John Davidson explica tiques da síndrome de Tourette após ofensas racistas durante o Bafta
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John Davidson, inspiração do filme I Swear, se pronunciou pela primeira vez em uma entrevista após os episódios ocorridos na 79ª edição do Bafta Awards. Durante a cerimônia, seus tiques vocais associados à síndrome de Tourette interromperam a apresentação do prêmio feita por Michael B. Jordan e Delroy Lindo, incluindo ofensas raciais.
À revista Variety, Davidson afirmou ter procurado o estúdio responsável por Pecadores para pedir desculpas diretamente a Jordan, Lindo e à designer de produção Hannah Beachler.
"Quero que as pessoas saibam e entendam que meus tiques não têm absolutamente nada a ver com o que eu penso, sinto ou acredito. É uma falha neurológica involuntária", escreveu. "Não é intenção, não é escolha e não é reflexo dos meus valores."
Coprolalia e estigma
Davidson explicou que convive com a coprolalia, sintoma caracterizado pelo uso involuntário de linguagem obscena ou ofensiva. Segundo ele, embora afete uma parcela das pessoas com Tourette e não seja critério para diagnóstico, está entre os tiques mais difíceis de administrar.
"Muitas vezes a mídia foca no meu tipo específico de Tourette, mas esse sintoma atinge de 10% a 30% das pessoas com a condição", afirmou. "O verdadeiro desafio não são os tiques em si, mas os equívocos em torno deles."
Ele relatou já ter sido agredido após um tique e disse que o impacto emocional costuma ser intenso. "Quando surgem palavras socialmente inaceitáveis, a culpa e a vergonha são muitas vezes insuportáveis", declarou. Sobre o episódio no Bafta, acrescentou: "Não consigo começar a explicar o quanto fiquei chateado e angustiado à medida que o impacto de domingo foi caindo a ficha."
Ao descrever o momento em que percebeu que poderia ser ouvido no auditório, afirmou: "Quando meus tiques de coprolalia saíram, meu estômago despencou. Como sempre, senti uma onda de vergonha e constrangimento de uma só vez. Você quer que o chão se abra."
Supressão e gatilhos
Davidson afirmou que, no seu caso, há pouca capacidade de suprimir os tiques, especialmente em situações de estresse. "Meu cérebro funciona muito rápido e os tiques sempre foram muito agressivos. Eu não tenho ideia de quando eles vão surgir ou quais serão", explicou. "Quando a situação é estressante, eu simplesmente não tenho escolha. Eles explodem como um disparo."
Ele comparou a tentativa de controle à pressão acumulada em uma garrafa de refrigerante chacoalhada repetidamente: "Antes que você perceba, a pressão é tão intensa que precisa ser liberada."
O ativista também mencionou a ecolalia, quando estímulos auditivos desencadeiam tiques. Segundo ele, ao longo da noite, cerca de dez palavras ofensivas diferentes foram pronunciadas.
"A palavra racial foi uma delas. Eu compreendo completamente seu peso histórico e no mundo atual, mas muitos artigos estão dando a impressão de que gritei apenas um único insulto."
Decisão de deixar o auditório
Davidson contou que tentou se acalmar, mas decidiu sair da sala para evitar novos constrangimentos. "Eu dizia para mim mesmo: 'Por favor, não me julguem. Por favor, entendam que não sou eu'", relatou. Ele foi encaminhado a uma sala reservada, onde assistiu ao restante da premiação.
Segundo o ativista, a presença no evento se justificava pela ligação direta com I Swear, projeto desenvolvido ao longo de três anos, no qual atua como produtor executivo. "Eu tinha tanto direito de estar lá quanto qualquer outra pessoa", afirmou.
Ele disse ainda que havia a expectativa de que eventuais palavrões fossem editados da transmissão e que imaginava que a emissora responsável, a BBC, estivesse preparada para lidar com a situação técnica. "Eu estava a cerca de 40 fileiras do palco. Pela falta de reação inicial, presumi que não poderia ser ouvido."
Terminologia e percepção pública
Após anos de atuação pública sobre a síndrome de Tourette, Davidson avaliou que ainda há resistência na compreensão da condição. "Comentários dizendo que eu só diria essas coisas se pensasse nelas mostram que ainda há muito trabalho a ser feito", escreveu.
Ele também pediu cuidado com a linguagem adotada na cobertura. "É importante não usar a palavra 'deficiência'. Na comunidade, consideramos Tourette uma 'condição'", afirmou. "Prefiro a formulação: 'Eu vivi com a condição '"
Para ele, o episódio no Bafta foi uma versão ampliada do que enfrenta no cotidiano. "Essas situações são a razão pela qual, em muitos períodos da minha vida, tive medo de sair de casa - porque fico ansioso sobre o que posso tiquear e como as pessoas vão reagir."
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