Novos rumos e inovações em escolas e faculdades
Especialistas afirmam que, após a pandemia, ensino nunca mais será o mesmo e que é preciso seguir com uma didática diferente
A educação viveu tempos difíceis durante a pandemia por causa da necessidade do isolamento social. A tecnologia, a criatividade dos professores e a boa gestão de estratégias foram essencial para que o ensino não parasse.
Mas o mundo, a escola e os alunos já não são mais os mesmos. Por isso, é preciso um “reset”, ou seja, recomeçar com uma programação diferente.
Foi o que expuseram os especialistas em educação na 10ª edição do Congresso Educacional das Escolas Particulares do Espírito Santo realizado pelo Sindicato das Empresas Particulares de Ensino do Estado (Sinepe) com o apoio da Rede Tribuna.
“A tecnologia foi fundamental para a educação, mas ela não fez toda a diferença que poderia, talvez, até fazer. Mas ela sozinha não cumpre o papel de educar”, pontua a pedagoga e especialista em educação infantil Regina Shudo.
Ela ressalta que, a partir de agora, a escola tem de recomeçar. “Aquele percurso que as escolas tinham até antes de 20 de março de 2020, antes da pandemia, nunca mais vai voltar. A escola agora tem de ser outra. O percurso para educar seu aluno terá de ser outro. Muitos jovens estão sem perspectiva de vida”.
Ela lembra ainda que o excesso de telas vem gerando prejuízos desde 2012, com o aumento da ansiedade, a diminuição da interação e outros. “Por isso, é hora de frear um pouco. Ninguém vai abrir mão da tecnologia, mas a escola, agora, vai ter de fazer um papel inverso, o de liberar ocitocina”, pontua.
Regina explica que a tecnologia libera dopamina no cérebro, que vicia.“Por outro lado, para ter projeto de vida e sonhar, a gente precisa de ocitocina, que é liberada nas relações sociais. Com um ano e meio sem a escola, perdemos essa substância neuroquímica”.
Por isso, a especialista defende que, para melhorar a qualidade da educação, as escolas terão de promover mais encontros e socialização.
“A ocitocina é liberada quando a gente faz gincana na escola. Agora, a escola vai precisar de mais jogos, mais brincadeiras e mais olimpíadas. Crianças e jovens aprendem a lidar com frustração. Os jovens estão ficando sedentários e sem destreza motora, e isso também dá preguiça e traz dificuldades de aprendizado”, pontua a pedagoga.
Professor tem de ser DJ do conhecimento na sala de aula
Ouvir, estudar, misturar e encantar. Esse deve ser o caminho para o professor conquistar os alunos em sala de aula e melhorar o aprendizado, segundo o professor Renato Casagrande, especialista em Gestão Educacional.
Para ele, o professor tem de fazer como um DJ e remixar métodos, técnicas e conhecimento.
“Pegar o conteúdo, novo e velho, a música, filme, e transformar em algo original, uma aula sua remixada, reconstruída. A nova educação exige um professor multitarefas. Ele tem de chegar na alma, no coração do aluno. Mas isso deve ser só a porta de entrada”.
Para ele, a inovação na educação pouco está relacionada com os avanços tecnológicos e aparelhos de última geração. Ele defende que o professor precisa ter técnica, ciência e emocional.
“As aulas precisam ter metas e planos, o professor tem de saber onde o aluno quer chegar e traçar planos para que ele chegue lá”.
Segundo ele, a escola tem de trabalhar com expectativas. “Quanto maior a expectativa, maior o empenho. O professor tem de ter empatia com o aluno. Tem de ter paixão, sem isso não há relacionamentos.”
O assunto foi tema de sua palestra “Nova Escola: Práticas pedagógicas para encantar e mobilizar os alunos para a aprendizagem”, na 10ª edição do Congresso Educacional das Escolas Particulares do Espírito Santo.
Saiba mais
Mais jogos, brincadeiras e gincanas
Tecnologia
A tecnologia foi e é importante para o aprendizado, pode ser um bom recurso, mas não deve ser o único. Aliada ao ar livre, a encontros, a conversas e a outras formas de aprender, pode ser uma ótima aliada.
Encontros e brincadeiras
Um caminho para ajudar a melhorar a qualidade da educação é promover mais encontros dos alunos para se socializar. Mais jogos, brincadeiras, olimpíadas e gincanas. Porque o jovem precisa aprender a perder.
Brincar estimula e ajuda no aprendizado. As escolas devem voltar com a educação física com urgência.
Dificuldades
Com a pandemia, muitos alunos tiveram dificuldades, mas é importante salientar que nem toda dificuldade é síndrome ou doença mental. Elas são apenas dificuldades, e são passageiras.
Excessos
As telas liberam no cérebro o hormônio da dopamina que, em excesso, se torna viciante. É o que tem acontecido com muitas crianças e jovens.
Por outro lado, ter um projeto de vida, sonhar e manter relações sociais significa liberar ocitocina. O jovem está convivendo menos com outros jovens, o que é prejudicial.
Papel do professor
Para ativar o cérebro, é preciso empatia. Se o professor sorri, cognitivamente o aluno também sorri.
Sem professor não há escola, construção do conhecimento e nem produção científica. Ele tem a garantia de transformar a vida do aluno todos os dias para que ele aprenda e seja um sujeito melhor. “Aprendizagem é quando já não sou mais a mesma pessoa”.
“Não há mudança sem diversidade de olhares”
O conceito pode confundir algumas pessoas, mas a inovação nem sempre é uma novidade. Buscar o que já foi feito, adaptar, acrescentar novidades e aplicar de acordo com a nova necessidade. É dessa forma que muitos especialistas definem a palavra do momento: inovação!
Esse conceito está muito mais ligado à renovação do que ao novo. Por isso, buscar metodologias, conceitos do passando e aplicá-los no presente é o que defende o filósofo e teólogo Zeca de Melo, que também é professor na Fundação Dom Cabral.
A Tribuna O que acredita ser a inovação para esse momento pós-pandemia na educação?
Zeca de Melo Às vezes, a inovação não é uma questão só de tecnologia. A gente reduz o desafio da inovação à tecnologia, mas, muitas vezes, ela pode ser pedagógica. Um modelo melhor de funcionamento, um entendimento melhor do contexto. Às vezes não é uma questão de mais tecnologia, mas sim de mais atenção, mais sensibilidade.
Por vezes, o modelo de inovação está no passado. Por exemplo, o modelo grego de educação, mais humanista, hoje mostra inspirações muito atuais. Uma formação do ser humano de forma integral e não apenas privilegiando um tipo de inteligência. O modelo da Renascença, do aprendiz, uma pessoa que tem várias habilidades, que não para de aprender. Então, é importante estarmos atentos.
“Temos de ter a capacidade de acolher e escutar com profundidade o que está acontecendo no mundo, na vida das pessoas Zeca de Melo, Filósofo, Teólogo e Professor na Fundação Dom Cabral
Que tipo de exemplos de inovações a escola e o professor podem trazer olhando para o passado?
Por exemplo, uma das coisas que faço com meus alunos no MBA da Fundação Dom Cabral é um exercício muito antigo e muito simples que os filósofos já praticavam, que é chamado exercício peripatético, uma expressão grega que significa perambular. É muito comum se falar do chamado passeio socrático, que era uma prática comum do filósofo grego, caminhar com os alunos.
Um dos problemas, a meu ver, é que a educação tradicional se esqueceu do corpo. Agora, diante da tela então, parece que não temos mais corpo. Então, temos que colocar as pessoas para andar e poder refletir sobre um tema importante na vida. É uma coisa extremamente simples. Mas é profundamente poderosa!
Temos de ter a capacidade de acolher e escutar com profundidade o que está acontecendo no mundo, na vida das pessoas, para que possamos responder. Vem daí o comprometimento, nossa responsabilidade como escola, como professor, como aluno.
“Em qualquer organização hoje temos o desafio da diversidade, de criar o que não existe ainda, testar, errar, aprender Zeca de Melo, Filósofo, Teólogo e Professor na Fundação Dom Cabral
Em sua palestra no Congresso do Sinepe-ES, falou sobre o que não muda quando tudo muda. A qual conclusão chegou?
Em um mundo onde tudo muda tão rapidamente, o que não pode ser mudado? Uma outra forma de fazer essa pergunta é: o que temos de fazer durar no mundo onde tudo muda tão rapidamente?
Tem várias outras coisas, mas em uma análise, o que a gente tem que fazer durar é a nossa humanidade. Hoje, estou em uma área de pesquisa em um ambiente de gestão, na faculdade de Administração, que se chama Humanidade e Gestão Contemporânea.
Um dos grandes desafios na formação das lideranças hoje está muito ligado à questão das humanidades, um déficit de humanidades, um conjunto de disciplinas. Tem a ver com desenvolver a capacidade de crítica e autocrítica.
Em qualquer organização hoje temos o desafio da diversidade, de criar juntos o que não existe ainda, testar, errar rápido, aprender.
Então, uma das coisas que a gente tem de fazer durar é, sobretudo, o cuidado com as humanidades: pensamento crítico, autocrítico, ajudar a desenvolver a compreensão empática do outro, a diversidade e a inclusão. Compreender outras culturas, se imaginar no lugar do outro. Não há inovação sem diversidade de olhares.
Quando pensamos imaginação criativa, logo temos o pensamento da inovação, de produtos, de serviços, fazer coisas novas. Mas a minha abordagem é, sobretudo, uma preocupação da imaginação conectada à ética. Ou seja, não tem espaço para inclusão se nós não nos imaginamos diferentes. A imaginação é decisiva para o ato da mudança, da transformação.
Qual o papel do professor para ajudar nessa mudança?
O professor precisa de muita humildade, humildade pedagógica e também moral, ética. Saber que não é o detentor de todas as respostas. Uma disposição para aprender, mas, sobretudo, para desaprender.
Se aprender significa, na sua origem, agarrar, segurar; desaprender tem a ver com largar, não ficar tão apegado, experimentar, testar. Acho precisamos ter nas escolas, em geral essa mentalidade.
Prêmio para as melhores práticas
O Sindicato das Empresas Particulares de Ensino do Estado (Sinepe) vai premiar em novembro as melhores contribuições para a sociedade de práticas inovadoras educacionais com ênfase em sustentabilidade, inovação inclusiva e pedagógica.
Na 14ª edição do Sinepe em Ação foram inscritos 92 projetos de 28 instituições de ensino do Espírito Santo. As novidades tecnológicas e iniciativas inovadoras com foco na melhoria de ações e processos desenvolvidos pela abordagem e gestão pedagógica da instituição e na sua relação com o território de atuação são outro tópico tido como base na avaliação pela comissão julgadora do Sinepe em Ação.
A entrega da premiação acontece no dia 25 de novembro, no cerimonial Le Buffet Master, em Vitória. Serão premiadas três instituições: uma no segmento básico, outra no segmento infantil e uma no segmento superior.
Contribuir para um mundo mais sustentável e socialmente equilibrado é uma tarefa de todo cidadão consciente de seu papel junto à sociedade. As instituições de ensino, por definição, são espaço de formação e valores. Assim, tornam-se locais propícios ao desenvolvimento de iniciativas comprometidas com esse objetivo.
“Foi para dar visibilidade a essas ações que o sindicato criou o Programa Sinepe em Ação, uma forma de valorizar os projetos e atividades cujo objetivo seja fazer do mundo um lugar melhor para as pessoas viverem”, explica o presidente do Sinepe-ES, Bruno Loyola Del Caro.
Em sua 14º edição, a premiação conquistou o respeito do segmento educacional capixaba e tem revelado ótimos exemplos entre as instituições de ensino particulares.
Iniciativas premiadas têm muito potencial e poderão servir de exemplo para outras instituições não apenas no Espírito Santo, mas em todo País.
““A pandemia acelerou diversos processos” “O segmento educacional vem enfrentando mudanças significativas nos últimos anos, seja para enfrentar a crise atual, seja para oferecer diferenciais significativos como inovação em programas educacionais, inovação tecnológica, atendimento aos alunos, relacionamento com a família, marketing educacional, dentre outros. A pandemia acelerou diversos processos. Além disso, acredito que o uso da tecnologia e a implementação do novo ensino médio estão entre os nossos principais desafios para essa gestão. Teremos condições de avançar ainda mais nas conquistas do setor educacional privado do Espírito Santo”. Bruno Loyola Del Caro, Presidente do Sinepe-ES
Saiba mais
14ª edição do Sinepe em Ação
- Foram 92 projetos de 28 instituições de ensino do Espírito Santo. A premiação é uma forma de valorizar os projetos e atividades cujo objetivo seja fazer do mundo um lugar melhor para as pessoas viverem.
- Serão premiadas três instituições: uma no segmento básico, outra no segmento infantil e uma no segmento superior.
- Premiação: 25 de novembro, no cerimonial Le Buffet Master, em Vitória
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