Estudo analisa “bactérias do bem” no autismo
Pesquisa brasileira avança no diagnóstico precoce do autismo e aponta benefícios de probióticos no tratamento
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Com 2,4 milhões de pessoas no Brasil diagnosticadas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), e mais 51 mil no Espírito Santo, segundo Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cientistas brasileiros estão se debruçando em descobrir formas de identificar a condição precocemente, além de novos compostos que possam auxiliar no tratamento.
Pesquisadores do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul identificaram um RNA circular com potencial para diagnóstico mais precoce do autismo, que agora será analisado em amostras humanas.
Já no Espírito Santo, Sarha Andrade Lobo de Queiroz, médica psiquiatra com doutorado em Ciências Farmacêuticas, desenvolveu uma pesquisa em que analisa uso de probióticos (“bactérias do bem”) no autismo.
O estudo avaliou os efeitos de uma mistura probiótica derivada de kefir — alimento fermentado conhecido por conter microrganismos benéficos ao intestino — em crianças.
Publicada na BMC Pediatrics (2026) e indexada na PubMed, base de dados da National Library of Medicine dos Estados Unidos, a pesquisa demonstrou que crianças que utilizaram os probióticos apresentaram, entre os benefícios, melhora na comunicação e redução de comportamentos como irritabilidade e ansiedade.
A Tribuna — O que te levou a investigar o papel dos probióticos no autismo e qual a importância do eixo intestino-cérebro nessa relação?
Sarha Queiroz — Sempre acreditei que o cérebro não funciona isolado. Ele responde ao ambiente onde está inserido. No mestrado, aprofundei o estudo da comunicação entre intestino e cérebro e compreendi que a microbiota participa da regulação imunológica, metabólica e até da sinalização neural.
Paralelamente, no consultório, eu escutava famílias relatarem padrões semelhantes de crianças autistas: alterações gastrointestinais recorrentes, dificuldades na interação social, sono fragmentado, irritabilidade e desregulações. Foi essa observação que me levou ao doutorado e à condução de um ensaio clínico randomizado e controlado.
Quais foram os principais resultados observados nas crianças que usaram o probiótico?
Nas crianças que receberam as formulações probióticas, observamos melhora significativa em áreas fundamentais do desenvolvimento como comunicação, socialização, habilidades motoras, habilidades de vida diária e regulação comportamental.
Além disso, identificamos mudanças biológicas coerentes com essas melhoras, como redução de marcadores inflamatórios, metabólicos e intestinais.
Durante os 90 dias do estudo, algumas famílias relataram situações que marcaram profundamente nossa equipe. Tivemos criança de 6 anos avançando no desfralde após um período prolongado de dificuldade. Tivemos pais emocionados relatando que o filho não verbal passou a chamar “mamãe” de forma direcionada, com intenção comunicativa clara.
Observamos crianças que passaram a sustentar mais o contato visual, a buscar mais interação, a demonstrar maior presença no ambiente. Tivemos relatos consistentes de menor irritabilidade, menos explosões e mais calma ao longo do dia. Algumas famílias referiram melhora no padrão de sono — e isso, em um lar com criança no espectro, pode mudar completamente a dinâmica da casa.
Os probióticos podem ser considerados hoje uma terapia complementar no TEA?
As terapias com maior evidência continuam sendo as intervenções comportamentais, educacionais e, quando indicado, farmacológicas. Na prática clínica, os probióticos, quando bem indicados, com formulações estudadas, acompanhamento médico e inseridos dentro de um plano terapêutico estruturado, podem atuar como coadjuvantes. A psiquiatria moderna caminha para uma abordagem mais personalizada e sistêmica.
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