“Trends” na internet: médicos alertam para dicas de saúde criadas por IA
Apesar do tom leve e bem-humorado, elas podem levar pessoas a tomarem decisões sem supervisão profissional, dizem especialistas
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Maçãs que falam sobre dieta, corações animados explicando sintomas e até objetos do dia a dia dando conselhos médicos: a nova tendência dos “objetos animados”, criada com auxílio de Inteligência Artificial, tem viralizado nas redes sociais ao dar conselhos sobre nutrição e saúde.
Apesar do tom leve e bem-humorado, quando essas produções ultrapassam o entretenimento, podem induzir à desinformação e levar pessoas a tomarem decisões sem respaldo científico ou supervisão profissional, alertam especialistas.
O diretor científico da Associação Médica do Espírito Santo, Walter Fagundes, explica que esses conteúdos devem ser recebidos com cautela. “Três eixos precisam ser considerados: o potencial da tecnologia, os riscos da desinformação e a necessidade de supervisão profissional”.
Ele reforça que a tecnologia pode ampliar o acesso à informação, mas não substitui a avaliação médica. “A Inteligência Artificial tem um enorme potencial para democratizar informações de saúde, mas ela é uma ferramenta.”
Quem faz diagnóstico, avalia contexto clínico e toma decisões terapêuticas ainda é o médico. Na área da saúde, o contexto do paciente é muito importante, destaca o médico.
No âmbito regulatório, o Conselho Federal de Medicina publicou recentemente a Resolução nº 2.454/2026, que normatiza o uso da Inteligência Artificial na prática médica. O relator da norma, Jeancarlo Cavalcante, destacou que a medida estabelece limites e responsabilidades.
“O paciente precisa ser informado se a Inteligência Artificial for utilizada durante o processo de assistência. Os médicos são responsáveis pelas ferramentas que utilizam e, em caso de dano ao paciente, o médico é o responsável”.
Ele enfatiza que a IA não pode atuar de forma autônoma na medicina. “Ela não pode dar um diagnóstico sozinha. Tem sempre que haver supervisão médica”.
Na Universidade Federal do Espírito Santo, o Laboratório de Inteligência Artificial em Saúde (Life/Ufes) atua na geração e exploração de conhecimentos na área de Informática em Saúde. O coordenador do laboratório, o professor André Pacheco, explica que o uso da tecnologia deve ser colaborativo.
“Hoje, o nome Inteligência Artificial virou um termo 'guarda-chuva'. As pessoas associam muito a chatbot, mas muitas aplicações são diferentes disso. Dentro do nosso laboratório, a nossa prática é sempre dar subsídio ao profissional de saúde, nunca tomar a decisão final”.
Como se proteger
1. Verifique a autoria do conteúdo
Antes de confiar em qualquer dica de saúde, é fundamental checar de onde é a informação.
Procure saber se há um profissional habilitado ou uma instituição reconhecida por trás do conteúdo. A ausência de autoria clara é um sinal de alerta.
2. Desconfie de promessas milagrosas
Tratamentos rápidos, resultados garantidos ou “curas naturais” que servem para todos costumam ser indicativos de desinformação.
Na medicina, não existem soluções universais, e cada caso precisa ser avaliado individualmente.
3. Não substitua consulta médica por conteúdo on-line
Informações encontradas na internet podem orientar, mas não substituem avaliação clínica. Sintomas semelhantes podem ter causas diferentes, e apenas um profissional pode analisar o contexto completo.
4. Autoridade profissional
Vídeos e imagens produzidos por IA podem usar termos médicos e apresentar estética profissional. No entanto, aparência técnica não significa que o conteúdo seja baseado em evidências científicas.
5. Evite tomar decisões com base em um único conteúdo
Não inicie, interrompa ou altere medicamentos por causa de uma postagem, vídeo ou resposta de chatbot.
Mudanças no tratamento devem sempre ser discutidas com um profissional de saúde.
6. Considere o seu contexto individual
Uma mesma orientação pode ser adequada para uma pessoa e perigosa para outra. Idade, histórico de doenças, uso de medicamentos e condições pré-existentes fazem diferença na conduta médica.
7. Use a tecnologia apenas como apoio
A Inteligência Artificial pode ser útil para organizar informações e ampliar o acesso ao conhecimento.
Porém, deve ser encarada como ferramenta complementar, e não como substituta da orientação médica qualificada.
8. Atenção ao compartilhamento impulsivo
Antes de repassar um vídeo ou postagem com dicas de saúde, reflita se a informação é segura e verificada.
Compartilhar conteúdo incorreto sobre saúde pode ampliar a desinformação e também prejudicar outras pessoas.
9. Desconfie de conteúdos que geram medo ou urgência excessiva
Mensagens que afirmam que “você está em risco” ou que “precisa agir imediatamente” costumam explorar o medo para ganhar engajamento.
Decisões em saúde devem ser tomadas com calma e orientação adequada.
10. Procure canais oficiais
Prefira informações divulgadas por instituições de saúde, universidades, sociedades médicas ou órgãos reguladores.
Esses canais costumam seguir critérios técnicos e científicos mais rigorosos.
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