Vício em apostas já começa aos 11 anos, aponta estudo
Pesquisa revela que até 36% dos jovens jogaram no último ano. Facilidade de acesso por meio de celulares expõe menores ao vício
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O acesso a jogos de apostas tem se tornado cada vez mais facilitado com o avanço da tecnologia e a popularização das plataformas digitais. O que antes era restrito a ambientes físicos e ao público adulto, agora está ao alcance de crianças e adolescentes por meio de celulares, computadores e tablets.
Um estudo recente conduzido pela Common Sense Media, organização norte-americana, ouviu mais de 1.000 meninos de 11 a 17 anos nos Estados Unidos e revelou que até 36% deles jogaram em cassinos no último ano. Além disso, quase um em cada quatro participa de atividades baseadas em jogos que simulam apostas.
Para o psicólogo Alexandre Brito, o fato de crianças e adolescentes conseguirem acessar esse tipo de conteúdo revela falhas de proteção em diferentes níveis da sociedade.
“Toda vez que uma criança acessa algo que não deveria, alguém permitiu. Isso mostra uma deficiência na proteção da criança e do adolescente. Tanto as empresas e os órgãos fiscalizadores quanto as famílias têm responsabilidade nesse processo”, afirma.
A psicóloga Kamila Vilela destaca que o problema é ainda mais delicado porque o cérebro do adolescente está em formação, o que dificulta a avaliação de riscos e consequências.
“Essa área do cérebro responsável pelo controle dos impulsos e pela avaliação de risco só amadurece completamente na vida adulta. Por isso, o adolescente fica muito mais vulnerável a comportamentos de risco e à promessa de dinheiro rápido”, explica.
A psicóloga infantil Paula Santos compara o efeito das apostas ao mecanismo de recompensa observado no uso de drogas.
“É um tipo de recompensa muito semelhante, porque também gera essa dopamina rápida no cérebro, o que torna esse comportamento altamente viciante”, alerta.
Além do risco de dependência, especialistas apontam impactos no comportamento familiar. Mentiras para esconder o uso do dinheiro, conflitos dentro de casa e dificuldades emocionais podem surgir ao longo do tempo.
O enfrentamento do problema passa por diferentes frentes, como uma maior fiscalização das plataformas, acompanhamento das famílias e educação digital.
Terapia e até remédios para tratar o problema
O tratamento para pessoas que desenvolvem dependência em jogos de apostas pode envolver diferentes estratégias terapêuticas, que vão desde o acompanhamento psicológico até o uso de medicamentos em alguns casos.
O objetivo é identificar os padrões de comportamento relacionados ao vício e trabalhar formas de reduzir o impacto que ele causa na rotina e na saúde emocional.
Segundo o psicólogo Alexandre Brito, o processo terapêutico busca compreender como o vício se manifesta na vida da pessoa e criar alternativas que ajudem a interromper esse ciclo.
“A gente trabalha em cima do padrão de comportamento para evitar repetições. É um trabalho conjunto com a rede de apoio da pessoa, tentando entender o lugar do vício na vida dela e desenvolver atividades que façam com que ela não continue nesse comportamento”.
Em alguns casos, a psicoterapia pode ser combinada com tratamento medicamentoso. De acordo com o especialista, os remédios costumam ser indicados principalmente para controlar sintomas de ansiedade, que muitas vezes aparecem quando a pessoa tenta interromper o hábito.
“Quando a pessoa fica sem o vício, ela pode desenvolver ansiedade. E aí acaba recorrendo novamente ao jogo para tentar diminuir essa ansiedade. Por isso, às vezes, é necessário associar a psicoterapia com a terapia medicamentosa”.
O tratamento pode variar conforme a idade do paciente. No caso de crianças e adolescentes, a participação dos pais é ainda mais importante, já que são eles que têm maior controle sobre o acesso a celulares, computadores e outros meios digitais.
A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) disse que, na rede pública, o fluxo no cuidado a essas pessoas permanece o mesmo, sendo a porta de entrada pela Atenção Primária à Saúde.
“Nos casos em que necessitar de atendimento clínico e terapêutico especializado em saúde mental, o paciente será encaminhado para o cuidado pela atenção especializada por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps)”, disse, em nota.
Saiba mais
Acesso precoce
Cérebro em desenvolvimento
Áreas responsáveis pelo controle dos impulsos, planejamento e avaliação de riscos só se desenvolvem completamente na fase adulta.
Isso torna o adolescente mais vulnerável a comportamentos impulsivos e decisões precipitadas.
Vício
Os jogos de apostas estimulam mecanismos de recompensa no cérebro, liberando dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer.
Quando esse estímulo ocorre de forma rápida e frequente, o jovem pode se acostumar a buscar recompensas imediatas, aumentando o risco de desenvolver comportamentos compulsivos e dependência.
Lidar com frustrações
Como os jogos são projetados para oferecer ganhos ocasionais e perdas frequentes, o adolescente pode desenvolver ansiedade, frustração e dificuldade para lidar com derrotas.
Esse processo pode impactar a forma como ele enfrenta desafios na vida real, como estudos, metas pessoais e relações sociais.
Comportamento e família
O envolvimento com apostas pode levar a mentiras para esconder perdas financeiras ou o tempo gasto nas plataformas, além de conflitos familiares.
Perda de interesse
A busca constante por recompensas rápidas pode diminuir o interesse por atividades que exigem esforço e dedicação, como estudar, praticar esportes ou desenvolver habilidades.
O que fazer?
Acompanhamento
O acompanhamento do conteúdo que é acessado na internet é uma das principais formas de prevenção.
A supervisão do uso de celulares, tablets e computadores ajuda a identificar conteúdos inadequados e a evitar o contato com plataformas de apostas.
Controle
Estabelecer limites claros para o tempo de uso de dispositivos e monitorar os aplicativos instalados. Ferramentas de controle parental podem ajudar a restringir conteúdos e impedir o acesso a sites e jogos de apostas.
Diálogo
Conversar abertamente com crianças e adolescentes sobre o funcionamento das apostas, os riscos financeiros e emocionais envolvidos e as consequências do vício ajuda a desenvolver senso crítico e responsabilidade.
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