Kadu Lins: “Exercício físico pode mudar vida de neurodivergentes”
Especialista explica que o exercício é um aliado no aumento das conexões, além de melhorar o sono e a alimentação
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Estima-se que no Espírito Santo 281 mil pessoas tenham o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
Embora nem todos recebam o tratamento adequado – terapias e medicamentos –, a ciência tem mostrado que há um “remédio” que pode melhorar a qualidade de vida desses pacientes neurodivergentes (em que o funcionamento cerebral diverge do padrão predominante): o exercício físico.
“Eu afirmo que a atividade física pode transformar a vida dos neurodivergentes. E isso nem é uma opinião minha, é o que a ciência já provou. Temos revisões sistemáticas de fatores de impacto do mundo inteiro, demonstrando o poder do exercício físico na evolução de crianças, adolescentes e adultos atípicos”, afirmou o pernambucano Kadu Lins, profissional de Educação Física e psicomotricista, fundador do Instituto do Autismo.
O especialista, referência em atividade física como ferramenta de desenvolvimento psicossocial para pessoas neuroatípicas, com mais de 10 anos de atuação na área, será um dos palestrantes Congresso Brasileiro de TDAH, que acontece hoje e amanhã, em Vitória.
Em conversa com a reportagem, ele falou sobre o papel da atividade física para a saúde das pessoas neurodivergentes.
A Tribuna — Qual o papel da atividade física no tratamento dos neurodivergentes?
Kadu Lins — Os transtornos do neurodesenvolvimento (como TEA e TDAH) não são doenças, mas condições de vida que afetam o funcionamento do cérebro. Falamos que há dificuldades de conexões entre as áreas, e o exercício físico é um grande aliado no aumento dessas conexões, além de, obviamente, melhorar o sono e a alimentação.
Com aumento dessas conexões cerebrais há ainda aumento de funções executivas, cognitivas e emocionais.
Mas, hoje, em qual esfera do tratamento desses pacientes se encontra a atividade física?
O exercício físico é, sim, uma das armas menos utilizadas, por todo um contexto social de desvalorização das atividades físicas, que é o que tentamos combater, justamente para causar um grande impacto na vida dos autistas, de quem tem TDAH e de suas famílias. Isso que queremos mostrar: o poder transformador dos exercícios físicos na vida dos neurodivergentes.
Há famílias que relatam dificuldades em conseguir achar uma atividade em que a criança ou adolescente queira fazer. Existe algum exercício ideal para esse público?
Esse questionamento é legítimo, mas vou discordar um pouco de que as “crianças têm dificuldade em querer”.
Eles têm dificuldade, muitas vezes, de entender qual é a regra do jogo; de achar um local que entenda suas peculiaridades e singularidades; de usar uma camisa que está ficando suada; e de diversas outras questões que fazem com que eles não sintam prazer em fazer a atividade, mas não tem a ver com o exercício, mas com as condições que cercam.
Sobre a melhor atividade, eu falo que as pessoas esquecem que por trás de um diagnóstico existe um ser humano. Seria injusto eu apontar uma atividade, e há quem goste de outra.
Mas, de maneira geral, a ciência tem mostrado benefícios da musculação, dos esportes coletivos, das corridas de rua, do treinamento aeróbico, do HIIT (Treino Intervalado de Alta Intensidade) e de diversas modalidades que têm causado muitos benefícios para os neurodivergentes.
O foco está na intensidade da atividade. Quanto mais intensa for a prática daquela atividade, mais benefícios tem. Por isso é tão legal achar uma atividade que a criança goste. Ela vai ter mais vontade de ir e vai se dedicar mais. O sedentarismo para os neurodivergentes é uma arma muito negativa, que potencializa a dificuldade que a criança tem.
Quais foram as mudanças mais marcantes que você já observou nessas crianças e adolescentes que passaram a praticar exercícios regularmente?
Essas mudanças são incríveis. Temos desde crianças que passaram a atuar no alto rendimento, até crianças que hoje fazem parte de escolinhas esportivas e de clubes de futebol. Tem criança que ganhou bolsa de estudo nos Estados Unidos para nadar no High School, que é o ensino médio.
Há criança em que a grande evolução foi passar a aceitar participar de uma educação básica e escolar, porque antes ela tinha dificuldades sensoriais, mas através do esporte fomos resolvendo essas questões e hoje ela consegue conviver na aula de educação física com 40 outras crianças. Os ganhos são muito particulares e individuais.
Para os pais dessas crianças e adolescentes, qual a mensagem que você deixaria?
Ser mãe e pai atípico é uma missão difícil em nosso País, com muita falta de acolhimento, das mais diversas áreas. E fazer exercício físico, pela cultura que temos, já não é prioridade. Mas o exercício feito pelos pais não vai apenas dar energia para cuidar dos filhos, vai servir de exemplo.
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