"Vivia 24 horas com muita dor", conta influenciadora que recebeu aplicação de PMMA
Após receber PMMA, influenciadora enfrentou complicações graves e passou por reconstrução facial
Entre as pessoas que convivem com as consequências do uso do PMMA (polimetilmetacrilato) como preenchedor estético está a influenciadora digital e balconista de farmácia Mariana Michelini Redigolo, de 38 anos, moradora de Matão, no interior de São Paulo.
Em dezembro de 2020, ela participou de um procedimento de harmonização facial como modelo para uma dentista e afirma ter sido informada de que receberia aplicações de ácido hialurônico. Seis meses depois, acordou com os lábios inchados e deformados. Após uma série de exames, descobriu que havia PMMA em seu rosto. “Eu vivia 24 horas com dor”, contou.
Para a remoção do produto, Mariana precisou retirar o lábio. “Quando descobri que era PMMA em meus lábios, meu pesadelo começou”.
A Tribuna — Como tudo começou?
Mariana Michelini — Eu fiz a harmonização em dezembro de 2020. Fiquei linda, tive trabalhos também como modelo, porque eu fazia provador de loja. Depois de seis meses foi que eu tive a reação. Simplesmente eu acordei com a boca inchada.
Imaginou que fosse uma reação alérgica?
Eu pensei que fosse uma alergia. Cheguei a voltar na profissional e ela não sabia como proceder. Então procurei um dermatologista, porque minha boca só foi piorando. Ficava vermelha, inchada. Eu achei que minha boca ia explodir. O dermatologista passou um protocolo de remédios, corticoides, mas não surtiu efeito.
Quando descobriu que não era ácido hialurônico?
O dermatologista achou estranho porque reação de ácido hialurônico não costuma ser grave desse jeito. Então ele coletou material para biópsia. Fiz biópsia, ultrassom, mapeamento facial. Tudo dava PMMA. Aí minha vida acabou!
Já tinha feito algum procedimento estético antes?
Foi a primeira vez, nunca havia feito nada. Fiz para divulgar a dentista. Fiz a harmonização no lábio, na maçã do rosto e no queixo. Quando cheguei ao consultório, as seringas estavam prontas. Fiz confiando nela.
Como foi ter a confirmação de que era PMMA?
Meu mundo desabou e meu pesadelo começou. Eu achava que ia morrer. Porque via casos de mulheres que morreram com isso. Eu não dormia, ficava ajoelhada, pedindo para Deus para não morrer. Eu havia perdido minha mãe meses antes, em 2020. Foi um caos.
Em que momento decidiu pela retirada do produto?
O dermatologista viu que eu fui enganada e tentou me ajudar. Foi um ano eu indo para uma cidade a duas horas da minha casa para fazer infiltração com corticoide. Passei um ano também tomando antibiótico. Era uma dor insurportável, que eu mal escovava os dentes. Eu vivia 24 horas com dor. Até chegar em um ponto que o dermatologista me disse que não sabia mais o que fazer, minha boca estava dura.
Foi nesse momento que buscou ajuda de um cirurgião plástico?
Sim. Fui atrás de um especialista em remoção de PMMA em Porto Alegre. Tive uma grande ajuda. Foi necessária a remoção da boca, porque o PMMA gruda na carne. Quando eu acordei e senti que estava sem dor, eu nem me importava que estava sem lábio. Foi um alívio.
Passei por cirurgias de reconstrução com um cirurgião de Florianópolis, tive de usar máscara, me alimentava por canudo, fiquei com a boca costurada. Mas hoje é minha superação.
Como ficou a situação da dentista?
Entrei com um processo contra ela, mas está em andamento até hoje na Justiça. Nada aconteceu. Ela está solta.
Qual mensagem gostaria de deixar para quem vai fazer um procedimento?
Não sou contra procedimentos, pelo contrário. Mas que as pessoas pesquisem antes por bons profissionais, peça para abrir a embalagem na frente.
Nome de produto utilizado deve ser verificado antes
Karoline Calfa, presidente do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES), orienta que, antes de se submeter a um procedimento estético, o paciente deve verificar se o profissional é habilitado e qualificado.
“O médico também precisa fazer um termo de consentimento informando qual procedimento será realizado. O paciente tem direito de perguntar e de saber o procedimento e produto que será aplicado”.
Marcelo Prado, conselheiro do CFM e cirurgião plástico, alerta que praticamente nenhum profissional divulga mais que faz PMMA. “Eles mentem. O certo é o paciente verificar o nome do produto a ser injetado e tirar uma foto de número de registro do material”.
O médico alerta que há profissionais “vendendo” bioestimulador de colágeno, mas na verdade o produto é PMMA. “Sendo que muitos desses médicos não têm especialidade nenhuma”.
O Brasil figura entre os poucos países onde o PMMA continuava sendo utilizado de forma relativamente ampla para preenchimentos estéticos, apesar dos diversas alertas e posicionamentos de diversas entidades médicas.
A conselheira federal Graziela Bonin destaca que o PMMA deixou de ser utilizado em 2005 na França, em 2015 na Holanda e em 2022 na Argentina.
“Como o uso agora só pode ser feito dentro do SUS, vamos conversar com a Anvisa para que haja uma restrição de venda”, ressaltou Graziela.
Outros casos
Morte de maquiadora
A maquiadora e influenciadora Roseli Fernandes de Oliveira Romeiro Vieira, 48, morreu após ter aplicado o PMMA nos glúteos e na parte de trás das coxas. Segundo boletim de ocorrência, ela começou a sentir fortes dores, mal-estar, coração acelerado e dificuldade para respirar menos de 24 horas após ter passado pelo procedimento com uma médica, em uma clínica de estética, em São Paulo. À polícia, a médica contou que aplicou cerca de 300 mililitros de PMMA na maquiadora.
Quase perdeu o nariz
A repórter do programa Mais Você, Ju Massaoka, 36, quase perdeu parte do nariz em uma cirurgia para retirada de PMMA, após a substância ter sido aplicada sem sua autorização, durante uma rinoplastia. Ela descobriu sobre o produto durante cirurgia para correção de desvio de septo. Para reconstruir o nariz, a jornalista teve de fazer um enxerto retirado de uma das costelas.
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