Superbactérias avançam entre crianças e preocupam especialistas
Crianças são vítimas do aumento da resistência antimicrobiana, o que reduz a eficiência no tratamento de doenças, como pneumonia
Uma das maiores ameaças à saúde pública mundial está avançando entre crianças. A resistência das bactérias a antibióticos faz com que infecções que antes eram controladas com medicamentos comuns passem a exigir remédios mais potentes, cenário que preocupa especialistas e pode se agravar nos próximos anos.
Um estudo publicado no Journal of the American Medical Association analisou amostras de infecções de crianças e adolescentes coletadas em 82 países. A pesquisa identificou que bactérias estão comprometendo a eficácia de antibióticos usados para tratar problemas como pneumonia, sepse e até infecções urinárias.
Segundo o médico infectologista pediátrico e membro do Comitê de Infectopediatria da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Fabrizio Motta, o aumento da resistência bacteriana vem sendo observado em todo o mundo nas últimas décadas e já afeta tanto crianças que adquirem infecções na comunidade quanto aquelas hospitalizadas.
“A gente fala hoje que é uma pandemia silenciosa”, afirmou o especialista, ao lembrar que projeções apontam que, até 2050, a resistência antimicrobiana poderá causar cerca de 10 milhões de mortes por ano no mundo.
Na prática, segundo Motta, doenças como pneumonia bacteriana e infecção urinária, que antes respondiam aos antibióticos de primeira linha, já começam a exigir medicamentos mais potentes.
“Em casos mais graves, quando o tratamento inicial não funciona, o atraso na escolha do antibiótico adequado pode dificultar o controle da infecção e aumentar o risco de complicações e até morte.”
O pediatra e infectologista pediátrico Pedro Peçanha ressaltou que o cenário de resistência é percebido em diversas localidades, inclusive no Brasil. “Isso preocupa, pois nos obriga a mudar tratamentos simples e bem estabelecidos”.
Os principais fatores para esse cenário incluem o uso de antibióticos em quadros virais, nos quais essas medicações não têm qualquer benefício e que correspondem à grande maioria das infecções em crianças.
Soma-se a isso o uso inadequado (seja pela escolha incorreta, tempo de tratamento inadequado ou automedicação) e o elevado número de infecções próprio da faixa etária pediátrica, devido ao perfil imunológico em desenvolvimento e à exposição frequente a agentes infecciosos em creches e escolas.
“As principais infecções em que vemos essa mudança de perfil são as infecções do trato urinário, otites (infecção do ouvido) e pneumonias.”
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Estudo
Um estudo publicado no Journal of the American Medical Association apontou o aumento da resistência antimicrobiana em crianças, em diferentes regiões analisadas entre 2004 e 2022.
O estudo faz um alerta de que o problema deve continuar crescendo nos próximos anos, principalmente entre bebês, pacientes em UTIs e países com menos recursos.
Para o estudo, pesquisadores analisaram 106.581 amostras de infecções de crianças e adolescentes, coletadas em 82 países.
Os resultados mostram que bactérias estão comprometendo a eficácia de antibióticos usados para tratar pneumonia, sepse e até infecções urinárias.
Projeções
Os especialistas indicam que, até 2035, a resistência aos carbapenêmicos – antibióticos considerados de última linha – pode atingir 82% nos casos envolvendo Acinetobacter baumannii (responsável por infecções hospitalares graves) e 35% nas infecções causadas por Klebsiella (que pode causar problemas como pneumonia, infecção urinária, sepse, endocardite e meningite).
Crianças
As crianças estão entre os grupos mais vulneráveis porque apresentam maior frequência de infecções bacterianas e têm menos opções de antibióticos do que os adultos.
Segundo especialistas, as principais mudanças no perfil de resistência têm sido observadas em infecções urinárias, otites (infecções de ouvido) e pneumonias.
Em muitos casos, antibióticos que antes eram suficientes para controlar essas doenças deixaram de apresentar o mesmo resultado, tornando necessário o uso de medicamentos de segunda linha.
Aumento da resistência
Entre os principais fatores estão o uso de antibióticos para tratar doenças causadas por vírus, como gripe e resfriado, a automedicação, a escolha inadequada do medicamento, o uso por tempo maior do que o necessário e a prescrição de antibióticos de amplo espectro quando não há indicação.
O uso indiscriminado desses medicamentos acelera a seleção de bactérias resistentes.
Por que isso preocupa?
Quando os antibióticos de primeira escolha deixam de funcionar, o tratamento pode exigir medicamentos mais potentes, que nem sempre podem ser administrados por via oral e, muitas vezes, dependem de internação para aplicação intravenosa.
Esse cenário aumenta o risco de falha no tratamento inicial, prolonga o tempo até o controle da infecção e pode elevar o número de hospitalizações e de complicações graves.
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