O trabalho invisível da mulher que “não trabalha fora”
Falta de reconhecimento desse trabalho está ligada a uma construção cultural histórica
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“Mas o que você faz o dia inteiro?”, a pergunta, carregada de preconceito, ainda ecoa em muitas casas brasileiras quando se fala da mulher que não exerce uma profissão formal fora de casa. O questionamento, por trás de um tom aparentemente inocente, revela o peso de uma mentalidade machista, compartilhada não apenas por muitos homens, mas também por mulheres que naturalizaram a desvalorização do trabalho doméstico.
A dona de casa, que muitas vezes é reduzida a um rótulo de “quem não trabalha”, acumula funções que exigiriam, fora de casa, a contratação de uma equipe inteira. Ela é cozinheira, lavadeira, passadeira, faxineira, cuidadora de filhos e idosos, administradora do lar, psicóloga da família e, não raro, responsável também por apoiar emocionalmente o marido. Tudo isso sem carteira assinada, sem salário, sem direito a 13º, sem férias e sem afastamento remunerado em caso de doença.
De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mais de 11 milhões de mulheres no Brasil se dedicam exclusivamente ao trabalho doméstico não remunerado. Quando se considera o tempo gasto, os números impressionam ainda mais: em média, as mulheres dedicam 21,4 horas semanais às tarefas do lar e aos cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicam 11 horas, ou seja, praticamente, a metade. Isso significa que, mesmo quando trabalham fora, elas continuam sobrecarregadas com a famosa “dupla ou tripla jornada”.
A falta de reconhecimento desse trabalho está ligada a uma construção cultural histórica. O lar foi, por séculos, considerado “o lugar da mulher”, como se cuidar da casa fosse apenas uma extensão natural da sua condição feminina, e não um trabalho legítimo, que exige esforço físico e mental constantes. Essa lógica perpetua desigualdades e contribui para a invisibilidade social de milhões de brasileiras que, ao fim do dia, estão exaustas, mas ainda escutam: “Você não faz nada”.
O aspecto emocional dessa realidade também não pode ser ignorado. A pressão para estar sempre disponível, sempre de bom humor, manter a casa organizada, os filhos alimentados e bem cuidados, o parceiro satisfeito e a própria aparência em dia gera um peso psicológico devastador. Diferente de outras profissões, o “cargo” de dona de casa não tem horário de início nem fim: é um plantão de 24 horas. A cada noite, ela deita sem direito a desligar o celular ou a cabeça.
Não se trata, portanto, de questionar se esse trabalho vale tanto quanto um emprego formal. A verdade é que sem esse trabalho silencioso e não remunerado, a economia inteira não se sustentaria. Se todas as tarefas domésticas fossem pagas, representariam cerca de 11% do PIB brasileiro, segundo estudos do Ipea. Em outras palavras: sem a dona de casa, a roda não gira.
Dar visibilidade a essa realidade é uma forma de combater o preconceito e romper com a visão machista que insiste em tratar como “não trabalho” a atividade mais essencial de todas: cuidar da vida. Reconhecer a mulher dona de casa é reconhecer que ela não é “apenas esposa” ou “apenas mãe”. Ela é trabalhadora em tempo integral, sem benefícios e sem descanso.
A pergunta que deveria ecoar, portanto, não é “o que você faz o dia inteiro?”, mas sim: como podemos valorizar mais quem dedica a vida inteira ao cuidado do lar e da família.
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