50 crônicas e um artesão: o que esperar do livro "Eduardo Campos em histórias
Do time de várzea às estratégias de campanha: jornalistas Evaldo Costa e Ítalo Rocha revelam o cotidiano do ex-governador em episódios inéditos
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Esqueça a rigidez dos registros oficiais e os detalhes pormenorizados de uma biografia. O livro que chega oficialmente às prateleiras nesta quarta-feira (9), às 19h, na Livraria Jaqueira, é um convite para entrar nos bastidores de uma trajetória que marcou Pernambuco. Eduardo Campos em histórias (Editora Ediouro) é uma reunião de memórias afetivas e políticas contadas por quem dividiu mesas de jantar, gabinetes e palanques com o ex-governador.
Os autores, Evaldo Costa e Ítalo Rocha Leitão, jornalistas que conviveram com Eduardo, decidiram colocar no papel o que as câmeras nem sempre registravam. O resultado são 50 crônicas que percorrem desde a infância em Casa Forte/Apipucos até o ano de 2014. O tom predominante é de leveza, com episódios envoltos em humor e na vivacidade de um homem que, segundo os relatos de Evaldo, "respirava política como se fosse o ar".
Do gesto simples à memória espetacular
Um dos pilares que sustenta as crônicas é a empatia de Eduardo. O livro retrata um líder que operava na contramão da burocracia. Segundo Evaldo Costa, ele conhecia virtualmente todos os operadores da política em Pernambuco. Do grande ministro ao suplente de vereador, Eduardo chamava pelo nome e perguntava pela família.
Essa memória espetacular não era uma ferramenta de marketing, mas uma habilidade intrínseca. Evaldo Costa descreve um líder que tratava cada artífice da política como igual. Para Eduardo, a política não era um emprego com horário de saída; era uma observação constante dos hábitos e costumes das pessoas.
Segundo Evaldo, o livro mostra esse homem de gestos simples, que parava para ouvir lideranças comunitárias com o mesmo interesse com que tratava de grandes projetos de infraestrutura.
O jantar, o cigarro e a estratégia de Oswaldinho
Entre os episódios que garantem o riso e a compreensão da engrenagem política, o livro resgata um "causo" no restaurante Spettus, em Boa Viagem. Evaldo Costa narra como encontrou o político Oswaldinho Rabelo em uma mesinha externa — o local estratégico onde Oswaldinho podia fumar sem interrupções.
Oswaldinho tentava falar com Eduardo para oferecer a vaga de vice ao PSB em Goiana. O livro detalha a movimentação: a ligação feita de dentro do restaurante, a resposta curta de Eduardo e o desfecho de uma articulação que já estava decidida muito antes do último cigarro de Oswaldinho apagar. É a política real, contada através de cenas que mostram o "artesão" em plena atividade.
O herdeiro de Arraes e a era da imagem
A ligação com o avô, Miguel Arraes, é um dos fios condutores que explica a formação de Eduardo, mas o livro também marca as distâncias. Ítalo Rocha, que conheceu Eduardo na campanha de 1986 — a primeira com guia eleitoral aberto após a ditadura —, destaca a transição de gerações. Ele acredita que a maior diferença entre eles era esta, uma vez que a pauta social era a mesma.
“A gente viajava junto, fazia as pautas do governo, os compromissos... Ele era assessor no início e depois passou a ser chefe de gabinete do governador (Arraes). E foi assim que a gente se conheceu. Desde então, se formatou aí uma amizade e perdurou por todo o tempo”, conta Ítalo.
Evaldo Costa aprofunda. Enquanto Arraes era o homem da palavra escrita e do discurso introspectivo, Eduardo foi o político da era da televisão. Ele dominava a comunicação visual e o diálogo direto. O livro, no entanto, mostra cenas inéditas da vida normal do neto de Arraes, que era dentro da política e sem hora para largar.
O livro fala dos “causos” de uma liderança que desenvolveu sua própria trajetória durante décadas, tornando-se um mestre dos grandes consensos em Pernambuco, unindo forças políticas que iam da esquerda progressista a setores conservadores sob o mesmo projeto de desenvolvimento.
Esse legado hoje se encontra, de certa forma, na nova geração da família: Eduardo é pai do prefeito do Recife e presidente nacional do PSB, João Campos, e do deputado federal Pedro Campos, que seguem os passos do pai na vida pública.
A tese do "grande consenso" e o vácuo nacional
Evaldo Costa sustenta a tese de que Eduardo era um "artesão da política", uma liderança que surge raramente. Em sua visão, se Eduardo não tivesse sofrido morrido em desastre aéreo, teria aglutinado segmentos importantes do centro político, impedindo a fragmentação que permitiu a ascensão de discursos extremistas anos depois.
"Eu sei que isso é um exercício de história contrafactual. Mas, se Eduardo tivesse vencido as eleições em 2014, não permitiria que fatias da opinião pública fossem apropriadas pela extrema-direita", afirma Evaldo.
Ele lembra que, em Pernambuco, Eduardo construiu governos amplos, unindo nomes que iam da esquerda progressista a figuras que hoje ocupam campos opostos no espectro político. Essa capacidade de manter bases heterogêneas sem perder o comando estratégico é apontada como a grande lacuna deixada por sua morte.
A raça do Palmeirinha
Para entender Eduardo Campos, o leitor precisará conhecer o Palmeirinha. Não era um time profissional, mas o time de futebol de lazer que ele jogava com os amigos da infância em Aldeia ou em Casa Forte. O Palmeirinha às vezes era o time desacreditado, aquele que entrava em campo sob desconfiança, mas que vencia na raça e na insistência.
Essa lembrança tornou-se o mantra de Eduardo para os momentos de crise. Quando uma situação política parecia impossível, ele recorria à memória dos campos de gramado improvisado: "O Palmeirinha vai ganhar essa". Evaldo, inclusive, ouviu essa frase de Eduardo no último dia que o encontrou, em agenda presidencial na Paraíba.
Era dia 9 de agosto de 2014, um sábado, quatro dias antes de Eduardo morrer. A frase acompanhou o político até seus últimos dias, simbolizando uma convicção inabalável na vitória. É essa energia, de quem gostava de fazer gols e de construir pontes, que, segundo Evaldo, as 50 crônicas buscam eternizar para o leitor.
Serviço
Lançamento: Eduardo Campos em histórias
Data: 9 de abril (quarta-feira)
Local: Livraria Jaqueira (Rua Madre de Deus, 110, Bairro do Recife)
Horário: 19h
Ficha Técnica: Editora Ediouro, 116 páginas, R$ 69,90
O livro já está disponível na pré-venda.
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