“Foi a maior decepção da minha vida”, diz cardiologista envenenado no ES
Secretária, com quem ele trabalhou por 12 anos, está presa e é acusada de envenená-lo durante meses para ocultar um desvio de dinheiro
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Aos 90 anos, depois de uma vida dedicada à Medicina, Victor Murad jamais imaginou que enfrentaria uma das batalhas mais difíceis de sua vida fora dos hospitais.
Professor e cardiologista respeitado, o médico revelou a tristeza ao saber que foi traído pela secretária, com quem trabalhava há 12 anos. “Foi a maior decepção da minha vida. Eu confiava nela para tudo”.
Bruna Garcia Barbosa Marinho está presa e é acusada de envenenar o médico durante meses. Segundo as investigações, ela teria misturado arsênio à comida e bebida entregues ao chefe.
A Tribuna - Há quanto tempo Bruna trabalhava para o senhor?
Victor Murad - Fazia 12 anos. Era uma pessoa que tinha minha completa confiança até então. Era filha de uma outra funcionária. A mãe dela trabalhava com a gente há mais de 20 anos. Eram tratadas como família.
E o que ela fazia para o senhor?
Ela era secretária lá na clínica. E fazia todo tipo de serviço de secretária, inclusive pagamentos.
E, até então, o senhor não desconfiava de nada?
Não. Ela era uma pessoa muito simpática, de fala boa. Todos gostavam dela na clínica. Por isso foi uma decepção tão grande para mim. Depois de tanto tempo de convivência fazer o que ela fez. Eu não esperava por isso.
E quando o senhor descobriu que tinha algo errado?
Começou em 2023. Primeiro, eu comecei a notar que ela estava rasurando cheques que eu assinava. Eu fazia os pagamentos em cheque e ela acrescentava um número na frente, então escrevia no livro de caixa o que ela estava pagando e quem estava pagando, mas não batia.
Eu a questionei e ela pediu perdão. Chorou e disse que não faria mais. Meu erro foi ter deixado passar, porque eu realmente achava que ela era uma boa menina.
E ela não parou?
Piorou muito. Ela então fez um Pix da minha conta, que eu não tinha, e até fez um cartão para ela. Eu não tinha noção de nada disso. Um dia, fomos pagar um imposto que era alto, e o cheque foi devolvido. Aí que vi que minhas duas contas tinham sido zeradas.
Eu fui ao banco e começamos a descobrir os desvios e empréstimos feitos em meu nome. Tinha fatura de cartão de crédito que dava R$ 50 mil.
Ela alega que os valores eram pagamentos para ela...
Como iria pagar isso tudo? Tinha pagamento de material de ferragem para o marido dela trabalhar. Como eu iria comprar ferro se não sou ferreiro? Então contratamos o advogado Waldyr Loureiro para iniciar uma perícia.
Ela foi demitida?
Ano passado, logo após o Carnaval ela foi questionada e pediu para sair.
Nessa época o senhor já estava passando mal?
Sim. Eu estava passando mal há muito tempo. Estava muito debilitado. Emagreci 12 quilos. Estava sonolento, cansado. Vomitava sangue. Meu estado era muito ruim. Mas até então a gente não tinha noção do que era. Só sabia que não era algo normal.
Só depois que foi descoberto o vidro de arsênio e a comprovação da perícia que entendemos o quadro.
O senhor passou a se sentir melhor depois que ela saiu?
Muito melhor. Ainda faço fisioterapia todos os dias. Também tomo meu chá de cúrcuma, com pimenta-preta e canela.
Acredito que se não tomasse durante todo o tempo que tomei o arsênio seria muito pior. Porque a cúrcuma é anti-inflamatória e atua como um antídoto. Sem saber, eu estava tomando.
Para o senhor, que durante a vida toda trabalhou ajudando pessoas, o que espera?
Eu não sou da Justiça para ter que perdoar ninguém, mas acredito que ela vá pagar de alguma forma pelo que fez. Não consigo imaginar como uma pessoa faz isso com outra, se perde assim. É a maior decepção da minha vida.
O outro lado
Acusada afirma que é inocente
Bruna Garcia Marinho alega que é inocente dos crimes dos quais é acusada. Segundo o advogado, João Marles Marinho dos Santos, será demonstrado durante o processo que as alegações de desvio de dinheiro não condizem com a verdade.
“Ela afirma que o médico, na verdade, sabia dessas transações feitas e tinha a autorização dele. Vamos comprovar, ainda, que o montante total que ela é acusada de desviar, de R$ 600 mil, é totalmente descabido”, argumentou.
Segundo a defesa, apesar de Bruna ter sido contratada como secretária, ela fazia uma série de serviços dentro da clínica que iam além, incluindo alguns que sequer era qualificada para exercer.
“Ela trabalhava além do tempo legal, ultrapassando as oito horas. Tanto ela quanto a mãe e até o marido praticamente ficavam à disposição do médico. Quando ele ficava internado ou precisava ir para qualquer lugar, eles é que eram chamados. Esses pagamentos extras, inclusive, eram para cobrir essas situações”, afirmou o defensor.
Com relação à acusação de envenenamento, o advogado ressaltou que a cliente não tem qualquer tipo de participação. “Inclusive, a gente vai demonstrar no processo que, na verdade, quem tinha interesse em envenenar o médico era outra pessoa. Neste momento, não vamos apontar quem é, mas isso vai ficar demonstrado durante a instrução”.
João Marles Marinho dos Santos frisou que a defesa ingressou com um pedido de liberdade para Bruna, mas aguarda o prazo para que o Ministério Público se manifeste.
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