O barro que vestiu a menina: a poesia moldada da Mestra Nicinha
Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
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O primeiro vestido de Cleonice Otília, conhecida como Mestra Nicinha, não veio apenas de uma loja. Veio, antes de tudo, do barro. Veio das mãos de uma menina que não tinha brinquedos, não tinha dinheiro e, ainda assim, encontrou um jeito de existir dentro do próprio mundo. Aos sete anos, no Alto do Moura, localizado em Caruaru, município do Agreste de Pernambuco, ela já modelava pequenos bonecos no quintal de casa — não por vocação artística, no início, mas por necessidade.
“Eu queria brincar com as meninas, mas elas não deixavam, porque elas tinham boneca e eu não tinha”, lembra. Foi o pai, o artesão Manoel Inácio, quem mudou o rumo daquela ausência ao descer do torno - uma ferramenta milenar usada para moldar a argila. Ele parou o que estava fazendo e deixou “um bolo de barro” na mão da filha, dizendo que ela mesma poderia fazer seus brinquedos. Um gesto que, sem saber, também lhe deu um caminho e reconhecimento internacional.
Mestra Nicinha, como é recconhecida, é ceramista, poeta e uma das vozes mais respeitadas em Pernambuco, onde construiu uma trajetória de mais de cinco décadas modelando o barro e a própria história.
E tudo começou com as peças que fazia para brincar: casinhas, bonecos, fogõezinhos, pequenas mobílias moldadas com o que havia. O barro virou brinquedo, depois virou convite. As meninas, que antes a excluíam, passaram a brincar com ela.
Mas foi também nesse chão, com os brinquedos organizados como quem expõe sem saber, que a vida deu uma virada definitiva. Uma vez por mês, um frei passava pela comunidade para celebrar missa. A mãe, Dona Otília Inácio, colocava os filhos na frente da casa para pedir a bênção, como era costume. Num desses dias, um dos religiosos que acompanhavam o frei se aproximou dos brinquedos espalhados no terreiro e pegou um dos bonecos.
O dia em que pensou que estavam roubando
Nicinha viu de longe e correu. Na cabeça de criança, não havia dúvida: estavam levando o que era dela, justamente aquilo que ela tinha criado porque não podia ter o das outras meninas.
“Eu pensei que ele ia roubar o meu boneco”, conta. Quando chegou perto, ofegante, pronta para tomar de volta, o gesto veio inesperado: o homem colocou um dinheiro na mão dela e seguiu caminho, levando o boneco. Ela ficou parada por um instante, sem entender o que tinha acontecido. Não era roubo, mas ela ainda não sabia nomear aquilo como venda.
Nas mãos, tinha mais do que dinheiro: carregava a primeira experiência de ver algo que fez com as próprias mãos ter valor para alguém de fora.
Temente a Deus, o pai Manoel mandou devolver. Disse que era pecado aceitar dinheiro de homem santo. Ela resistiu. “Devolvo não, devolvo não”, repetia, enquanto levava cutucadas. A mãe interveio e disse que a menina não tinha pedido nada, que o homem quis dar. O dinheiro ficou.
E virou vestido. “Com esse dinheiro, eu comprei o meu primeiro vestido.” O tecido era bramante — pano simples, de fazer lençol. Ela mesmo escolheu, pela beleza, sem saber.
A mãe costurou à mão, porque não havia máquina nem dinheiro para costureira. O fundo era preto, coberto por flores grandes, girassóis que pareciam iluminar o pouco que havia. “Foi o dia em que eu vesti o meu primeiro vestido com o meu trabalho. Foi o dia em que eu fiquei muito feliz na vida, porque foi o dia do meu primeiro vestido.”
"A partir de hoje, pai, ninguém rasga mais o meu vestido, porque esse é meu", sentenciou a criança para o pai. O vestido de girassóis era sua armadura; o barro, sua moeda de libertação.
O vestido que era só dela
Era mais do que roupa. Era pertencimento. Era a primeira coisa que não vinha de doação, que não carregava a história de outra criança antes dela. Antes desse vestido, só dela, as colegas chamavam para brincar, faziam roda e a colocavam no meio. Ela achava, às vezes, que era acolhimento.
“Mas era pra rasgar o vestido" que tinha recebido de mães das amigas. Naqueles tempos, havia disputa até pelo que já não era mais de ninguém. Nicinha reagia como podia. “Eu voava em cima delas, eu mordia, eu apanhava, eu dava. E voltava para casa e apanhava de novo". Chorava, diz, se despedaçava, mas não recuava. Ainda assim, traz da infância uma bagagem felicidade.
“A maior coisa que mais marcou na minha infância, foi meu primeiro vestido. Eu sempre lutei por aquilo que eu quis desde criança (...) Eu fui muito feliz. Hoje, vivo das minhas artes" Mestra Nicinha,
A vida que não coube na escola
Criada entre sete irmãs e três irmãos, em uma casa onde as dificuldades econômicas faziam parte da rotina, aprendeu cedo a sobreviver. Aprendeu a nadar sozinha, buscou alimento “no mato para comer, como Gogoia, melão sul-caitano”, pescou piaba no Rio Ipojuca para dividir com a família. A escola ficou pelo caminho.
Para muitos da geração da década de 1960 e 1970, faltavam lápis, caderno, tempo. Parou na 4ª série. Mas encontrou outra forma de escrita. “O barro é meu ouro sagrado”. Um conhecimento que extrapola as bancas escolares.
Foi com ele que aprendeu a narrar o mundo. Hoje, é poeta, tem livro publicado, integra a Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras e recebeu o diploma de Notório Saber pela Universidade Federal de Pernambuco. “Eu aprendi a ler muito pouco, mas o barro, eu vou lhe dizer: o barro me proporcionou tudo isso que eu tenho. O barro me deu Dona Nicinha”.
Fuga, cinema e viuvez
Ainda na década de 1970, a adolescência de Nicinha foi um ensaio de liberdade. Aos 14 anos, já estava noiva, mas o destino traçado para as moças do Alto do Moura — o casamento precoce e a vida restrita à personagem secundária — não lhe bastava. Ela queria conhecer o cinema. Desmanchou o compromisso e fugiu com Carlos Roberto, o "Carrinho", um rapaz que morava mais perto do centro de Caruaru, no bairro do Salgado.
A experiência no cinema, contudo, foi quase um susto de realismo fantástico: ao ouvir o estrondo do som de um filme de cowboy e ver a sala escura, correu para fora.
“Quando eu escutei o barulho, já tudo escuro eu corri doidinha”, conta, dando uma enorme gargalhada, daquelas que contagia a pessoa que escuta. Não assistiu ao filme, mas entrou. E isso, para ela, já significava atravessar um limite.
A menina que virou mulher viveu 15 anos casada, quase todo tempo na casa da sogra Maria das Dores e do sogro Zacarias, que lhe trataram como filha.
Muito cedo, também conheceu a dor de ser viúva por volta dos 30 e a responsabilidade de criar o filho sozinha. Mas o barro, sempre ele, estava lá para garantir o sustento - casa, comida, dignidade.
Ouro negro que ganha o mundo
Hoje, suas peças atravessam fronteiras e estão em países como Portugal e França, mas continuam nascendo do mesmo lugar: do barro no Alto do Moura para a necessidade de criação.
Nicinha diz que o barro é seu "ouro negro" e sua "caneta sem bico". Frequentou a escola apenas até a quarta série porque, na sua geração, faltava o básico para quem não tinha condições: caderno e lápis. Contudo, a alfabetização veio pelo imaginário de Mestre Galdino, de quem foi discípula e a quem chamava de tio. Hoje, ela não apenas molda; ela escreve com as mãos.
"Do barro eu fui criada, com o barro eu me criei, passei e repassei, pro mundo eu andei, do mundo eu voltei e lama virarei. Isso é barro", entoou, durante à entrevista à Coluna Pernambuco que canta.
Entre suas obras, a Abraçadeira sintetiza esse percurso. É uma peça em forma de mulher-terra, pintada de preto e com acessórios de cor puxada para o barro natural. Ela tem braços longos, pensados para acolher. “A base é a terra, que é vida, que brota em forma de mulher, que gera vida”, explica.
Segundo ela, a obra foi selecionada para exposição no Louvre, em Paris. Ela não pôde ir por causa de problemas de saúde do filho, que precisou passar por um transplante, mas o entusiasmo continua. Já fez exposição de 45 dias, chamada de Poesia Moldada - O Carnaval de Nicinha. “A cor da Abraçadeira é preta, a cor da luta pela inclusão. Ela tem os braços bem longos. É o tamanho do abraço que você quer dar.”
Mulheres que decidiram ser vistas
Ao longo da vida, Nicinha também ajudou a mudar o lugar das mulheres artesãs do Alto do Moura, reconhecido pela UNESCO como o Maior Centro de Artes Figurativas das Américas. Durante décadas, apenas os homens eram reconhecidos como mestres. As mulheres produziam, mas permaneciam invisíveis. Ela decidiu romper esse padrão e é uma das fundadoras da Associação de Mulheres Artesãs Flor do Barro, que hoje reúne 72 mulheres. “Se a gente pega na mão da outra e não larga, a gente faz muita coisa.”
“E sonho acordada", diz
Aos 68 anos, segue criando e sonhando. Quer doar uma peça para um museu do Rio de Janeiro (ou museus), luta para garantir um espaço definitivo para a associação, quer continuar. “Eu não paro de sonhar não. E não estou dormindo não, eu sonho acordada”, diz, com um sorriso que abraça.
Até o dia 19, a Mestra Nicinha participa da exposição “Terras Raras: Sagrado Feminino”, no Shopping Tacaruna, com outras mulheres. E continua a poetizar.
“Do barro eu fui criada com o barro eu me criei, passei e repassei pro mundo eu andei do mundo eu voltei e lama virarei. Isso é barro.”
A mulher, que comprou o primeiro vestido com a venda de um boneco com sete anos, agora veste o diploma de Notório Saber com a mesma naturalidade com que mergulha as mãos na massa. Para Nicinha, a arte é uma "poesia modelada". E enquanto houver barro e mãos dispostas a moldá-lo, sua história — e seus girassóis — têm raiz garantida em cada peça.
Serviço
Exposição Terras Raras: Sagrado Feminino
Onde: Praça Olinda, no Shopping Tacaruna (Recife).
Visitação: Até 19 de abril, no horário de funcionamento do shopping.
Acessibilidade: Peças táteis, audiodescrição e revista em braille.
Visitas guiadas (Libras): Dia 11 de abril, às 16h30.
Entrada: Gratuita.
Obras à venda: Peças a partir de R$ 110,00
Quer conhecer mais mais sobre a Mestra Nicinha? Acesse o @mestranicinhaotilia
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PÁGINA DO AUTORPernambuco que encanta
A coluna Pernambuco que encanta, do Tribuna Online PE, revela histórias inspiradoras dos municípios pernambucanos e seus moradores. Com olhar sensível, informativo e analítico, valoriza as riquezas humanas, econômicas e culturais do estado, mostrando quem transforma comunidades com criatividade, coragem e afeto.