Médicos pedem proibição total de “chips da beleza”
Segundo eles, não há garantia de segurança e eficácia dos implantes hormonais manipulados, vendidos para tratar sintomas da menopausa
Com o alerta de falta de evidências científicas que comprovem os benefícios, 12 sociedades médicas assinaram uma carta pedindo a proibição total dos implantes hormonais manipulados, chamados “chips da beleza”.
O pedido, destinado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), foi feito na Carta do Rio de Janeiro, divulgada no 20º Congresso Mundial de Menopausa.
Esses implantes são frequentemente vendidos para tratar sintomas da menopausa e alteração na libido, além de prometer emagrecimento e ganho muscular.
Além da falta de evidências, o documento alega que não há garantia de segurança para o uso, como explica a endocrinologista Mariana Guerra, delegada da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) no Espírito Santo.
Isso porque não há controle preciso sobre a dose e a liberação dos hormônios. “Muitos implantes têm como foco hormônios masculinos e substâncias que podem ser potencialmente prejudiciais à saúde”, diz a médica.
Por ser um implante subcutâneo, há ainda riscos relacionados ao próprio procedimento de inserção, segundo Leonardo Seligra, supervisor da Disciplina de Medicina Sexual do Departamento de Andrologia, Reprodução e Sexualidade da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).
“É necessário realizar um procedimento para inserir o dispositivo. Se for feito de forma inadequada, há risco de infecções e até de rejeição do material”.
Outro ponto destacado é a forma de comercialização dos implantes, como explica a endocrinologista Maria Amélia Julião, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia - Seccional Espírito Santo (SBEM-ES).
“Nas redes sociais, os dispositivos são vendidos com muitas promessas milagrosas, enquanto se omitem a falta de segurança e os riscos severos à saúde”.
O diretor da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), Marcelo Luis Steiner, reforça, porém, que as entidades não são contrárias à terapia de reposição hormonal.
“Não se trata de ser contra hormônios, mas de defender estratégias já consagradas, que passaram por estudos científicos e pelo acompanhamento após a comercialização, o que não acontece com esses implantes”.
Tire suas dúvidas
O que são os chamados “chips da beleza”?
São implantes hormonais colocados sob a pele que liberam substâncias no organismo ao longo do tempo. Costumam ser vendidos com promessas como melhora da libido, ganho de massa muscular, emagrecimento e alívio de sintomas da menopausa.
Por que as entidades médicas são contra?
Porque faltam estudos clínicos adequados que comprovem a segurança e a eficácia desses implantes. Também há preocupação com o controle da quantidade de hormônio, da estabilidade e do ritmo de liberação da substância no organismo.
Quais hormônios normalmente são usados?
Entre as substâncias utilizadas estão a testosterona e a gestrinona, que têm ação androgênica. Em alguns casos, também há associação de diferentes hormônios.
Quais são os principais riscos?
Podem ocorrer acne, queda de cabelo, engrossamento da voz e irregularidade menstrual. Também há preocupação com alterações no colesterol, problemas cardiovasculares e outros efeitos ainda pouco conhecidos.
A terapia hormonal da menopausa é a mesma coisa desses implantes?
Não. As sociedades médicas destacam que são favoráveis à terapia hormonal quando há indicação e uso de medicamentos estudados, com doses conhecidas e controladas. Para mulheres com útero, por exemplo, o tratamento costuma envolver estrogênio associado à progesterona ou a progestagênios.
Para que serve essa terapia hormonal?
É utilizada principalmente para aliviar sintomas da menopausa, como ondas de calor, suores noturnos, alterações do sono e secura vaginal. Também pode ajudar a reduzir efeitos da queda do estrogênio, como a perda de massa óssea.
E a testosterona para mulheres?
Pode ser indicada em situações específicas, principalmente em casos de desejo sexual hipoativo, após avaliação médica. O uso deve ser feito em doses fisiológicas e levando em conta outros fatores que também podem interferir na libido.
Há opções mais seguras?
Sim. Existem medicamentos aprovados e estudados tanto para terapia hormonal quanto para o tratamento de sobrepeso e obesidade. A escolha deve ser individualizada e feita com acompanhamento médico.
Fonte: Médicos entrevistados.
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