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Relacionamento à distância
Martha Medeiros
Martha Medeiros

Martha Medeiros


Relacionamento à distância

Ele me contou a história em um tom baixo de voz. Terminaram a relação, mas a cicatriz não havia fechado. Ele ainda gostava dela, só que não deu certo. Namoraram durante quase um ano, ele morando em Porto Alegre, ela em Vitória, no Espírito Santo. Mais de 2.000 km os separavam. Não podiam pegar um avião todos os meses. Tinham seus empregos, suas famílias. Culpava a distância pelo fim. Agora era tratar de conhecer outra pessoa para se reerguer. “Já entrei no Tinder”, disse ele. Tive vontade de rir, mas ele não parecia estar fazendo piada. Fiz cara de “agora vai”, sem convicção.

Relacionamento à distância – não são todos assim, hoje? Em vez de conviver, viramos uns bisbilhoteiros. Compreensível, já que esse troço chamado rede social captura mesmo.

Se você é seguidor de gente interessante, então, é um vício, pois são muitos textos bem escritos, fotos originais, comentários divertidos, dicas de livros e filmes. Ainda assim, moderação e tino: ninguém é tão estupendo como se apresenta no mundo virtual. Onde foi parar nosso lado sombrio?

Fraquezas, angústias, dúvidas: não há espaço para elas no Instagram e no Facebook. Dá a impressão que ninguém chora ou se atrapalha no cotidiano – são raros os que expõem sua bad trip (o ego não deixa).

Normal, mas é bom lembrar que quem aprisiona sua dor não se relaciona, não para valer. Intimidade se atinge com divisão de fardo, troca.

Paixões e amigos dão sentido à nossa vida porque ajudam a nos passar a limpo, a colarmos nossas fraturas, a nos tornarmos pessoas melhores. Cultuo a solidão, como já disse mil vezes, mas ela é um pit-stop, apenas.

Se escolho estar só o tempo inteiro, sem interagir com as emoções dos outros e sem expressar as minhas inquietudes de viva voz, não evoluo, nada evolui.

Meu amigo conhecia profundamente sua namorada capixaba? Pouco, pois o whatsapp não dá conta da nossa humanidade, não substitui olhares e abraços.

Difícil demonstrar nossos desconfortos através de mensagens on-line, então dá-lhe oba-oba.

Resultado: depressão virou epidemia e os suicídios se sucedem porque, entre outros motivos, as pessoas se sentem inadequadas por estar sofrendo, o que é um absurdo.

Sofrer é adequado. Sofrer é normal. Todo mundo sofre, mesmo que não pareça. E não parece mesmo, pela tremenda distância estabelecida entre o nosso eu real e o real dos outros.

Do quarto dos pais ao quarto dos filhos pode existir um corredor de 2.000 km a separá-los. Entre a minha cadeira no restaurante e a sua, abre-se uma cratera a cada vez que colocamos o celular sobre a mesa e ficamos checando as redes em vez de conversar, rir e fazer confidências.

Relacionamento à distância é silêncio a dois, pode estar acontecendo aí mesmo dentro do seu casamento perfeito.
 

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