Empresas ampliam folga para não ficarem sem profissionais
Seguindo tendência mundial para atrair e reter profissionais, empresários do Espírito Santo têm aberto mão da escala 6x1
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A dificuldade de contratar e reter trabalhadores tem levado empresários a repensar a jornada de trabalho. Diante da escassez de mão de obra, algumas empresas no Espírito Santo passaram a adotar escalas com mais dias de descanso.
Um exemplo dessa mudança vem do Grupo Coutinho, responsável pela rede de supermercados Extrabom. Três unidades da rede – Laranjeiras, na Serra; Praia de Gaivotas, em Vila Velha; e Vila Rubim, em Vitória –, vão adotar a escala 5x2, em que o trabalhador atua por cinco dias e tem dois de folga por semana.
A iniciativa será detalhada pelo presidente do grupo, Luiz Coutinho, em entrevista nesta quinta-feira (12), às 14h30.
Segundo o grupo, a medida vai ao encontro da visão da empresa de ser relevante no mercado local, e tem por objetivo aumentar a satisfação dos colaboradores e contribuir para atratividade e retenção na empresa, além de melhorar o atendimento das lojas, reforçando o propósito de paixão em servir.
No dia 1º de abril, a nova unidade da Loja do Thor, na Barra do Jucu, Vila Velha, será inaugurada já com a adoção da escala 5x2. A proposta, em fase de detalhamento pelo setor de Recursos Humanos, é que o modelo seja ampliado gradualmente para outras unidades da rede.
O vice-presidente da Fecomércio-ES, José Carlos Bergamin, destaca que algumas empresas já analisam escalas alternativas, como a de 12 horas de trabalho por 36 de descanso. “Nesse modelo, as equipes se revezam naturalmente, permitindo que a operação funcione de forma praticamente contínua, com dois turnos alternados e períodos mais longos de descanso para os trabalhadores”.
A Samarco informou que adota o regime 5x2 para as atividades administrativas, enquanto, nas operações, os empregados atuam em regime de turno, conforme as necessidades operacionais.
O advogado empresarial Fabiano Cabral reforça que muitos setores passaram a oferecer cursos de capacitação, formação profissional ou apoio ao ensino superior, além de benefícios e jornadas mais flexíveis ou reduzidas.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Estado, Fernando Otávio Campos, afirma que, no setor, muitas empresas têm migrado para a escala 12x36. Nesse modelo, a jornada mensal é de cerca de 180 horas, com semanas que alternam 36 e 48 horas de trabalho, resultando em uma média semanal de 42 horas.
Governo federal admite alta de custos de 4,7%
Enquanto as discussões sobre a redução da jornada semanal de trabalho avançam no Congresso, o Ministério do Trabalho fez um estudo para sustentar economicamente a defesa da tese de fim da escala 6x1 no Brasil e a limitação da carga semanal em 40 horas.
O material ao qual o jornal O Globo teve acesso aponta que a medida deve gerar aumento de 4,7% nos custos com folha de pagamentos, mas com diversidade relevante de impacto entre os setores.
Por outro lado, a medida deve gerar aumento de 1/4 de produtividade do trabalho, compensando pelo menos parte do aumento de custos, embora esse ganho não esteja calculado no material.
Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado (Findes), Paulo Baraona, a discussão sobre a jornada de trabalho precisa considerar as diferentes realidades e dinâmicas de cada setor e empresa.
“Nesse contexto, a Findes defende que qualquer proposta de mudança na legislação sobre redução da jornada semanal seja amplamente debatida. Trata-se de um tema que exige diálogo, análise técnica e amadurecimento das propostas, evitando decisões apressadas que possam gerar impactos na competitividade das empresas e na geração de empregos”.
Mas antes de tudo, ele diz que é preciso avançar sobre a questão da produtividade. “Embora o Brasil seja a 10ª maior economia do planeta, ocupa apenas a 94ª posição em produtividade por hora trabalhada. O dado reforça um alerta: seguimos perdendo competitividade em um cenário internacional”.
Saiba mais
Ministro defende mudança
Em audiência pública realizada na última terça-feira pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, afirmou que “o que cabe neste momento é a escala 5x2”, ou seja, cinco dias de trabalho para dois de descanso, com redução para 40 horas semanais.
O ministro disse ainda que a economia hoje suporta esse patamar, e não o de 36 horas.
Análise
“Folga passou a ser um diferencial competitivo”
“A tendência é que esse debate sobre jornada de trabalho ganhe cada vez mais espaço no mercado.
Esse movimento tem relação direta com a dificuldade que muitas empresas estão enfrentando para contratar e manter profissionais, principalmente em funções operacionais.
Hoje o trabalhador também avalia muito a qualidade de vida e o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.Tenho percebido que a folga passou a ser um diferencial competitivo. Empresas que conseguem oferecer escalas mais equilibradas tendem a atrair mais candidatos e também a reduzir a rotatividade.
Outro ponto importante é que equipes mais descansadas costumam apresentar mais engajamento e produtividade.
Por isso, algumas empresas estão reorganizando turnos e ampliando equipes para conseguir oferecer dois dias de descanso semanais.
As empresas que se anteciparem e pensarem em condições de trabalho mais sustentáveis provavelmente terão mais facilidade para formar e manter suas equipes”.
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