Casa Amarela se mobiliza em caminhada contra feminicídios: foram 76 em 2025
Evento acontece neste domingo e denuncia dados alarmantes de feminicídios, que podem chegar até 84 até o final do ano
Setenta e seis mulheres foram vítimas de feminicídio até 24 de novembro deste ano, segundo dados da Secretaria de Defesa Social. E o mais alarmante. A estimativa é de que, até o final do ano, 84 mulheres sejam mortas principalmente por seus companheiros.
Este número é só a ponta de um iceberg que assusta e revolta. Só para se ter uma ideia, mais de 36 mil registraram boletins de ocorrência por violência doméstica em Pernambuco em 2024, e muitas outras vivem o terror em silêncio.
Neste domingo (30), Casa Amarela será palco de mais um ato contra essa barbárie: a 8ª Caminhada pelo Fim da Violência contra Mulheres e Meninas, a partir das 8h, no Largo Dom Luiz, marca a resistência de uma comunidade que aprendeu, na prática, que “na briga de marido e mulher, é preciso meter a colher”.
Indagada pelo Tribuna Online PE se as mulheres não estão apáticas diante de tantas mortes, Camila Barbalho, empresária e líder do grupo Mulheres do Brasil, responde.
“A Caminhada nasceu para romper a normalização da violência. Não é que as mulheres estejam apáticas, elas estão exaustas de pedir ajuda. O que falta é uma resposta efetiva do poder público. Nosso papel, como sociedade civil organizada, é ocupar as ruas, ampliar a conscientização, incentivar a denúncia e exigir políticas que garantam às mulheres o direito básico de viver sem medo”.
Quando o laranja encontra o branco
Em 2024, milhares vestiram laranja nas ruas do Brasil e do mundo. Agora, para aqueles que não puderem usar a cor do movimento, o convite é para caminhar de branco. Cada passo conta. Cada presença fortalece a luta. Cada voz ajuda a salvar vidas.
“A Caminhada pelo Fim da Violência contra Mulheres e Meninas é um movimento nacional criado pelo Grupo Mulheres do Brasil em 2017, como resposta à escalada de violência que coloca o Brasil entre os países que mais matam mulheres no mundo”, acrescenta Camila Barbalho.
O ato acontece simultaneamente em dezenas de cidades brasileiras e também no exterior, sempre durante os 16 Dias de Ativismo e a campanha internacional da ONU Orange The World, que usa o laranja como símbolo de mobilização.
Pernambuco lidera um dado alarmante
O foco deste ano está no estado: Pernambuco lidera as mortes de mulheres no Nordeste quando somamos feminicídios, homicídios e transfeminicídios.
A maior parte dos crimes acontece dentro de casa, e 70% dos feminicídios são cometidos por parceiros ou ex-parceiros, revelando falhas graves na prevenção.
“Em muitas regiões do interior, como o Sertão do Pajeú, não há Delegacia da Mulher, o que torna quase impossível acessar acolhimento adequado e denunciar com segurança. Hoje, o estado ainda atua mais após o crime do que antes, e essa ausência de proteção custa vidas”, ressalta Camila.
A violência vista por números e olhares
Um pesquisa nacional mostra que 3,7 milhões de mulheres brasileiras sofreram violência doméstica nos últimos 12 meses. Destas, 71% foram agredidas na presença de outras pessoas, e em 70% dos casos havia crianças por perto — cerca de 1,94 milhão de agressões testemunhadas por menores. Em 40% dessas situações, a vítima não recebeu ajuda.
Os dados são do Mapa Nacional da Violência de Gênero — plataforma mantida pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV) do Senado Federal, em parceria com o Instituto Natura e a organização Gênero e Número.
“Cada situação de violência deixa marcas que ultrapassam o momento da agressão. É uma questão estrutural que afeta famílias e comunidades e exige uma resposta coletiva”, observa Maria Teresa Mauro, coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência, em entrevista a Band, da qual a TV Tribuna PE é afiliada.
A pesquisa também revela que 67% das mulheres conhecem pouco a Lei Maria da Penha e 11% desconhecem completamente seu conteúdo, especialmente entre aquelas com menor renda e escolaridade. Mulheres mais velhas conhecem menos a lei: 18% das brasileiras com mais de 60 anos dizem não saber do que se trata.
Mulheres tendem a recorrer primeiro a familiares, depois à igreja, que minimiza drama
Quando buscam apoio, 58% procuram familiares, 53% recorrem à igreja e 52% a amigos. Apenas 28% registram denúncia em delegacias e 11% acionam o Ligue 180. A falta de informação e a dependência econômica tornam o rompimento do ciclo de violência ainda mais difícil.
“Quem acolhe precisa orientar sobre os caminhos de atendimento, garantindo que a mulher se sinta segura para buscar proteção e exercer seus direitos”, afirma Beatriz Accioly, líder de Políticas Públicas pelo Fim da Violência Contra Meninas e Mulheres, do Instituto Natura.
Casa Amarela: berço da resistência
Foi ali, em Casa Amarela, que a patrulha do bairro começou, e que a comunidade mostrou que não se pode aceitar a normalização da violência doméstica. Neste domingo, os passos da caminhada serão ouvidos entre ruas e ladeiras, simbolizando resistência, solidariedade e mobilização.
Judiciário em ação
No Fórum Pernambucano de Juízas e Juízes de Varas de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (Fopevid), a promotora Maísa Melo reforçou a importância da rede interinstitucional: “Atuamos no mesmo propósito, que é a proteção das mulheres. Muitas situações chegam ao sistema de justiça já consumadas, mas as medidas protetivas nos permitem atuar de forma preventiva. Precisamos estar cada vez mais capacitadas e integradas.”
A juíza Ana Marques acrescenta: “A intenção da Coordenadoria da Mulher é transformar o Fopevid em um encontro permanente. Reduzimos números quando trabalhamos juntos, de forma coordenada, conhecendo os programas disponíveis e utilizando-os da forma mais inteligente possível.”
Caminhar é também exigir mudança
A Caminhada de domingo não é só simbólica. É denúncia, é ocupação da rua, é mobilização. É o Brasil que diz “basta” à violência e ao silêncio do poder público. Cada passo tem peso, cada voz tem força. Vestir laranja ou branco é mostrar que não há neutralidade quando vidas estão em risco.
SERVIÇO
🧡 8ª Caminhada pelo Fim da Violência contra Mulheres e Meninas
🗓️ 30 de novembro | 🕘 8h | 📍 Largo Dom Luiz, Casa Amarela
Participe, convide amigos e familiares, caminhe pela vida. Cada passo salva.
Para falar com a reportagem: [email protected]
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