Esporotricose humana entra na lista de notificação compulsória no Brasil
Conhecida como "doença do jardineiro", a infecção é causada por fungos presentes no solo, em plantas, madeira e matéria orgânica em decomposição
A esporotricose humana entrou na lista de notificação compulsória do Ministério da Saúde. A medida vigora desde o dia 23 de janeiro.
Conhecida no passado como "doença do jardineiro", a infecção é causada por fungos do gênero Sporothrix, presentes no solo, em plantas, madeira e matéria orgânica em decomposição, o que explica o nome popular. Ela também pode ser transmitida por pets, como os gatos. Esse meio de transmissão é hoje o principal no Brasil.
A regra ocorre após pequenos surtos urbanos da doença no país. Em 2023, um alerta da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) classificou a transmissão como descontrolada. Segundo o Ministério da Saúde, a obrigatoriedade de notificação auxilia no rastreamento da doença para o controle das infecções e no planejamento de ações conjuntas entre a saúde e o controle de zoonoses.
Em humanos, a doença costuma se manifestar como um nódulo ou ferida na pele, que pode evoluir ao longo dos vasos linfáticos e formar uma sequência de lesões. Elas não têm uma forma específica e exigem biópsia para um diagnóstico preciso, segundo a dermatologista Christiana Blattner, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica.
Na maioria dos casos, a infecção fica restrita à pele e ao tecido subcutâneo, camada imediatamente abaixo da superfície do corpo. A doença, contudo, pode se tornar mais grave em pessoas com a imunidade comprometida, atingindo outros órgãos, como pulmões, ossos, articulações e até o sistema nervoso central. Essa forma ocorre principalmente em pacientes com HIV, câncer, uso prolongado de corticoides ou transplantados, e pode causar infecções graves e dores intensas.
"É bem raro, mas, se ocorrer, o problema pode se agravar. Daí a necessidade do diagnóstico precoce", explica a médica.
Já nos animais, especialmente nos gatos, a doença tende a ser mais agressiva, com múltiplas feridas abertas, secreção abundante e maior capacidade de transmissão. A médica destaca que os animais, assim como os humanos, são vítimas da infecção, e não responsáveis. Assim, devem receber os mesmos critérios de precaução dispensados às pessoas.
"O fungo está na terra, nas plantas; o gato não é o hospedeiro vilão, mas sim vítima", explica Christiana. Pela facilidade de contato com o fungo, há risco de infecção em ambientes de lazer, como parques e praias, mas é possível se prevenir sem pânico.
"Usar calçado, luvas e blusas de manga comprida ao manusear plantas e árvores, por exemplo, é uma forma de evitar o contato com o fungo", diz a médica. A infecção, ela destaca, ocorre quando há um trauma na pele, como um arranhão em espinhos, ou uma mordida do pet.
"É bom lembrar que jardineiros e profissionais que trabalham com animais devem usar equipamentos de proteção para evitar os riscos. Trata-se de uma doença que não mata, mas causa lesões importantes", explica Juvencio Furtado, infectologista do Hospital Heliópolis.
Para Furtado, a notificação compulsória auxilia no controle de focos. "Com a notificação, verificam-se os locais de infecção, entende-se como as pessoas adquiriram a doença e se existem animais infectados. Com isso, é possível orientar a prevenção a partir do perfil dos infectados."
"A notificação também revela a quantidade de casos no Brasil, faz barulho, dá visibilidade à doença e ajuda na conscientização", diz Christiana.
O tratamento para a esporotricose é feito com antifúngicos, principalmente o itraconazol, por períodos que podem variar de semanas a meses, dependendo da gravidade e da resposta do paciente. Tanto em humanos quanto em animais, o diagnóstico precoce é fundamental para evitar complicações e reduzir a disseminação da doença.
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