Turismo movimenta a economia de Guarapari
Da hospedagem ao comércio, visitantes movimentam serviços e geram novas oportunidades para os negócios locais
Em Guarapari, uma viagem que começa na praia aciona muito mais do que hotéis e restaurantes. O movimento de visitantes chega às lojas, ao transporte, aos serviços e a negócios que também atendem quem vive na cidade. A questão para os empreendedores é como ampliar essa circulação para além dos períodos de maior procura.
Em outubro, a rede de hospedagem teve um retrato desse movimento. Levantamento publicado em 11 de outubro pela Secretaria Municipal de Turismo indicava ocupação média de 79,2% entre 45 estabelecimentos consultados para os dias 10 a 12, durante a Semana do Saco Cheio. O indicador retrata a consulta feita para aquele feriado, não a ocupação de todo o município ao longo do ano.
A turismóloga Cássia Coppo chama a atenção para os efeitos do visitante sobre atividades que nem sempre são classificadas como turísticas. “O turismo traz uma renda nova para dentro do território”, afirma. Segundo ela, o gasto pode alcançar padarias, farmácias e supermercados, além de hospedagem, alimentação e lazer.
A articulação também ocorre dentro dos próprios empreendimentos. No Acquamania, o empresário Marco Azevedo relata parcerias em que operadores locais assumem restaurantes instalados no parque. O arranjo mostra como um atrativo pode abrir espaço para outros negócios, tema aprofundado na reportagem da página seguinte.
No comércio, o desafio inclui atender moradores, conquistar consumidores das cidades vizinhas e acompanhar quem pesquisa produtos pela internet antes de comprar. Rafael Avance, diretor de Comércio e Serviços do Guarapari em Ação (GEA), resume a mudança: “O resumo do comércio hoje é um comércio de experiência”. Para o setor, o atendimento presencial convive cada vez mais com canais digitais.
Na hotelaria, ampliar o calendário passa também por apresentar Guarapari a novos públicos. Gustavo Guimarães defende a aproximação com agências, operadoras e estratégias de divulgação. Entre praias, gastronomia, natureza e serviços, a diversidade já existe; transformá-la em demanda mais distribuída ao longo do ano continua sendo uma tarefa de empresários e poder público.
Hotelaria busca novos mercados
Ampliar o movimento turístico para além da alta temporada passa por apresentar Guarapari a novos públicos. Para o hoteleiro Gustavo Guimarães, esse caminho envolve fortalecer a divulgação do destino, organizar experiências e aproximar os empreendedores de quem comercializa viagens.
“Esse turista pode ser captado através de uma agência de viagem, de uma operadora”, afirma. O empresário defende que hospedagem, gastronomia e passeios sejam apresentados de forma integrada, valorizando os atrativos da cidade para além do sol e do mar.
Um exemplo dessa estratégia ocorreu em outubro, quando profissionais argentinos do setor turístico visitaram Guarapari para conhecer praias, gastronomia e serviços. A iniciativa, voltada à promoção do destino para o verão de 2027, representa uma oportunidade de aproximação com o mercado internacional.
“A gente precisa ter uma ação forte com mídias sociais”, destaca Gustavo. Para o setor, combinar divulgação, parcerias com operadoras e experiências diversificadas pode ampliar a presença nos roteiros de viagem e abrir novas oportunidades para hotéis, restaurantes e serviços turísticos ao longo do ano.
Comércio integra lojas físicas e canais digitais
A movimentação nas lojas de Guarapari não se restringe ao verão, na avaliação de Rafael Avance, diretor de Comércio e Serviços do Guarapari em Ação (GEA). Datas como Dia das Mães, Dia dos Pais e Dia dos Namorados também impulsionam o calendário do comércio.
Rafael relata a presença de consumidores de cidades próximas, como Anchieta e Alfredo Chaves. “Isso é muito bom para o aquecimento da economia local”, afirma. Trata-se de uma percepção do representante do setor, e não de uma contagem estatística da procedência dos compradores.
O avanço da pesquisa de preços e produtos pela internet exige adaptações. “A gente tem buscado fazer conexões da loja física com a loja online”, explica. Segundo ele, o consumidor quer conveniência, mas também valoriza o atendimento presencial.
A combinação entre identidade local, experiência de compra e ferramentas digitais pode ajudar estabelecimentos tradicionais a alcançar diferentes públicos ao longo do ano.
Quando um parque abre espaço para empreender
No interior de Guarapari, longe da movimentação das praias, a família do empresário Marco Azevedo apostou no turismo quando poucos acreditavam no potencial da região. A história começou com o Hotel Flamboyant, inaugurado em 1989, e ganhou novos caminhos com o parque aquático Acquamania. “Quando nós começamos, ninguém acreditava, né?”, recorda.
A trajetória dos empreendimentos revela uma dimensão do turismo que vai além da hospedagem e do lazer: a capacidade de abrir oportunidades para outros negócios. No Acquamania, parte dos restaurantes é administrada por empresas parceiras. O parque oferece a estrutura, enquanto os operadores assumem os serviços de alimentação, em um modelo de participação nos resultados.
“Nós valorizamos também várias empresas de empreendedores locais”, afirma Marco. Para ele, as parcerias permitem que diferentes negócios participem da atividade turística, aproveitando a estrutura e a circulação de visitantes no empreendimento.
Um exemplo dessa relação é a trajetória de um profissional da gastronomia japonesa que morava em Guarapari e atuou como parceiro no parque. A experiência foi seguida pela abertura de um restaurante próprio na cidade. “É uma ação dinâmica também de fortalecimento do empresário local”, resume.
O caso mostra como um atrativo turístico consolidado pode contribuir para o desenvolvimento de outras atividades econômicas. Ao integrar pequenos operadores à sua estrutura, o Acquamania cria oportunidades de negócios e fortalece conexões entre empreendedores.
Em uma cidade tradicionalmente associada às praias, a experiência do Flamboyant e do Acquamania reforça o potencial do turismo no interior do município. Mais do que atrair visitantes, o desafio é fazer com que essa movimentação também gere oportunidades para quem empreende, trabalha e investe em Guarapari.
Na prática, o modelo beneficia diferentes atividades.É uma relação que conecta lazer, gastronomia e empreendedorismo, ampliando a participação de empresas locais na economia do turismo.
Experiências ajudam a ampliar o calendário
Praias, montanhas, restaurantes e experiências rurais podem fazer parte de uma mesma viagem. Para a turismóloga Cássia Coppo, organizar essa diversidade é um dos caminhos para movimentar Guarapari em diferentes épocas do ano.
Cássia acompanhou iniciativas de mapeamento do interior desde 2009. Ao retornar a Buenos Aires em 2023, ouviu de uma produtora o relato de que antes precisavam descer as montanhas e ir até a área urbana, para vender seus produtos. Agora, ela não precisa sair da região, os próprios visitantes que sobem para consumir.
“Trabalhar a sazonalidade no município de Guarapari é extremamente importante”, afirma. Ela avalia que eventos podem atrair público em determinados períodos, mas não substituem uma estratégia que conecte atrativos, moradores, empresas e poder público.
“Poderia ser feito através de um planejamento estratégico junto com a municipalidade”, propõe. Para ela, a oportunidade está em oferecer experiências contínuas, com identidade territorial e serviços preparados para recebê-las.
1. Praia do Ermitão
Localizada no Morro da Pescaria, a praia é cercada por vegetação preservada e acessível por trilhas que oferecem belas vistas do litoral de Guarapari.
2. Parque Paulo César Vinha
A unidade estadual de Setiba reúne vegetação de restinga, trilhas e a Lagoa de Caraís. A visitação deve observar as regras ambientais do parque.
3. Rota da Ferradura
O circuito reúne Buenos Aires, Boa Esperança e Arraial do Jabuti, com gastronomia, produtores locais, paisagens de montanha e atrativos naturais.
4. Meaípe
A tradição pesqueira, a moqueca capixaba e os restaurantes de culinária regional conectam a experiência do visitante aos negócios locais.
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