Mais rigor contra venda ilegal de canetas para perder peso
Anvisa e Polícia Federal anunciaram reforços nas ações conjuntas após o crescimento de casos envolvendo produtos sem registro
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Medicamentos usados para emagrecer, vendidos sem controle e até pelas redes sociais, entraram na mira da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Polícia Federal.
Os órgãos anunciaram uma ofensiva, com reforços nas ações conjuntas, contra o mercado ilegal das chamadas canetas emagrecedoras – em especial da tirzepatida e semaglutida.
O reforço se dá após o crescimento de casos envolvendo produtos sem registro, falsificados ou sem garantia de segurança.
Uma nota técnica conjunta, publicada ontem, estabelece os procedimentos integrados.
O diretor da Anvisa, Daniel Pereira, afirmou que a parceria vai permitir intensificar o enfrentamento aos crimes e riscos sanitários envolvendo a produção, importação e venda irregular de medicamentos injetáveis.
O objetivo é frear a comercialização ilícita de produtos sem registro e comprovação de origem e qualidade, inclusive por meio de plataformas digitais. “A articulação ganha ainda mais relevância diante do aumento expressivo de eventos adversos associados ao uso destes medicamentos, muitas vezes sem prescrição médica ou com produtos sem qualquer garantia de qualidade, pureza ou segurança”, disse Pereira.
A cooperação consolida um modelo já testado em operações conjuntas pontuais, como a Heavy Pen, que, no mês passado cumpriu 45 mandados judiciais de busca e apreensão e 24 ações de fiscalização em diversos estados, incluindo no Espírito Santo.
No Estado, Polícia Rodoviária Federal (PRF) têm também apreendido as medicações nas estradas. A inspetora Ana Carolina Cavalcanti ressaltou que a PRF tem intensificado as ações de fiscalização de combate a crimes como contrabando de medicamentos, descaminho e tráfico de entorpecentes nas rodovias federais.
“O foco é o combate à entrada e à circulação de medicamentos irregulares, incluindo as chamadas canetas emagrecedoras. Em sua maioria, elas são trazidas do Paraguai sem autorização ou em desacordo com a legislação”.
Efeitos colaterais vão ser monitorados
Além de reforçar as ações de fiscalização da entrada e comercialização no País de substâncias ilegais injetáveis usadas para emagrecimento, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou nesta semana um Plano de Farmacovigilância Ativa.
A estratégia é realizar, em parceria com estabelecimentos de saúde, um monitoramento proativo ou seja, identificar, de forma sistemática, eventuais efeitos colaterais do uso de medicamentos popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras.
Hoje, a Agência recebe apenas relatos voluntários de pacientes e médicos sobre efeitos adversos. Entre 2018 e março de 2026, foram registradas 2.965 notificações de eventos adversos relacionados aos medicamentos, especialmente em 2025. Semaglutida esteve envolvida em 58,7% dos relatos.
A endocrinologista Lusanere Cruz destacou a necessidade de atenção à tirzepatida vendida de forma irregular, manipulada.
“Mesmo sem a quebra da patente, no Brasil e no Paraguai a manipulação da substância, de forma similar, é permitida. No entanto, não há um laboratório para provar que aquele produto tem similaridade com o produto original. Então, podemos ter medicação pura ou uma medicação muito ruim.”
Ela ressaltou que muitas vezes, a qualidade é ruim. “Outros países, que tinham permitido a manipulação durante período de escassez recuaram por causa dos problemas, a exemplo dos Estados Unidos, Inglaterra e Austrália. Nesses locais, manipular está proibido”.
Ela frisou que não havia casos de pancreatite relatados nesses níveis nos estudos clínicos do uso do Mounjaro, do laboratório que detém a patente. “Hoje, com a quantidade de manipulados, temos visto a pancreatite crescer. Então é algo que precisa ser avaliado”.
Saiba mais
Mounjaro
O Mounjaro é composto pela tirzepatida, um medicamento aprovado no País pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para as indicações:
Melhorar o controle glicêmico de adultos com diabetes mellitus tipo 2 e para controle do peso em pessoas com obesidade ou com sobrepeso na presença de pelo menos uma doença associada (por exemplo, hipertensão, apneia obstrutiva do sono).
O Mounjaro é comercializado pela farmacêutica Eli Lilly, que tem a patente legal até por volta de 2036.
Mercado paralelo
O mercado irregular da tirzepatida cresceu de forma desenfreada no último ano, sendo vendida em ampolas nas redes sociais ou aplicadas em clínicas de estética, consultórios e até em salões de beleza.
Em sua maioria, a aplicação não se dá com a caneta original, vendida em farmácias. São formulações manipuladas em larga escala ou importadas.
Além disso, no País, a medicação precisa de receita retida pelas farmácias para serem vendidas.
Tirzepatida importada
Uma das origens mais comuns da tirzepatida importada que chega ao Brasil é o Paraguai – onde existem fábricas produzindo a substância em larga escala, vendidas em ampolas.
Quem vende afirma que essa produção é possível, já que no país vizinho a legislação vigente relacionada a patentes seria mais “liberal” ao permitir a fabricação de produtos “similares” ao original. Lá, os produtos não seriam considerados ilegais.
Um dos problemas apontados pelos médicos é que não existe um órgão fiscalizador como Anvisa ou FDA (Estados Unidos) para garantir sua segurança e composição.
No Brasil, a Anvisa proibiu importação dos produtos.
Outro problema dos importados é o acondicionamento para chegarem ao Brasil, já que produtos entram ilegalmente, sem garantia de resfriamento no trajeto.
Entre as apreensões, eles já foram encontrados em potes de doces de leite e até no estepe de carros.
Manipulados
A manipulação no Brasil é permitida em circunstâncias restritas e específicas, para atender necessidades médicas individuais, a partir de prescrição.
Ou seja, o médico tem que prescrever a tirzepatida em receita carbonada e, para ser manipulada, a dose tem que ser diferente das existentes do medicamento original.
O remédio não pode ser oferecido em pronta-entrega, com estoques nem ser produzido em escala industrial, como tem sido visto.
Além disso, médicos ressaltam que a produção da tirzepatida exige tecnologia avançada, controles de qualidade rigorosos e testes físico-químicos e analíticos sofisticados para monitorar impurezas biologicamente ativas.
Riscos
No caso dos manipulados em larga escala e importados, médicos apontam que não há como saber a real composição desses produtos que se dizem tirzepatida.
Segundo médicos, há riscos de complicações que vão desde alergias, lesões intestinais, entre outras.
Por não serem conhecidas as substâncias, eles alertam para consequências no futuro, de potencializar alguma doença, como pancreatite, doenças autoimunes ou outras.
Fonte: Anvisa e médicos consultados.
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