Técnicos de enfermagem são presos suspeitos de matar 3 pacientes em UTI do DF
Polícia investiga outras 20 vítimas nesse hospital e também em instituições nas quais os suspeitos trabalharam por cerca de cinco anos
Três técnicos de enfermagem foram presos pela Polícia Civil do Distrito Federal, nesta segunda-feira (19), suspeitos de envolvimento em três homicídios no Hospital Anchieta, em Taguatinga.
A motivação dos crimes ainda é investigada. A polícia investiga outras 20 vítimas nesse hospital e também em instituições nas quais os suspeitos trabalharam por cerca de cinco anos, em unidades privadas e públicas.
O Coren-DF (Conselho Regional de Enfermagem do DF) disse que tomou conhecimento do caso pela imprensa e que está monitorando a situação, adotando as providências cabíveis dentro de sua competência.
A Polícia Civil do DF afirma que se baseia em "elementos convincentes e bastante robustos", como vídeos de câmeras de segurança e análises de prontuários, para efetuar as prisões.
Segundo o delegado Wisllei Salomão, da Coordenação de Repressão a Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP), o principal suspeito, de 24 anos, inicialmente negou envolvimento nas mortes, mas acabou confessando o crime depois de ser confrontado com as imagens.
De acordo com o delegado, o medicamento usado, quando administrado fora dos protocolos médicos, pode causar parada cardíaca em poucos minutos —o nome da substância não foi divulgado. O medicamento teria sido usado em ao menos três vítimas: duas no dia 17 de novembro e uma no dia 1º de dezembro.
Segundo Salomão, o técnico acessou o sistema hospitalar deixado aberto, se passando por médico para prescrever o medicamento. Ele foi à farmácia buscá-lo, preparou a dose, a escondeu no jaleco e injetou diretamente na veia dos pacientes.
O criminoso esperava a reação fatal e, para disfarçar, realizava massagem cardíaca falsa, simulando uma tentativa de reanimação na presença da equipe, acrescentou Salomão.
Em um dos casos, sem medicamento disponível em estoque, o técnico injetou desinfetante na veia da vítima mais de dez vezes, garantindo a morte, e repetiu o fingimento de socorro.
"Ele contou também com a conivência de outras duas técnicas de enfermagem que estavam no local, no momento de aplicação. Uma auxiliou a buscar esse medicamento na farmácia e também estava presente no momento em que foi ministrado o medicamento", disse Salomão durante entrevista a jornalistas, nesta segunda.
Uma das técnicas de enfermagem tem 28 anos e também tem histórico de trabalhar em outros hospitais. A outra tem 22 anos e estava no seu primeiro trabalho.
As duas estavam nos quartos das vítimas observando todo o procedimento. "Nas filmagens, elas ficavam olhando a porta para ver se terceiros não entravam", diz Salomão.
Segundo Márcia Reis, diretora do IML da Polícia Civil do DF, os indícios apontam que a aplicação foi irregular e intencional, sem chance de equívocos.
"Eles aplicaram de uma forma irregular, não controlada, de uma forma inadequada, então eles com certeza sabiam dos efeitos potenciais dessa medicação", afirmou.
A diretora afirma que o que chamou a atenção dos peritos foi a piora súbita das vítimas. Os pacientes tinham gravidades diferentes, uma delas tinha o quadro estável.
"Não houve uma piora gradual do quadro deles. Foi uma piora súbita em momentos repetidos que culminaram na parada cardíaca até que chegou no evento do óbito", disse.
Segundo Leandro Oliveira, diretor da da divisão de perícias internas do instituto de criminalística, a investigação planeja reconstruir uma linha do tempo detalhada e extensa ao passado para identificar outras vítimas. "A gente está falando de uns 20 laudos", afirmou.
O Hospital Anchieta disse que identificou "circunstâncias atípicas" nos três óbitos na UTI e, por iniciativa própria, instaurou um comitê interno. A investigação apontou evidências contra os técnicos de enfermagem, que foram desligados e encaminhados às autoridades.
"O Hospital, enquanto também vítima da ação destes ex-funcionários, solidariza-se com os familiares das vítimas, e informa que está colaborando de forma irrestrita e incondicional co m as autoridades públicas", disse a instituição em nota.
Com base nas evidências, a Polícia Civil deflagrou a Operação Anúbis —referência ao deus egípcio da morte— em 11 de janeiro.
Duas pessoas foram presas temporariamente na ocasião e mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Taguatinga, Brazlândia (DF) e Águas Lindas (GO).
Na quinta-feira (15), a segunda fase da operação cumpriu outro mandado de prisão temporária de uma das investigadas e apreendeu dispositivos eletrônicos em Ceilândia e Samambaia, no Distrito Federal.
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