Após diagnóstico dos filhos, pais se descobrem autistas
Pais passam a reconhecer em si mesmos algumas características do espectro e acabam sendo diagnosticados
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Não existe uma única causa para o Transtorno do Espectro Autista (TEA). No entanto, estudos apontam que a genética exerce forte influência. Estudos com pacientes gêmeos estimam que a herdabilidade do TEA gira em torno de 50% a 90%.
Nesta terça-feira (02), Dia Mundial de Conscientização do Autismo, o tema ganha ainda mais visibilidade, especialmente diante de um fenômeno: após o diagnóstico dos filhos, muitos pais passam a reconhecer em si mesmos características do espectro e acabam sendo diagnosticados na vida adulta.
Embora os sinais possam surgir ainda na infância, o TEA foi, por muitos anos, subdiagnosticado, o que ajuda a explicar por que tantos adultos só recebem o diagnóstico tardiamente.
Um desses casos é do militar da reserva Welington Soleira, de 50 anos. Ele conta que há dois anos recebeu o diagnóstico de TEA. Seu filho, de sete anos, foi diagnosticado aos dois anos de idade.
“Com o diagnóstico dele fiquei curioso, por causa de alguns comportamentos e atitudes, em saber se tinha relação com o TEA. Procurei a psicóloga, que fez o diagnóstico, confirmado depois pelo psiquiatra. Foi aos meus 48 anos”.
Mas foi a esposa do militar que o estimulou a procurar por uma confirmação. “No início eu achava que não tinha muito a ver comigo, por eu dar aula e ter uma carreira. Achei que não faria diferença, mas minha esposa falou que algumas características minhas eram parecidas com de alguém dentro do espectro”.
Welington relata que sempre foi “muito metódico” e se autocobrava quando errava. “Me sentia muito mal em algumas situações, e também era muito calado. Não gostava de cometer erros e as regras para mim eram uma cartilha que tinha de cumprir à risca, gosto de seguir rotinas. Gosto de ter controle, sem muito exagero”.
Ele lembra que quando criança teve poucos amigos e sempre brincou muito sozinho. “Na adolescência tive poucos amigos e nunca gostei de muito tumulto. Prefiro ficar no meu canto do que sair para lugares badalados”.
Com a descoberta, Welington afirma que todo dia é um aprendizado. “Penso que se na infância tivesse tido um tratamento, algumas coisas poderiam ter sido amenizadas. E agora com o tratamento do meu filho acabo tendo um olhar mais holístico”.
Saiba Mais
Influência genética
O autismo tem um componente genético importante. Por isso, é comum que, após o diagnóstico dos filhos, os pais passem a reconhecer em si mesmos características do espectro. Essa busca por explicações dentro da família é natural e frequentemente leva a diagnósticos na vida adulta.
Fenótipo ampliado
Nem todas as pessoas que se identificam com características do autismo estão no espectro. Existe o chamado “fenótipo ampliado”, em que o indivíduo apresenta alguns traços, mas não preenche todos os critérios clínicos necessários para o diagnóstico.
Sinais mais comuns no adulto
Mesmo sem diagnóstico na infância, muitos adultos apresentam sinais como sensação de não pertencimento desde cedo, dificuldade em interações sociais mais espontâneas, necessidade de rotina e previsibilidade, desconforto com mudanças, sensibilidade sensorial e cansaço intenso após interações sociais.
Camuflagem social (masking)
Muitos adultos, especialmente mulheres, desenvolvem estratégias para “se encaixar” socialmente. Esse processo é chamado de camuflagem.
A camuflagem pode levar a cansaço extremo, ansiedade, sensação de inadequação, sobrecarga emocional e diagnósticos equivocados ao longo da vida. Isso acontece porque a pessoa passa anos tentando se adaptar a padrões que não são naturais para ela.
Comorbidades
O autismo raramente aparece isolado. É comum a presença de outras condições associadas, como: ansiedade, TDAH e outros transtornos do neurodesenvolvimento
Importância do tratamento
Mesmo na vida adulta, o acompanhamento faz diferença. O tratamento, principalmente com terapias, pode ajudar no desenvolvimento da comunicação, da interação social e na qualidade de vida.
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