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Cooperativismo

Uma nascente para o futuro

Em São Gabriel da Palha, propriedade da família de Advaldo Zotelle virou a Reserva Vovó Lena, unindo água, floresta e educação ambiental

Uma nascente para o futuro

Toda transformação começa em algum lugar. Em São Gabriel da Palha, no Noroeste do Espírito Santo, essa história teve início em 2016, quando a escassez de água passou a aumentar as preocupações de uma comunidade ligada à produção de café.

A seca trazia insegurança para os produtores rurais, pressionava os negócios e também afetava a vida dos moradores. Foi diante desse cenário que Advaldo Antônio Zotelle, fundador da Cooperativa dos Caminhoneiros de São Gabriel da Palha (Coopcam), decidiu fazer algo a partir daquilo que estava ao seu alcance: uma propriedade da família.

Quando a nascente abastecia uma casa

O lugar não era apenas um terreno. Advaldo lembrava de uma nascente que existia ali durante sua infância. A nascente fica na propriedade de Adenilson Francisco Zanotelle, no Córrego General Rondon, na zona rural de São Gabriel da Palha.

Segundo o relato do responsável pelo projeto, há cerca de 30 a 35 anos a nascente tinha água suficiente para abastecer uma casa da família. A água era utilizada para beber e lavar roupas, chegando à residência por gravidade.


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|  Foto: Divulgação

A área tem uma história familiar importante: Maria Helena, mãe do entrevistado e conhecida como Vovó Lena, já preservava parte daquele território. É dela que vem o nome da reserva e da nascente.

Com o passar do tempo, porém, a área sofreu degradação. A vegetação foi reduzida, o terreno passou a ter predominância de pastagem e a água da chuva deixava de permanecer no vale, escoando pelo terreno.

Com a memória daquele ambiente e a urgência provocada pela falta de água, Advaldo começou a construir barreiras para tentar reter a água na área.

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Quando iniciamos o projeto, a nascente estava totalmente seca. A água da chuva não permanecia no vale e escoava. A vegetação também estava muito degradada. Cercamos a área, fizemos a limpeza e trabalhamos na recuperação do solo para combater a erosão. Atualmente, são quatro barragens, que ajudam a reter essa água. Além disso, plantamos cerca de 50 a 60 árvores na cabeceira da nascente, justamente onde a água começou a reaparecer Advaldo Antônio Zotelle, fundador da Coopcam,

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|  Foto: Divulgação

Naquele momento, ainda não havia a dimensão de tudo o que poderia surgir dali. O trabalho começou como uma tentativa de enfrentar um problema imediato. Ao longo dos anos, porém, aquela movimentação abriria caminho para uma iniciativa mais ampla, que passaria a reunir recuperação ambiental, preservação dos recursos hídricos e educação das novas gerações.

A Capital do Café Conilon

Distante cerca de 200 km de Vitória, São Gabriel da Palha construiu sua história em torno do café. Reconhecida como a Capital Nacional do Café Conilon, tem uma produção agrícola que movimenta mais de R$ 936 milhões por ano. O café responde por cerca de 85,5% de toda a lavoura permanente do município, que também abriga a sede da Cooabriel, considerada a maior cooperativa de café conilon do Brasil.


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|  Foto: Divulgação

Por trás desses números, existe uma cadeia produtiva que envolve agricultores, cooperativas, trabalhadores e famílias. Uma atividade que depende diretamente das condições do campo e da disponibilidade de recursos naturais. Em uma região onde o café é parte da identidade e da força econômica local, a falta de água não representa apenas um problema ambiental: pode colocar em risco a produção e a segurança de quem depende dela.

O clima de um futuro mais seco

A seca não foi o único desafio enfrentado pela área. Em 2019, um incêndio acidental, iniciado em uma propriedade vizinha, atingiu a região e queimou a vegetação próxima à nascente. Parte das árvores foi perdida, e um novo plantio precisou ser feito.

A combinação entre estiagem e perda de cobertura vegetal ajuda a ilustrar a vulnerabilidade dos ambientes naturais. Com menos vegetação, o solo fica mais exposto à erosão, e as condições para a infiltração da água podem ser prejudicadas. É uma relação que ganha ainda mais importância diante das mudanças climáticas, como explica a pesquisadora das interações entre clima e oceano, Kyssyanne Samihra Santos Oliveira, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

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Estudos mostram uma redução do volume de chuva em todo o Estado, principalmente a partir de 2021, e na porção centro-norte no Estado. Além disso, tem-se encontrado o aumento da quantidade de dias sem chuvas (dias secos consecutivos). Com o aumento da temperatura da atmosfera, temos condições favoráveis à intensificação de eventos extremos, como chuvas muito intensas concentradas em poucos dias e períodos prolongados de estiagem ,

As projeções do Governo do Espírito Santo indicam um futuro mais quente e seco para parte do território capixaba. Até a década de 2080, o aumento da temperatura pode chegar a 3,5 graus em um cenário de emissões moderadas e a 6 graus em um cenário de altas emissões, em determinadas regiões, segundo o Programa Capixaba de Mudanças Climáticas.


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|  Foto: Divulgação

No Norte do Estado, os períodos consecutivos sem chuva podem aumentar em mais de 70 dias em relação ao padrão 1960-1990. Na Bacia do Rio Doce, estudos também projetam redução das chuvas e das vazões dos rios. Um cenário que preocupa especialmente um estado onde o agronegócio representa mais de 30% do PIB e o café está presente em 61 dos 78 municípios.

A pesquisadora do Comitê Interinstitucional de Monitoramento de Emergências Climáticas e Desastres (CIMECli) também ressalta que, além da agropecuária, a indústria, a geração de energia e os ecossistemas aquáticos devem ser afetados.

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As projeções climáticas indicam a intensificação das secas no Espírito Santo, especialmente nas regiões Norte e Noroeste do Estado, que historicamente apresentam maior vulnerabilidade à escassez hídrica. Entre as atividades, a agropecuária e o abastecimento urbano são as atividades que apresentam maior vulnerabilidade ,


Os desastres registrados desde 1995 acumularam R$ 23,23 bilhões em prejuízos por desastres no Espírito Santo, com base no Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, do Governo Federal.

São R$ 5,72 bilhões em danos materiais e 137 mortes em desastres desde 2000, segundo a Defesa Civil estadual.

A cooperativa dos caminhoneiros

O café movimenta a economia, conecta produtores e abastece mercados. Para que essa cadeia funcione, o transporte é uma peça fundamental. É nesse cenário que atua a Coopcam, cooperativa fundada em 2008 e que hoje reúne 431 cooperados no Espírito Santo e no sul da Bahia.

A Coopcam presta serviços de transporte à Cooabriel, acompanhando a presença da cooperativa cafeeira nas regiões em que ela atua. Sua estrutura reúne caminhões, carretas, utilitários, ônibus, micro-ônibus e vans, utilizados no transporte de cargas e passageiros.


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|  Foto: Divulgação

O café e os fertilizantes destinados às lavouras estão entre os principais produtos transportados. Uma relação que evidencia como o desempenho da agricultura também repercute diretamente no setor de transporte.

“Noventa e nove por cento do que transportamos é café e insumos para as lavouras, que são os fertilizantes. Então, se temos um problema com o café e com a produção cafeeira, também temos um problema com o nosso transporte”, destaca o presidente.

A assistência aos cooperados também faz parte dessa estrutura. A Coopcam mantém pontos de abastecimento e distribuição de óleo diesel em São Gabriel da Palha e Nova Venécia, oferecendo suporte às atividades dos associados.

Mas, na visão do presidente, o compromisso de uma cooperativa não termina nos serviços prestados nem nos resultados compartilhados entre seus membros. Ele defende que os princípios do cooperativismo sejam colocados em prática de forma efetiva, especialmente aquele que trata do interesse pela comunidade.

“Além das devoluções de capital aos nossos sócios, nós devemos devolver para a sociedade. Projetos como esse são uma parte do que devolvemos para a sociedade”, ressalta.

A recuperação da nascente Reserva Vovó Lena representa, assim, uma expressão desse compromisso. Uma iniciativa que amplia o alcance da cooperação e mostra que cuidar do ambiente onde a atividade econômica acontece também é uma forma de construir benefícios coletivos.

O futuro que se cultiva

O que começou como uma tentativa de enfrentar a escassez de água ganhou, ao longo dos anos, novos sentidos na Reserva Vovó Lena. A recuperação da área passou a reunir também educação ambiental e participação comunitária, com a intenção de fazer com que o cuidado com a natureza ultrapasse os limites da propriedade.

Desde 2023, a Coopcam envolveu seis escolas nas atividades. Aproximadamente 460 alunos participaram entre 2023 e 2025, além de pais e atletas ligados à Assopais.


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|  Foto: Divulgação

Mais do que plantar árvores, a proposta é permitir que crianças e jovens conheçam de perto a natureza e compreendam como a conservação da vegetação pode contribuir para proteger o solo e favorecer a infiltração da água. Para a pesquisadora Kyssyanne Samihra Santos Oliveira, experiências práticas como essas ajudam a criar vínculos com o meio ambiente e a formar pessoas capazes de reconhecer seu papel na preservação.

Na área, os resultados também começam a aparecer. Segundo o responsável pelo projeto, a primeira barragem voltou a acumular água, árvores plantadas já alcançam entre cinco e seis metros e animais silvestres passaram a frequentar o local. A nascente apresenta variações conforme as chuvas e a estiagem, e sua evolução vem sendo acompanhada pela Coopcam com medições e registros em vídeo.

São 7.500 metros quadrados no total: 5 mil de uma área que já era preservada e outros 2.500 em processo de recuperação. Um trabalho que exige continuidade e cujo resultado hídrico precisa ser acompanhado por dados ao longo do tempo.

Criar vínculos com a natureza desde a infância é um passo importante para formar adultos mais conscientes sobre a preservação ambiental. “Cuidamos melhor daquilo que conhecemos e com o qual criamos vínculos”, explica Tainá Guimarães Ricardo, geógrafa, mestre em Ensino de Humanidades pelo Ifes e doutoranda em Educação pela Universidade de Santiago de Compostela.

Quando as crianças participam de ações ambientais, o aprendizado pode chegar às famílias e mobilizar toda a comunidade. “As crianças são importantes agentes de transformação, porque aquilo que aprendem e vivenciam na escola muitas vezes ultrapassa os muros da instituição e chega às famílias e à comunidade”, ressalta a pesquisadora.

Quase uma década depois do início dessa história, a Reserva Vovó Lena reúne duas formas de cuidar do futuro: recuperar as condições ambientais de uma área e aproximar as novas gerações da natureza.

Porque uma árvore leva tempo para crescer. Uma nascente exige cuidado constante. E uma consciência ambiental também precisa ser cultivada com conhecimento, participação e compromisso coletivo.

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