Como o esporte mudou a vida de crianças do “Território do Bem”
Projeto social leva aulas de futebol de campo, basquete e futsal para crianças e tem transformado a realidade de famílias inteiras em uma região com forte ação do tráfico de drogas em Vitória
A união de nove bairros de Vitória ficou conhecida como “Território do Bem”, englobando as comunidades de Itararé, Jaburu, Bairro da Penha, Bomfim, Engenharia, Consolação, Floresta, Gurigica e São Benedito. O território, como o próprio nome diz, abriga famílias vulneráveis que lutam todos os dias por um futuro melhor para a região.
Os nove bairros também fazem parte do “Complexo da Penha", local considerado o berço e palco da maior facção criminosa do Estado e uma das maiores do Brasil, o Primeiro Comando de Vitória (PCV).
Atualmente, em meio à criminalidade no Complexo da Penha, o cooperativismo tem usado o esporte para mudar a realidade de crianças e adolescentes que vivem na mesma região e têm contato com o mundo do crime desde cedo.
Segundo a Polícia Civil, os bairros de Vitória que fazem parte do Complexo da Penha são: Bairro da Penha, Bonfim, Consolação, São Benedito, Ilha de Santa Maria, Morro da Garrafa, Santos Dumont, Morro do Floresta, Jesus de Nazaré, Maria Ortiz, Estrelinha e Itararé.
Entre becos e vielas marcados pela violência, devido à guerra do tráfico de drogas, famílias do “Território do Bem” enfrentaram uma outra guerra no último ano, a pandemia. Foi justamente neste período que foi dado o pontapé inicial para o projeto “Esporte do Bem”, planejado para atender crianças e adolescentes através do ensino do futebol de campo, basquete e futsal.
Segundo o diretor executivo do Instituto Unimed Vitória, Cosme Péres, entidade que desenvolve o projeto, o“Esporte do Bem” surgiu em resposta a um anseio dessas comunidades.
O programa foi pensado para atender 300 crianças da região, mas por conta da pandemia, houve uma redução e são recebidas em torno de 100 crianças atualmente.
O projeto tem como palco o bairro de Itararé, na praça pública central. A escolha do bairro, segundo Cosme Péres, tem dois motivos: a proximidade das unidades da Unimed Vitória e o fator social das famílias vulneráveis na região. “A ideia do projeto é que através do esporte haja uma integração com as famílias para uma transformação social”.
"Nos organizamos ao longo dos anos para desenvolver esse projeto e, em 2020, ele nasceu aprovado por lei de incentivo. A destinação de até 8% do Imposto de Renda dos nossos médicos cooperados e também dos nossos colaboradores volta como recurso, via lei de incentivo fiscal do Ministério do Esporte”, explicou Cosme.
"Projeto já mudou a vida de muitas crianças"
Professor de futebol de salão e de basquete, Alexandre Garcia, de 46 anos, diz que se sente realizado como profissional por trabalhar com as crianças atendidas pelo projeto “Esporte do Bem”.
“A gente aprende todos os dias com eles. Muitas vezes, pensamos que estamos ensinando, mas eles nos ensinam”, afirma.
Para o professor, a felicidade que o esporte leva para a vida das crianças vai além dos momentos de vitória durante os jogos. Por isso, ele afirma que o projeto é extremamente importante para as comunidades atendidas.
“Esse projeto já mudou a vida de muitas crianças e de suas famílias. As crianças conversam com a gente, fazem pedidos. Os pais também fazem pedidos, falam que seus filhos não estão comendo direito, pedem para darmos um toque neles. Então, o projeto transcende as quatro linhas: passamos a ser um pai, um tio, um amigo muito próximo”, aponta o professor.
Cerca de 30% não têm ensino fundamental completo
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE) revelam a dura realidade dos moradores dos bairros Itararé, da Penha e Bomfim, em Vitória, em relação a variáveis relacionadas à renda, à educação, ao trabalho e à moradia. Em 2010, a região tinha 14.491 habitantes, sendo que destes, 3.182 eram menores de 15 anos.
No bairro São Benedito, por exemplo, dos 8.920 habitantes conforme dados de 2010, 49% eram mães chefes de família, sem o ensino fundamental completo e com pelo menos um filho menor de 15 anos de idade. Além disso, 13,66% eram jovens de 15 a 24 anos de idade que não estudam nem trabalham.
Essas crianças cresceram e, 11 anos depois, é possível ver o resultado da falta de infraestrutura social que jovens e crianças tiveram no passado.
Para promover um cenário diferente no futuro, a cooperativa está investindo na juventude por meio do esporte e já tem colhido frutos.
Segundo o especialista em Segurança Pública Emir Pinho, todas as ações da sociedade organizada que envolvem o esporte, a inclusão social e o cooperativismo, são fundamentais para resgatar o respeito, os valores sociais e a cidadania de pessoas em situação de risco e vulnerabilidade.
“Nas comunidades mais carentes, essas ações podem representar o reencontro com a segurança, com a educação e com a saúde, que é o tripé de sustentação da sociedade civilizada e do Estado. O 'Esporte do Bem', assim como outros programas sociais, pode ser a principal ferramenta para proteger e resgatar esses jovens e crianças, dando-lhes uma nova oportunidade para a cidadania e para a felicidade. A sociedade precisa estar engajada para trazer esses jovens para uma comunidade mais participativa e cooperativista”, explicou Emir Pinho.
Confira no vídeo abaixo o que professores do projeto falam sobre a parceria com a Polícia Militar e Guarda Municipal:
ANÁLISE: “EM UM PAÍS DE FAMÍLIAS DILACERADAS, ESSES ATORES FAZEM O PAPEL DE PAI E MÃE”
Rogério Fernandes Lima, especialista em Segurança Pública
"O enfrentamento da criminalidade e violência com a consequente melhoria da segurança pública passa por frentes multidisciplinares.
Podemos listar a necessidade de melhoria da legislação penal e processual; a melhoria dos equipamentos e a valorização dos policiais, e ainda as questões de infraestrutura, tais como calçamento de vias, iluminação pública, saneamento básico, educação de qualidade. Outros fatores importantes a serem considerados (e muitas vezes desconsiderados no debate) é o fortalecimento da família e dos bons vínculos sociais na comunidade.
Nesse sentido, os projetos sociais cumprem uma missão importantíssima, levando ensino, esporte e cultura aos mais vulneráveis, justamente aqueles que mais precisam - as crianças e adolescentes, que acabam servindo de mão de obra barata e indispensável para os traficantes.
Os projetos sociais são, muitas vezes, iniciativas individuais, mas que contribuem para o coletivo, tendo por objetivo afastar os jovens do assédio dos criminosos e buscando dar uma nova perspectiva de vida a essas pessoas, fazendo um papel social relevantíssimo.
Em um País de famílias dilaceradas, esses atores fazem o papel de pai, mãe e porque não dizer, do próprio Estado, o qual carrega uma dívida social com essas comunidades.
É preciso que os poderes públicos abracem esses projetos criando, inclusive, incentivos para os responsáveis para que consigamos abranger um público cada vez maior e possamos salvar muitas vidas."
Instituto
O projeto "Esporte do Bem" acontece em parceria com o Instituto Viva Vida, fundado em 2005, com projetos esportivos sociais no Estado.
O objetivo é buscar soluções para problemas sociais de crianças e adolescentes que vivem em vulnerabilidade social, através do desenvolvimento esportivo orientado, reintegrando-as ao contexto social, por meio da implantação de um ambiente produtivo escolar, familiar e social.
Até 2019, o instituto atendeu 800 beneficiários diretos e mais de 2 mil indiretos, em diferentes cidades e modalidades esportivas, sendo elas: basquete, bodyboarding, futsal, futebol de campo, vôlei de praia e capoeira.
Resultados vão além das quadras e são vistos também na escola
O aprendizado das crianças que participam do programa “Esporte do Bem” vai além das quadras de futebol e basquete. Isso porque, além do esporte, meninos e meninas aprendem a ler, escrever e mudam, inclusive, seus comportamentos em casa.
“Temos um exemplo de uma criança que mudou depois desse projeto. Ele, com 8 anos, não sabia ler e escrever. Agora, participando do projeto, melhorou seu rendimento na escola e aprendeu a ler e escrever”, revelou o líder do movimento comunitário de Itararé, Ailton Monteiro Filho, que também atua no projeto.
Além das crianças, o programa também atende as famílias. Por meio dos cursos profissionalizantes oferecidos pelo projeto, pais, mães e tios ganharam até novas profissões, como porteiro, manicure e recepcionista.
“A maior parte dessas famílias é humilde, carente mesmo, e nosso trabalho vai além do esporte. Mães, pais e tios fazem os cursos e saem com uma nova profissão. Temos uma mãe que conseguiu, inclusive, um emprego e hoje sustenta seus filhos", conta Ailton.
O encarregado de construção civil Erivan de Jesus Santana, 45 anos, pai de João Fernando, de 13, é estudante do curso profissionalizante de porteiro e espera em breve ter uma oportunidade profissional nessa nova área de atuação.
“É mais uma experiência profissional, mais uma profissão. É um projeto não só para as crianças, mas para a família inteira”, disse.
Ele também falou sobre as mudanças comportamentais do filho, após ter entrado para o programa.
“Meu filho era mais tímido, não conversava muito. Agora ele está mais comunicativo. Sem contar que, como ele está na fase da adolescência, a rebeldia dele estava demais. Depois que entrou para o projeto, está melhorando bastante seu comportamento em casa”, conta Erivan.
Sonho de ser atleta profissional para ajudar a família
Além de serem moradoras de comunidades carentes, boa parte das crianças que participam do projeto "Esporte do Bem", tem o mesmo sonho: viver do esporte, conseguir ser um grande atleta para ajudar suas famílias.
Para se tornar um grande profissional, muitas meninas e meninos se espelham naqueles que tiveram uma história de sucesso.
“Eu quero ser igual o Neymar. Ele é ótimo jogador e um dia vou ser como ele e vou ajudar minha família. Se eu não tivesse nesse projeto, ia passar o dia dormindo em casa porque não posso brincar na rua”, revela o aluno Otávio Augusto Rodrigues Rosa, de 9 anos, que participa do time de futebol de salãoo.
“Meu sonho é ser jogador de futebol. Eu quero ser igual ao Neymar. Eu gosto de vários esportes. Se não fosse o esporte, eu ficaria em casa dormindo." Otávio Augusto Rodrigues Rosa, 9 anos,
Luiz Gustavo da Cruz Amaral, de 12 anos, tem o mesmo sonho que Otávio. Filho de pais separados, ele mora em uma casa simples que ele sonha um dia transformar em um ambiente mais confortável para toda a família.
“Eu moro só com meu pai e minha tia. Minha mãe é separada do meu pai e ela mora em Andorinhas. Eu vim sozinho para o projeto. Estava ficando em casa, sem fazer nada, e aqui eu descobri que tenho um sonho, que é o de ser jogador de futebol para ajudar a minha família”, afirma o garoto de 12 anos.
“Eu queria muito participar do projeto. Eu amo muito minha família. Eu amo o esporte. Minha mãe trabalha, meu pai não está aqui. Eu gosto muito de jogar basquete. Eu aprendo um montão de coisas, como respeito aos colegas." Carlos Manoel Santos Macedo, 11 anos,
Diferente de Luiz e Otávio no que diz respeito ao esporte praticado, Carlos Manoel Santos Macedo, de 11 anos, quer se tornar um grande jogador de basquete.
“Gosto muito de basquete. O projeto ajuda a manter o meu sonho vivo, que é o de ser um dia um grande jogador. Eu amo o esporte”, disse.
Ampliação para mais uma cidade
MAIS RELATOS DO BEM
“Eu aprendi a jogar bola aqui. O projeto é bom. Aqui eu aprendo um monte de coisas que eu não sabia. Antes eu podia brincar lá no beco da minha casa. Agora não posso. Antes era tranquilo, agora não é mais, porque sempre está em guerra. Aqui no projeto eu me sinto livre." Ana Vitória Miranda, 9 anos,
“É muito bom estarmos unidos para acabar com a violência. Às vezes, falam que não podemos ir em bairros rivais, mas isso deve acabar e o esporte pode ser o caminho para essa união." Sheila Marinho Norberto, 42 anos, mãe do Gabriel Norberto dos Santos, 8 anos,
“Meu neto conta as horas para vir jogar futebol, ele gosta muito e já vejo os reflexos na vida dele, tenho certeza que esses meninos serão grandes homens e mulheres lá na frente." Zenilda Alves Vieira, 58 anos, avó de Jhonatan Vieira Miranda, 8 anos,
“Às vezes os pais têm algum receio de deixar o filho participar, mas sempre tem policiamento e o projeto tem benefícios melhores na vida deles. Com pouco mais de um mês praticando o esporte eu já vejo mudanças no meu filho." Juliano Constantino Coelho, 37 anos, pai de Heitor Bravim Coelho, de 6 anos,
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