Espírito Santo tem 1ª cirurgia cardíaca feita com robôs
O procedimento, que reduz cortes, dor no pós-operatório, acelera a recuperação e amplia a precisão, foi realizado em homem de 70 anos
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Uma cirurgia inédita no Espírito Santo inaugura uma nova era no tratamento de doenças do coração. Realizado com auxílio de robô, o procedimento reduz cortes, dor no pós-operatório, acelera a recuperação e amplia a precisão médica.
O cirurgião cardiovascular e coordenador da cirurgia cardíaca do Hospital Meridional, Melchior Luiz Lima, contou que a cirurgia de revascularização do miocárdio aconteceu no dia 8 deste mês no aposentado Eduardo Antônio Ponche, de 70 anos.
A técnica é utilizada para restabelecer o fluxo sanguíneo no coração. “A principal diferença em relação ao método tradicional está na forma de acesso ao coração. Na cirurgia tradicional, é necessário abrir o osso esterno (do peito). Já na robótica, utilizamos pequenas incisões e o robô funciona como um prolongamento das mãos do cirurgião, com movimentos mais precisos e visão tridimensional”, explicou.
Ele frisou que, no procedimento, os braços robóticos foram utilizados inicialmente para a preparação da artéria utilizada na revascularização. “Em seguida, a cirurgia foi concluída por meio de uma pequena incisão entre as costelas”.
Ele explicou, ainda, que outra diferença importante foi que no caso desse paciente, a operação foi realizada com o coração ainda em funcionamento, sem o uso da circulação extracorpórea — equipamento que substitui temporariamente as funções do coração durante cirurgias convencionais.
“O paciente teve um duplo benefício: a menor invasão proporcionada pelo robô e o fato de não precisar da circulação extracorpórea, o que contribui para uma recuperação muito mais rápida”, destacou o médico.
De acordo com ele, enquanto em uma cirurgia tradicional o retorno às atividades pode levar de 30 a 40 dias, no procedimento robótico esse prazo pode cair para cerca de cinco a seis dias.
Ainda segundo o especialista, a tecnologia pode ser aplicada em diferentes tipos de procedimentos cardíacos, como cirurgias valvares, correções congênitas e retirada de tumores benignos, embora a indicação dependa das condições clínicas de cada paciente.
A expectativa é de que, a partir da primeira cirurgia, o número de procedimentos aumente no Estado. “Esse é o pontapé inicial. A tendência é que a tecnologia se expanda e, com o tempo, esteja disponível em mais hospitais”, disse.
Ele lembrou que as cirurgias robóticas são realizadas há mais tempo no Estado em outras áreas, com resultados importantes, como na urologia e ginecologia.
“Foi o melhor presente da minha vida”, diz paciente
Sem sentir dor, cansaço ou qualquer sinal de alerta, o aposentado Eduardo Antônio Ponche, de 70 anos, levava uma rotina que incluía futebol, caminhadas, natação e academia.
A vida ativa, no entanto, escondia um problema silencioso, descoberto durante exames de rotina em dezembro do ano passado: a obstrução em artérias do coração.
O diagnóstico veio após uma angiografia e um cateterismo, solicitados pela médica da família, diante de níveis elevados de colesterol.
“Quando saíram os resultados, o médico disse que eu iria precisar operar — inicialmente, pelo método tradicional, com abertura do tórax. Isso me assustou muito, pois a gente começa a pensar em um monte de coisas”, lembrou.
Foi quando surgiu a possibilidade do procedimento inédito no Espírito Santo: a cirurgia cardíaca robótica.
Após avaliação e o aval da equipe médica, Eduardo se tornou o primeiro paciente a passar pelo procedimento.
Uma semana após o procedimento, realizado no dia 8 de abril, ele já consegue fazer caminhadas pelo condomínio – uma recuperação rápida que surpreendeu até o próprio paciente.
Segundo ele, o procedimento aconteceu próximo ao aniversário de 70 anos, comemorado ainda no hospital, no último domingo. Para ele, a coincidência deu um novo significado à data. “Foi o melhor presente da minha vida”.
Apesar do susto, Eduardo agora fala em gratidão — pela equipe médica e pela chance de continuar acompanhando a família. “Tenho muita gratidão por toda equipe que me acompanhou, em especial à médica da família, Carolina Souza Peixoto, que solicitou os exames iniciais. Também agradeço à equipe da cirurgia, como os cirurgiões Melchior Luiz Lima e Heber Souza Melo Silva, além de todos os outros profissionais”.
Pai de três filhos e avô de quatro netos, ele se emociona ao falar do futuro. “Tem muita coisa ainda para viver. Quero ver meus netos correrem atrás de mim”.
A experiência também deixou um alerta: problemas cardíacos podem evoluir de forma silenciosa, mesmo em pessoas ativas.
“Se eu não tivesse feito o exame, eu estaria jogando bola normalmente. E poderia ter acontecido uma morte súbita”.
Saiba Mais
Cirurgia cardíaca robótica
- Foi realizada no Espírito Santo na última semana, pela primeira vez, uma cirurgia cardíaca robótica, com auxílio do robô Da Vinci Xi.
- Até então, as cirurgias robóticas vêm sendo realizadas no ES em várias outras especialidades, como na urologia, ginecologia e alguns tipos de tumores.
Como funciona
- A cirurgia robótica é realizada por meio de pequenas incisões no tórax, por onde são introduzidos os braços robóticos e uma microcâmera de alta definição.
- O cirurgião opera a partir de um console, controlando os instrumentos por meio de uma espécie de joystick (como um controle para jogos).
- A tecnologia permite maior precisão, filtragem de tremores e visualização das estruturas cardíacas, enquanto a equipe multiprofissional acompanha cada etapa em tempo real.
Benefícios
- A cirurgia favorece recuperação mais rápida e menor risco de complicações.
- Enquanto uma cirurgia tradicional tem um tempo de recuperação entre 30 e 40 dias, a cirurgia robótica pode reduzir o tempo entre 7 e 8 dias.
- Também tem menos dor para o paciente, já que não precisa de abrir o esterno (osso da região do peito).
Em quais casos pode ser feita
- O auxílio do robô em cirurgias cardíacas é avaliado caso a caso, mas pode ser usado em tratamentos de doenças valvulares, cardiopatias congênitas, tumores e em quadros de pacientes que precisam fazer ponte de safena.
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