a ser eliminado, usada muitas vezes para lucro com a venda de falsas esperanças.
Então as pessoas confundem o sofrimento comum com a doença?
Sim. A confusão acontece porque nem sempre as fronteiras entre as duas situações são claras, e sempre tem alguém querendo lucrar vendendo alguma solução mágica para o sofrimento. Isso deixa as pessoas confusas, naturalmente.
Quando o sofrimento deixa de ser algo normal e passa a se tornar, de fato, uma doença?
Existem vários critérios, que detalho no livro. Mas, resumidamente, podemos dizer que é quando uma situação é excepcional, fora do normal daquela pessoa, levando a prejuízos claros na sua vida pessoal, nos relacionamentos, em sua funcionalidade, e ela não consegue reagir e ficar bem por conta própria.
Na sua opinião, quais características da sociedade atual contribuem para essa confusão?
A busca pelo bem-estar como um valor acima dos outros, a pressa por soluções rápidas, a falta de tempo para investir em soluções que demandem trabalho e profundidade e, claro, as informações superficiais e distorcidas nas redes sociais.
Qual é o papel das redes sociais nisso?
A popularização dos conteúdos sobre saúde mental nas redes sociais é tanto causa quanto consequência do problema. Claro que o conteúdo prolifera como resposta à demanda da sociedade por mais informação, por estar mais sensível e preocupada com o tema. Mas a falta de rigor e a péssima qualidade de boa parte do que se produz acaba levando a mais confusão do que esclarecimento.
De que formas práticas podemos lidar melhor com sentimentos negativos no dia a dia?
O primeiro passo é reconhecer que esses sentimentos existem e fazem parte da vida, sem encará-los como um erro ou um defeito. Depois, e essa é a grande mensagem do livro, evitar de tentar lidar com eles sozinhos. O cuidado mútuo, os vínculos afetivos verdadeiros, são grandes bálsamos para esses sentimentos.
Ainda existe um estigma em relação à saúde mental no Brasil?
Sim. Existe no Brasil e no mundo. Embora fale-se mais e muitos mitos já comecem a ceder, ainda há bastante medo e desinformação. Isso tem a ver com a história da psiquiatria, que antigamente era vista como uma especialidade para “loucos”, e as pessoas tinham muita vergonha de ter um “louco” na família.
Hoje em dia, obviamente sabemos que não é assim, mas muito do preconceito ainda resiste. Temos que levar mais informação, porque a informação é o maior antídoto para o preconceito.
Como podemos avançar nesse debate e incentivar as pessoas a buscarem ajuda quando necessário?
Primeiro, é preciso lembrar que existe muito mais gente doente sem saber do que gente achando que está doente sem estar.
Depois, precisamos reforçar que um diagnóstico psiquiátrico não é uma falha moral, não é culpa de ninguém, muito menos frescura. A gente não tem vergonha de usar óculos ou de engessar o braço se temos uma fratura. Então não precisamos ter vergonha de consultar um psiquiatra se não estamos bem emocionalmente.
Perfil
Daniel Martins de Barros
Médico psiquiatra, doutor em Ciências e bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP).
É professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e médico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.
É autor de livros como “Viagem por dentro do cérebro”, indicado ao prêmio Jabuti de 2014, “Machado de Assis: a loucura e as leis”, e agora lança “Sofrimento Não É Doença: Nem Todas as Dores Precisam de Remédio, Mas Todas Merecem Cuidados”.
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