Medo de envelhecer começa cada vez mais cedo
Com o aumento da expectativa de vida, jovens recorrem a médicos em busca de tratamentos para manter a saúde
O medo de envelhecer deixou de ser uma preocupação apenas de quem está perto da terceira idade. Médicos relatam que pacientes têm buscado tratamentos para prevenir doenças ou disfarçar sinais da idade cada vez mais cedo.
A médica Renata Melo, por exemplo, relata que tem observado um aumento de pessoas na faixa de 25 a 35 anos já buscando por procedimentos e tratamentos anti-idade em sua clínica.
“Esse novo perfil reflete uma conscientização maior de que o envelhecimento saudável começa muito antes dos primeiros sinais, como rugas e flacidez.”
O mesmo é percebido pela cardiologista Tatiane Emerich. Segundo ela, as pessoas querem envelhecer sem perder a saúde.
“Na cardiologia isso significa chegar aos 70, 80 ou 90 anos sem ter sofrido um infarto ou um AVC, sem desenvolver insuficiência cardíaca ou perder a capacidade de fazer aquilo que gosta.”
E esse movimento pode ter relação com o aumento da expectativa de vida no Brasil, na visão do geriatra Roni Mukamal.
Para se ter uma ideia, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida no País passou de 45,5 anos em 1940 para 76,6 anos em 2024.
“A longevidade deixou de ser exceção e se tornou uma realidade para a maioria. É natural que as pessoas passem a olhar para o futuro e pensar em como querem chegar à velhice”, diz Roni.
Na visão do psicólogo Lucas Protti, essa antecipação também pode ter relação com as redes sociais, que intensificam uma angústia já existente.
“Nunca fomos tão convidados a olhar para a própria imagem. Ao mesmo tempo, quase tudo o que vemos já passou por filtros, edição ou procedimentos.”
Além disso, o envelhecimento causa um incômodo por mostrar que o corpo tem limites.
“Vivemos numa cultura que alimenta a ideia de que tudo pode ser aperfeiçoado: o corpo, a produtividade, a aparência e o desempenho”, explica Lucas.
Mas o problema não está na busca pela saúde, e sim na obsessão pela jovialidade, segundo a psicóloga Aline Eccher.
“Se o cuidado for encarado como uma forma de honrar a vida e manter o corpo operante para décadas de propósito, ele é sim um aliado.”
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