Diagnóstico da depressão pós-parto ainda é difícil, dizem especialistas
Médicos alertam que há falta de aplicação de um protocolo estruturado para rastrear transtornos emocionais nas mães
Enquanto a gravidez é acompanhada de perto por exames e consultas de rotina, o período pós-parto muitas vezes mergulha em um vácuo assistencial.
Especialistas apontam que o diagnóstico da depressão pós-parto ainda esbarra na invisibilidade dos sintomas e na falta de aplicação de um protocolo estruturado para rastrear transtornos emocionais nas mães.
Quando um sistema de saúde não monitora casos de depressão pós-parto grave ou outros problemas mentais relacionados à maternidade, o primeiro impacto é a perda da oportunidade de prevenção secundária, de acordo com o doutor Joel Rennó Jr., diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher - Instituto & Departamento de Psiquiatria da USP.
“Mas o problema é muito maior do que não diagnosticar a depressão. Transtornos potencialmente tratáveis tornam-se mais prolongados, recorrentes e incapacitantes, com prejuízos funcionais mais graves além, é claro, de aumento dos riscos de mortalidade materna”, alerta Joel, que também é coordenador da Comissão de Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).
“A relação mãe-bebê fica muito prejudicada, dificultando as interações afetivas e estabelecimento de rotinas. O Ministério da Saúde reconhece explicitamente que a depressão pós-parto pode repercutir no vínculo e estar associada a consequências no desenvolvimento social, cognitivo e afetivo infantil”.
A médica de família e comunidade Taynah Repsold destaca que a Escala de Edimburgo – que ajuda a identificar sinais de depressão pós-parto e na gravidez – é um teste com 10 perguntas, está disponível na internet e pode ser aplicada por qualquer profissional de saúde treinado, como médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais.
“Uma boa anamnese e um bom vínculo entre médico e paciente são fundamentais para o diagnóstico. Frases como 'não sou a mãe que eu imaginava', 'qualquer um cuidaria melhor dele do que eu' ou 'não sinto o que deveria sentir' acendem o alerta”.
“O médico que não atribui automaticamente todo sofrimento puerperal aos hormônios já tem, nessa postura, uma ferramenta de rastreio. O maior inimigo do diagnóstico é a naturalização: quando tudo é explicado pelo hormônio e pelo cansaço, o quadro grave passa despercebido”, frisa a médica.
“Cheguei a duvidar se eu era uma boa mãe”
Quarenta e cinco dias depois de ter dado à luz, a dona de casa Thalita Oliveira, de 36 anos, iniciou um acompanhamento terapêutico.
O marido de Thalita, porém, a alertou sobre a necessidade de ajuda psicológica. “Ele sempre foi muito cuidadoso conosco e teve um papel importante para minha rápida recuperação emocional. Quanto aos médicos, não houve nenhuma percepção por parte deles”, afirma.
A dona de casa lembra que sentia desespero ao acordar com os choros do seu filho, Samuel, hoje com 1 ano e 6 meses. “Cheguei, em alguns momentos, a duvidar se de fato eu deveria ter sido mãe ou se estava sendo uma boa mãe. E o que me impedia de falar sobre o assunto era exatamente o julgamento de outras mulheres”.
Thalita relembra que não conseguia dormir por ansiedade e “medo extremo” de alguém fazer algum mal ao seu filho. “Gostaria de ter tido um pouco mais de preparo, leituras sobre puerpério, acompanhamento de terapeutas e apoio de amigos”.
Foi pensando nessa falta que ela iniciou o projeto social Gerando Promessas.
“É um curso voltado para a orientação e cuidado do casal com a chegada do primeiro bebê. Entre vários assuntos, abordamos amamentação, sono, vida conjugal após chegada do bebê, depressão pós-parto e puerpério”.
Condições físicas devem ser avaliadas pelos médicos
Nem todo cansaço, irritabilidade ou falta de energia depois do nascimento do bebê deve ser atribuído apenas às mudanças emocionais do puerpério.
Algumas condições físicas podem provocar sintomas semelhantes aos de ansiedade e depressão e, por isso, precisam ser investigadas durante o acompanhamento da mulher.
A médica de família e comunidade Taynah Repsold explica que a avaliação deve considerar, entre outros pontos, o funcionamento da tireoide e possíveis deficiências nutricionais.
Uma das condições que pode passar despercebida é a tireoidite pós-parto, que pode surgir no primeiro ano após o nascimento do bebê. O problema costuma apresentar duas fases. Inicialmente, o excesso de hormônios da tireoide pode provocar irritabilidade, ansiedade, palpitações, insônia e perda de peso.
Depois, pode ocorrer uma fase de hipotireoidismo, marcada por cansaço intenso, lentificação, ganho de peso, pele seca e humor deprimido. “Tanto o excesso quanto a falta de hormônio tireoidiano produzem sintomas que se confundem com ansiedade e depressão”.
Para a médica, porém, há outro fator que costuma ser subestimado: a privação de sono.
Taynah destaca que a privação de sono é fator de risco independente para depressão pós-parto e agrava quadros já instalados.
“Ela produz sintomas que imitam ou se sobrepõem à depressão, como irritabilidade, lentificação, choro fácil e dificuldade de concentração, o que confunde o diagnóstico. E cria um círculo vicioso, porque a ansiedade e a depressão pioram o sono, e a falta de sono piora a ansiedade e a depressão”.
Um sinal de alerta, segundo Taynah, é quando a mulher tem oportunidade de dormir, mas não consegue. Segundo ela, uma mãe que aproveita os períodos em que o bebê dorme para descansar está dentro de uma situação esperada de privação de sono.
Já aquela que permanece acordada mesmo quando outra pessoa assume os cuidados pode estar apresentando algo além do cansaço que é provocado pela rotina.
O outro lado
Identificação de sinais
O Ministério da Saúde foi questionado sobre números de mortes maternas e internações relacionadas ao período pós-parto, e também se há a aplicação da Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo (EPDS) durante o pré-natal e consultas de puerpério.
A pasta disse apenas que “as equipes da atenção primárias estão aptas a identificar sinais de sofrimento psíquico, realizar o acolhimento, o manejo inicial e, quando necessário, encaminhar as pacientes para serviços especializados”.
Diz ainda que a atuação desses profissionais conta com “a utilização de instrumentos e materiais técnicos que apoiam a organização do cuidado nos diferentes contextos assistenciais”.
Já a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) informou que não há uma diretriz geral para a aplicação da Escala de Edimburgo no pós-parto na rede pública.
“O atendimento às puérperas que apresentam sintomas ou características de depressão pós-parto é feito a partir da Atenção Primária à Saúde”.
Fique por dentro
O que pode imitar um transtorno mental
Tireoide
- A tireoidite pós-parto atinge uma parcela significativa das puérperas no 1º ano e costuma passar por duas fases opostas, cada uma imitando um quadro psiquiátrico diferente.
- Na primeira, de hipertireoidismo, aparecem irritabilidade, ansiedade, taquicardia, insônia e perda de peso. Na segunda, de hipotireoidismo, há cansaço extremo, lentidão, ganho de peso e humor deprimido.
Ferro e vitaminas
- A anemia por deficiência de ferro, comum após partos com perda sanguínea, causa cansaço, fraqueza, dificuldade de concentração e desânimo, sintomas que se sobrepõem aos de um quadro depressivo. Carência de vitaminas B12 e D também se associam à fadiga e alterações de humor.
Privação de sono
- A falta de sono no puerpério não é apenas efeito do sofrimento mental, ela também o provoca e o mantém.
- Fisiologicamente, a privação crônica desregula o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, mantém o cortisol elevado e reduz a capacidade de tolerar frustração e estresse.
- É fator de risco independente para depressão pós-parto, agrava quadros já instalados e cria um ciclo: a ansiedade piora o sono, e a falta de sono piora a ansiedade.
- Observação: Antes de investigar depressão ou ansiedade pós-parto, médicos e especialistas da área da saúde recomendam descartar causas orgânicas que podem ser tratáveis.
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