157 homens estão presos por violência doméstica e feminicídio no ES
Levantamento da Sejus aponta 108 detenções por feminicídio. Especialistas reforçam a urgência de romper o ciclo de agressões
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Uma semana após o assassinato da comandante-geral da Guarda de Vitória, Dayse Barbosa, pelo ex-namorado, Diego Oliveira de Souza, que era policial rodoviário federal, um levantamento feito pela reportagem junto à Secretaria de Estado da Justiça (Sejus) revelou que 157 homens estão presos no Espírito Santo por crimes ligados à violência contra a mulher.
Os dados, referentes a fevereiro de 2026, apontaram 49 detenções por violência doméstica e 108 por feminicídio — número que se mantém estável em relação ao mesmo período de 2025. Já as prisões por dívida de pensão alimentícia subiram de 31 para 38 no intervalo de um ano.
Segundo a juíza Thaita Campos Trevizan, da Coordenadoria da Mulher do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES), os casos de violência doméstica geralmente envolvem prisões em flagrante, que passam por audiência de custódia. “O juiz avalia se a prisão será mantida. Em muitos casos, especialmente com réus primários, há soltura.”
Já os crimes de feminicídio, por terem pena maior e serem levados a júri popular, resultam em maior permanência no sistema prisional.
Segundo a defensora pública Priscila Libório Barbosa, o devedor de pensão pode ser liberado rapidamente ao firmar acordo ou quitar a dívida durante a audiência de custódia. “O sistema prevê alternativas que garantam o sustento sem necessariamente manter o devedor preso”, afirmou.
Para a delegada Michelle Meira, da Gerência de Proteção à Mulher da Secretaria de Estado da Segurança (Sesp), o enfrentamento da violência exige mais do que repressão. “Quase 100% dos inquéritos de feminicídio estão concluídos, mas é preciso romper o ciclo antes que ele evolua”, disse.
Ela destacou iniciativas como o monitoramento de agressores, a Patrulha Maria da Penha e programas de reeducação masculina.
Especialistas apontaram que fatores culturais ainda sustentam os altos índices. “Há um padrão de controle e reação quando a mulher rompe papéis tradicionais”, afirmou a psicóloga Paula Jenaína.
Diego suicidou-se após matar Dayse Barbosa. O caso reforça o alerta de que a violência não distingue classe social ou profissão, segundo as especialistas, que apontaram a necessidade de investir em educação, prevenção e conscientização para a redução da violência contra a mulher.
O Número
108 homens estão presos por feminicídio no Estado
“Desistir não é uma possibilidade”, diz delegada
“Desistir não é uma possibilidade, diante do combate à violência contra a mulher”, afirmou a delegada Michelle Meira, da Gerência de Proteção à Mulher, da Secretaria de Estado da Segurança (Sesp).
A delegada reforçou a necessidade de identificar os primeiros sinais de violência, como desrespeito camuflado de um suposto cuidado, em relação a roupas e comportamentos, bem como a importância das denúncias.
“O feminicídio de Dayse deixou claro que a violência contra mulheres não tem classe social, raça ou escolaridade. É uma questão do homem, não da mulher. As mulheres precisam identificar os primeiros sinais, como palavras desrespeitosas, disfarçadas de proteção e cuidado. Não se pode ignorar os sinais, busque ajuda nas polícias, nas forças de segurança municipais”, afirmou Michelle Meira.
A juíza Thaita Campos Trevizan, da Coordenadoria da Mulher do Tribunal de Justiça do Estado (TJES), destacou a masculinidade tóxica, inclusive entre adolescentes das classes altas, e jogos que pregam a misoginia (ódio pelas mulheres) nas redes sociais.
“Há homens que não têm respeito pelas mulheres, com a possibilidade da escolha da mulher, seja de trabalhar ou mesmo de sair de um relacionamento. No caso de Dayse, por ser uma mulher empoderada, a despeito de ser uma agente da segurança pública, talvez houvesse uma crença de que ela devesse demonstrar força”, avaliou a juíza.
Especialista afirma que violência atinge diversos perfis
A violência atravessa diferentes perfis sociais, como no caso da comandante Dayse Barbosa, segundo a advogada e psicóloga Sátina Pimenta. Segundo ela, não é sobre acesso à informação ou posição social. É sobre como a violência atravessa relações, inclusive de mulheres que estão na linha de frente do combate a ela.
“Existe um fator pouco discutido: o peso das chamadas mulheres 'fortes'. Mulheres que lideram, acolhem e protegem outras muitas vezes sentem que não podem falhar, não podem expor fragilidades, não podem dizer 'eu preciso de ajuda'. E isso também silencia.”
Para Sátina, a violência contra a mulher evidencia um problema estrutural. “Hoje, mais de 150 homens estão presos por violência doméstica. Os registros por pensão alimentícia também cresceram. Ou seja, não estamos conseguindo interromper o ciclo, apenas reagindo a ele”.
Saiba Mais
Pessoas na prisão por violência doméstica
- Fevereiro 2025 - 39
- Fevereiro 2026 - 49
Feminicídio
- Fevereiro 2025 - 108
- Fevereiro 2026 - 108
Pensão alimentícia
- Fevereiro 2025 - 31
- Fevereiro 2026 - 38
Total
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