Quem é o nosso vizinho, e por que aprendemos a não vê-lo
Toda sociedade precisa de um vizinho, sobretudo para aquilo que não quer ver
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
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Em 1964, aos 28 anos, morria Kitty Genovese. Foi brutalmente atacada até a morte sob o olhar de vizinhos que nada fizeram. O episódio motivou estudos sobre porque, diante de um fato tão evidente e evitável, a inação prevalece. A esse fenômeno deu-se o nome de efeito espectador.
Há ilusões frequentemente associadas à ideia de objetividade: posicionamentos que se apresentam como análise, mas são apenas opinião ainda não examinada.
Quando a responsabilidade é difusa, a culpa se dissipa; quando todos podem agir, ninguém age. Não somos responsáveis pelo que acontece — dizemos a nós mesmos — somos apenas vítimas das circunstâncias.
A humanidade, o sistema, a sociedade, o mercado, o desenvolvimento, os ricos, os pobres. Todo argumento leva ao inequívoco nós contra nós mesmos, pois alguém poderia ter feito o que ninguém fez, porque cada um supôs que outro faria.
O efeito espectador não é indiferença moral. É arquitetura social da decisão. É nesse arranjo que transferimos ao outro uma responsabilidade que ampliamos pelo poder que lhe atribuímos, pelo cargo que ocupa, pelo papel que imaginamos que deveria exercer ou, simplesmente, pela nossa disposição a obedecer. Sim, obedecer. A responsabilidade aumenta à medida que se afasta de nós.
Algo não é reconhecido porque é grande; torna-se grande porque foi reconhecido, e quem reconhece somos nós. Valor não é propriedade natural, é produção social. E um comportamento ético não depende apenas de valores declarados, depende de uma configuração social que distribui incentivos, riscos e consequências.
Não assistimos porque somos indiferentes. Assistimos porque aprendemos que agir pertence sempre ao outro, e quase sempre ao vizinho. O equívoco não está no comportamento das pessoas, mas nas condições que o produzem.
Talvez a história nunca tenha sido sobre a mulher na rua e os vizinhos na janela. Talvez sempre tenha sido sobre sistemas que distribuem responsabilidade de modo tão difuso que ninguém precisa agir, mas todos podem continuar olhando.
Essa dinâmica raramente se apresenta como conflito. Ela se dilui e se institucionaliza em categorias aparentemente neutras como economia, mercado, crescimento, pobreza, cidade, saneamento, saúde, reorganizadas sob a gramática abrangente do que se convencionou chamar de “justiça social”.
O que na rua parece hesitação individual, no território se torna regra. A distribuição do espaço urbano é, no fundo, uma distribuição de permissões: onde se pode sofrer, onde se pode respirar, onde se pode adoecer, onde se pode ignorar.
Não é que alguns lugares concentrem riscos. É que o risco precisa estar em algum lugar, e a ordem social decide onde. Nenhuma cidade elimina seus custos; ela apenas os organiza geograficamente. O mapa urbano, visto sem ingenuidade, é menos um retrato da paisagem e mais um diagrama de responsabilidades deslocadas.
É por isso que certas áreas parecem sempre expostas, enquanto outras parecem sempre protegidas. Não se trata de fatalidade territorial. Trata-se de decisão sedimentada. O território não cria vulnerabilidade; ele a recebe.
Mas é carnaval. Deixemos isso para depois. Vamos olhar o maior evento de materiais descartáveis do mundo, e depois falamos de sustentabilidade e seu custo social. Afinal, a festa é no quintal do meu vizinho.
Continuo o assunto nas redes: Instagram: @jaquespaes; LinkedIn: in/jaquespaes
Jaques Paes é executivo, mestre em gestão empresarial, palestrante, consultor, pesquisador e professor de MBA na Fundação Getulio VargasMATÉRIAS RELACIONADAS:
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Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.