165 pessoas buscaram atendimento para vício em jogos este ano no ES
Serviço do governo estadual, lançado no início deste ano, aponta que maioria dos pacientes é jovem e do sexo masculino
Desde janeiro, quando o Programa Rede Abraço, do governo do Espírito Santo, passou a oferecer uma linha específica de atendimento voltada para quem sofre com compulsão por jogos digitais e apostas esportivas, 165 pessoas já foram atendidas no Espírito Santo.
De acordo com dados da iniciativa, foram realizados 465 atendimentos relacionados ao problema, sendo a maioria homens (71%), de 25 a 34 anos. Do total de atendimentos, 61% recebem menos de um salário mínimo e 35% recebem acima do mesmo valor.
Segundo o subsecretário de Estado de Políticas sobre Drogas e coordenador do programa, Carlos Lopes, a alta procura por ajuda reflete uma mudança no cenário social brasileiro após a popularização das plataformas de apostas.
“Na medida em que você tem na sociedade um incentivo à prática do jogo de forma irresponsável, isso provoca impactos diretos na vida das pessoas. Temos observado um aumento de sintomas como angústia, ansiedade, depressão e solidão, além de problemas financeiros”.
Referência no cuidado a dependentes químicos desde 2013, o programa acolhe pessoas com transtornos relacionados aos jogos e apostas, bem como oferece suporte aos familiares.
“O indivíduo chega ao serviço e é acolhido por uma equipe multiprofissional formada por psicólogos, assistentes sociais, médicos clínicos, psiquiatras e profissionais de enfermagem. É construído um plano individual de atendimento para cada caso”, explicou Lopes.
Um dos pacientes atendidos pelo programa, que pediu para não ser identificado, conta que só percebeu a dimensão do problema quando começou a recorrer a empréstimos para continuar apostando.
“Peguei dinheiro emprestado com um agiota, depois com outro e virou uma bola de neve. Só fui pedir ajuda quando já estava sendo ameaçado de morte. Em sete meses de tratamento, tive apenas uma recaída”, lembrou.
Segundo o vice-presidente da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo, José Luís Leal, o vício em jogos é reconhecido pela psiquiatria como uma doença. “É uma condição que altera o funcionamento do cérebro, da mesma forma que ocorre em outras dependências”.
Entre os principais sinais de alerta estão a incapacidade de interromper as apostas, a preocupação constante com o jogo, a tentativa de recuperar perdas apostando ainda mais dinheiro, o acúmulo de dívidas, além do afastamento da família, dos estudos e do trabalho.
Alta procura faz SUS ampliar atendimento a viciados
A alta procura por ajuda devido a problemas relacionados a jogos e apostas levou o Sistema Único de Saúde (SUS) a ampliar significativamente a oferta de atendimento especializado em saúde mental.
Desde a última terça-feira (04), o sistema passa a disponibilizar até 100 mil teleatendimentos mensais para pessoas que enfrentam compulsão por apostas e para seus familiares.
A medida representa uma expansão expressiva do serviço, que começou a funcionar em março com capacidade para apenas 600 atendimentos mensais.
O atendimento é realizado de forma remota, sigilosa e gratuita, oferecendo orientação, acompanhamento profissional e acolhimento para pessoas afetadas pelo vício em jogos e apostas.
O serviço também funciona como porta de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), responsável pelo acompanhamento dos pacientes no SUS.
Durante agenda na Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS), o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou que a modalidade pode facilitar a busca por ajuda, especialmente entre pessoas que ainda enfrentam receio ou constrangimento para procurar atendimento presencial.
“Muitas vezes, as pessoas não procuram ajuda por vergonha ou estigma. Com o autoteste e o teleatendimento, elas podem identificar sinais de risco e se sentir mais à vontade fazendo esse atendimento em casa, pelo celular”, afirmou o ministro.
O acesso ao serviço é feito pelo aplicativo Meu SUS Digital, que direciona o usuário para a plataforma da AgSUS, parceira da iniciativa.
Fique por dentro
Crescimento do problema
- Segundo o psiquiatra José Luís Leal, houve um aumento expressivo da procura por ajuda devido às apostas online. A facilidade de acesso pelo celular contribuiu para a expansão do problema.
Prevalência
- Entre a população geral, varia de 0,8% a 5%. Entre jogadores online ativos, varia de 2,7% a 11,1%.
Sinais de alerta
- Quando o jogo compromete as finanças, os relacionamentos ou a saúde e a pessoa não consegue parar sozinha.
Tratamento gratuito pelo SUS
- O atendimento começa nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), que fazem acolhimento, avaliação e encaminhamento dentro da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
Outras opções gratuitas
- Centros de Atenção Psicossocial (Caps), grupos dos Jogadores Anônimos (JA) e clínicas-escola de faculdades de Psicologia.
Rede Abraço
- Desde janeiro, oferece atendimento específico para compulsão por jogos digitais e apostas esportivas. O serviço é gratuito e não exige encaminhamento ou agendamento prévio.
- 465 atendimentos relacionados a apostas online foram realizados. Perfil dos atendidos: 71% homens. A maioria tem entre 25 e 34 anos.
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