Polícia prende 7 suspeitos de sequestrar investidor e exigir milhões em criptomoeda
Investidor em criptomoedas foi sequestrado na Serra após um ano de monitoramento; quadrilha queria forçar transferências de ativos digitais
Um homem que investia em criptomoedas foi monitorado por cerca de um ano por uma associação criminosa antes de ser sequestrado e levado para uma área de mata na Serra, na manhã do dia 11 de junho. De acordo com a Polícia Civil, os criminosos conheciam a rotina da vítima, os locais que ela frequentava e até os horários em que praticava esportes. Eles tinham como objetivo obrigá-lo a transferir seus ativos digitais.
Na manhã do sequestro, a vítima estaria em um veículo de luxo da marca Porsche, quando foi surpreendida pelos criminosos. Eles o retiraram do veículo, o colocaram em um Chevrolet Celta e o levaram para uma região de mata em Jardim Carapina, onde sofreu agressões e ameaças de morte.
De acordo com o chefe do Departamento Especializada de Investigações Criminais (Deic), delegado Gabriel Monteiro, a vítima teria sido escolhida justamente pela exposição nas redes sociais, onde mostrava informações sobre seu patrimônio e sua atuação no mercado de criptomoedas.
"Percebemos que eles já estavam há uma ano monitorando essa vítima e, quando acharam uma oportunidade, iniciaram essa execução que até o momento foram nove identificados", disse o delegado Gabriel.
O caso é tratado pela polícia como o chamado “sequestro-relâmpago”, caracterizado juridicamente como extorsão com restrição de liberdade. Isso ocorre porque a própria vítima foi obrigada a realizar a transferência para os criminosos.
Associação criminosa
O delegado Gabriel Monteiro detalhou a participação dos integrantes da associação criminosa, que não era especializada em sequestros, apesar da organização para a prática do crime.
Os criminosos já teriam envolvimento com roubos, tráfico, homicídios e outros delitos. Segundo o delegado, ao perceberem uma oportunidade de conseguir uma grande quantia de dinheiro, eles se juntaram especificamente para executar esse crime.
A estrutura apresentada pela polícia, de maneira simplificada, era:
- Adilson – apontado como líder e primeiro destinatário do dinheiro;
- Osmar – apontado como um dos líderes e participante da abordagem;
- Samuel – motorista do Celta e participante da ação;
- Enoque – apontado como um dos executores;
- Erlan – participou da ação na área de mata;
- Laís – recebeu e repassou parte do dinheiro;
- Irlan – ligado ao Celta e à tentativa de criar uma versão falsa sobre o veículo;
- Willian – envolvido na logística e na tentativa de apagar provas; acabou preso por tráfico;
- Ana Júlia – responsável por monitorar a movimentação policial e avisar os demais integrantes.
Um dos envolvidos, Willian, acabou preso no mesmo dia do sequestro, mas por outro crime. Segundo os investigadores, ele foi detido em flagrante por tráfico de drogas antes de conseguir ir à delegacia para comunicar falsamente que o Celta utilizado na ação havia sido roubado.
Dos nove investigados, sete foram presos. Seis deles foram detidos durante a operação deflagrada pela Polícia Civil no dia 27 de agosto, enquanto Willian já estava preso. Samuel e Ana Júlia continuam foragidos.
Transferência de criptomoedas
Após a vítima ser levada para a região de mata, ela foi obrigada a realizar uma transferência de criptomoedas no valor de aproximadamente R$ 20 mil. O objetivo dos criminosos era conseguir até R$ 5 milhões, o que foi impedido após o pai da vítima conseguir rastrear seu celular e chamar a polícia.
"A Polícia Militar, juntamente com o NOTAER, começaram a circular a região. Foi o momento em que tivemos a identificação da Ana Júlia, que era a responsável por estar passando todas as informações para esses indivíduos. Com isso, os criminosos tentaram se esconder, a vítima conseguiu se desvencilhar e pulou de um barranco, conseguindo fugir desses criminosos", disse o delegado Gabriel.
A partir desse momento, entraram as participações de Samuel, Willian e Erlan. O Celta utilizado no crime estava em nome de Irlan, que, segundo a polícia, tentou criar uma versão falsa de que o veículo havia sido roubado.
"Porém, nós conseguimos, através do cerco eletrônico, de ferramentas de inteligência, nós conseguimos identificar toda essa trama. Nós conseguimos identificar para onde foi essa primeira transferência, que foi para o Adílson, chefe dessa organização criminosa, após isso ele pulverizou para Laís, que é a sua esposa, para o Enoque, Erlan e para o Osmar", explicou o delegado.
Rastreio da criptomoeda
Apesar da crença de que as criptomoedas não podem ser rastreadas, a investigação mostrou justamente o contrário. O titular da Delegacia Especializada de Segurança Patrimonial (DSP), delegado Gianno Trindade, explicou que as criptomoedas são rastreáveis e isso foi fundamental para que a polícia chegasse aos criminosos que receberam as quantias.
"Nesse caso especifico foi usado uma empresa de blockchain chamada Tron e, ao fazer essa transação, é gerado um código alfa numérico. Por esse código, e por meio de autorização judicial, é possível chegar no beneficiário, no dono daquela carteira que recebeu aqueles valores", disse delegado.
No caso, os criminosos obrigaram a vítima a transferir cerca de 3,7 mil USDT, uma criptomoeda conhecida como Tether e que tem seu valor atrelado ao dólar.
Cada transferência realizada na rede deixa um registro próprio, identificado por um código alfanumérico chamado hash. A partir desse registro e com autorização judicial para a quebra do sigilo financeiro, os investigadores conseguiram chegar à corretora utilizada na operação e identificar quem era o responsável pela carteira que recebeu os valores.
A partir do primeiro beneficiário, apontado como Adilson, a polícia acompanhou o caminho do dinheiro. Parte dos valores foi posteriormente distribuída para outras pessoas, entre elas Laís, esposa de Adilson, além de Enoque, Erlan e Osmar. Essa pulverização dos recursos, segundo o delegado Gianno Trindade, é conhecida como “smurfização” e costuma ser utilizada para dificultar o rastreamento do dinheiro.
Além da análise das transações, os policiais cruzaram as informações financeiras com dados de celulares, mensagens e localização dos envolvidos. Com isso, foi possível relacionar os beneficiários dos valores à execução do sequestro.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários