Mensagens envolvendo ministro colocam STF em crise histórica
Conversas mostram Vorcaro pedindo ajuda a Moraes antes de ser preso, e Mendonça pede que plenário decida sobre investigação
A divulgação, feita na terça-feira (02), de mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro revelou uma sequência de contatos dele com o ministro Alexandre de Moraes e agravou a crise no Supremo Tribunal Federal (STF).
O sigilo foi derrubado pelo ministro André Mendonça, relator do caso Master, que indicou que o plenário deverá decidir se Moraes será investigado. Os diálogos foram enviados por Vorcaro durante a fase mais aguda da crise do Banco Master. Em 15 de novembro de 2025, dois dias antes de ser preso pela Polícia Federal, ele perguntou ao ministro: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.
Na sequência, quis saber: “Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo tá sabendo? Conseguimos fazer algo?”. As referências eram ao juiz Ricardo Augusto Soares Leite, responsável pela ordem de prisão, e ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. No dia seguinte, Vorcaro voltou a questionar Moraes:
“Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”. Já no dia da prisão, às 17h26, enviou outra mensagem:
“Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. A ordem de prisão preventiva havia sido assinada às 15h29. Vorcaro acabou detido horas depois no Aeroporto Internacional de São Paulo, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta.
A Federal recuperou só as mensagens enviadas por Vorcaro. Os interlocutores usavam capturas de textos escritos no aplicativo de notas e encaminhadas pelo WhatsApp como imagens de visualização única, o que impediu a recuperação de eventuais respostas de Moraes.
Mendonça afirmou que os diálogos reforçam a hipótese de que Vorcaro “demandava intervenção junto a autoridades públicas envolvidas nos respectivos processos decisórios” e que identificar os interlocutores é necessário para mapear uma “rede de influência e monitoramento”.
O ministro determinou manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) e afirmou que a análise caberá à “instância soberana” do STF, em deliberação “pública e transparente”. Como ministro da Corte, Moraes só pode ser formalmente investigado com autorização do plenário.
Em março, quando parte das mensagens veio a público, Moraes disse que não as havia recebido e classificou como “ilação mentirosa” a afirmação de que teriam sido encaminhadas a ele.
Contrato editado por Moraes
O ministro Alexandre de Moraes, do STF, editou a minuta do contrato milionário firmado entre o Banco Master e o escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes.
Metadados obtidos pela Polícia Federal indicam que a última alteração no documento foi feita por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, em 11 de janeiro de 2024.
A minuta havia sido elaborada por Guilherme Benazzi, administrador da banca. Dias depois, a versão final foi enviada por Viviane a Daniel Vorcaro.
O contrato previa serviços advocatícios e consultoria estratégica, com pagamentos de R$ 3,6 milhões por mês durante 36 meses, totalizando cerca de R$ 131 milhões.
Mensagens obtidas pela PF mostram a importância atribuída por Vorcaro aos pagamentos. Em março de 2024, ao descobrir o atraso de uma parcela, ele escreveu: “Pqp. Não pagaram Barci de Moraes. Não tô entendendo isso. Contrato mais importante que temos. Te pedi para não falhar. Surreal. Vamos ter problemas”. E determinou: “Manda pagar agora”.
Em outra conversa, Vorcaro disse a uma funcionária que o pagamento não poderia “atrasar um dia”, porque era “o pagamento mais importante que temos”. Acrescentou: “Pode pagar sempre, sem nota” e “do jeito que for”.
Fábio Faria, ex-ministro de Bolsonaro, também cobrou o pagamento: “O careca não pode atrasar”. Em nota, o escritório afirmou que consultou Moraes, “na condição de marido da sócia diretora”, para verificar possíveis impedimentos legais. Disse que não havia previsão de atuação no STF e que Moraes nunca julgou causas do Master.
Conversa quase acaba em agressão
Uma discussão entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça quase terminou em agressão física na segunda-feira (31), segundo a coluna de Andreza Matais, do site Metrópoles. O encontro ocorreu no gabinete de Mendonça, a pedido de Moraes.
O ministro teria procurado o colega após descobrir que Mendonça havia determinado à Polícia Federal o aprofundamento de uma investigação que identificou Moraes como interlocutor de Daniel Vorcaro em mensagens sobre o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
Na conversa, Mendonça questionou como Moraes soube da apuração, que estava sob sigilo. “Eu tenho minhas fontes. Fui ministro da Justiça”, respondeu Moraes, segundo a publicação.
O clima então se deteriorou. Moraes acusou Mendonça de direcionar as investigações contra ele, o tom subiu de ambos os lados e, segundo a coluna, a discussão quase chegou às vias de fato. Moraes estaria reunindo informações para reagir às iniciativas de Mendonça. A investigação envolvendo um ministro depende de aval do STF.
Cotas de aeronaves a mulher
Mensagens e documentos encontrados pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro indicam que o dono do Master transferiu cotas de um avião e de um helicóptero ao escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes. As cotas fariam parte do pagamento de um segundo contrato com a banca, no valor de R$ 50 milhões.
O avião é um Legacy 650, avaliado em US$ 5,5 milhões, e o helicóptero, um Airbus EC 155 B1, em US$ 1,3 milhão. Dias antes, Vorcaro pediu que uma brochura sobre as aeronaves fosse enviada a Viviane.
A relação comercial avançou poucas semanas depois de uma “experiência VIP” organizada por Vorcaro para Moraes em Campos do Jordão (SP). O ministro esteve no Botanique Hotel Experience, com diárias de R$ 6 mil. Vorcaro monitorou a estada à distância.
Onze dias depois, Viviane enviou a Vorcaro por WhatsApp a minuta do 1º contrato. Dois meses após a discussão sobre as cotas, Vorcaro perguntou se “eles não estão usando”.
O interlocutor respondeu que já haviam usado “aviões e helicópteros”. Questionada se estavam gostando da utilização, Viviane respondeu: “Sim, estamos gostando muito, todos que nos atenderam sempre foram muito educados e atenciosos.”
Queixa sobre destaque a Tarcísio
Mensagens mostram que Alexandre de Moraes interferiu na organização de eventos jurídicos ligados ao Banco Master em Londres, com vetos a convidados e mudanças na programação.
Em 2024, Daniel Vorcaro repassou pedido atribuído ao ministro para incluir em uma reportagem que Tony Blair havia se reunido com Moraes, Toffoli e Gilmar Mendes.
No ano seguinte, ao receber uma lista de convidados, Vorcaro vetou Antônio Rueda: “Rueda não né. Alexandre morre se você fizer isso. Aliás, nos mata”. Moraes também teria reclamado do destaque dado a Tarcísio de Freitas. Uma funcionária respondeu: “Podemos mudar tudo o que ele quiser”. Depois, afirmou ter passado o dia com Moraes e Viviane fechando o programa.
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