Morador do ES é acusado de liderar quadrilha de produção de armas impressas em 3D
Engenheiro foi preso em São Paulo e estudou na Ufes; entenda o caso
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Um morador da Serra foi preso nessa quinta-feira (12) durante a Operação Shadowgun, que teve como alvo uma quadrilha especializada na produção e venda de armas feitas em impressora 3D. Lucas Alexandre Flaneto de Queiroz, de 26 anos, era conhecido na internet como "Zé Carioca" e foi detido em São Paulo.
De acordo com informações do portal O Globo, Lucas nasceu em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, mas reside no Espírito Santo. Ele, que é apontado como líder tecnológico e ideológico da organização criminosa, já foi aprovado no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e cursou Engenharia Elétrica na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
Segundo a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro, que coordenou a operação dessa quinta, o engenheiro é o principal desenvolvedor da carabina Urutau — um modelo de arma projetado para ser fabricado com impressoras 3D utilizando componentes de fácil acesso e baixo custo que se tornou um dos mais conhecidos dentro da comunidade internacional.
"Em 2024, um indivíduo escondido pelo pseudônimo de Zé Carioca, desenvolveu uma nova carabina, que ele denominou de Urutau. Ela pode ser integralmente fabricada por uma impressora 3D, com conhecimento básico de engenharia metalúrgica", disse o delegado Marcos Buss, delegado da 32ª Delegacia de Polícia de Taquara, no Rio de Janeiro.
Ainda de acordo com a denúncia, o modelo foi planejado para ser ainda mais simples que outros projetos semelhantes, podendo ser fabricado com equipamentos e materiais baratos e disponíveis no mercado comum.
De acordo com informações do Ministério Público carioca, cada impressão tem custo aproximado de R$ 800. O manual chegou a ser distribuído pelo Estado Islâmico e armas similares já foram apreendidas na Austrália e Nova Zelândia.
"No Brasil, um exemplar foi apreendido em São Gonçalo, no ano passado, com um criminoso ligado ao Comando Vermelho. A investigação apurou vendas realizadas dentro do território nacional, tendo a competência fixada no Rio de Janeiro, estado com o maior número de compradores identificados", informou o órgão.
Lucas Alexandre e outros denunciados pelo Ministério Público do Rio de Janeiro responderão na Justiça pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e comércio ilegal de arma de fogo.
Entenda o caso
Uma operação realizada no Espírito Santo e outros 10 estados teve como alvo, na manhã de quinta-feira (12), uma rede de desenvolvimento, produção e comercialização de armas e acessórios fabricados por meio de impressão 3D.
De acordo com informações do Ministério da Justiça e Segurança Pública, foram cumpridos 36 mandados de busca e apreensão e cinco mandados de prisão, tendo como alvo 30 suspeitos em endereços ligados a vendedores e compradores desses armamentos.
"As apurações identificaram uma rede estruturada que utilizava a internet para desenvolver, divulgar e comercializar projetos digitais de armamentos produzidos por impressão 3D, além de acessórios de alto poder destrutivo, como carregadores de grande capacidade. Esse tipo de armamento, por não possuir numeração de série e poder ser produzido com equipamentos acessíveis no mercado, é frequentemente classificado como 'arma fantasma', o que dificulta sua rastreabilidade e representa risco relevante à segurança pública", explicou a pasta.
No Espírito Santo, um mandado de busca e apreensão foi cumprido pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, do Ministério Público capixaba, na Serra.
Durante a ação, agentes localizaram uma impressora 3D e também apreenderam materiais relacionados à fabricação de armas, um carregador de pistola calibre 9 milímetros e cartões vinculados à empresa do investigado no Estado.
Segundo a corporação, o material arrecadado será encaminhado ao Ministério Público do Rio de Janeiro para análise e continuidade das apurações. Outros mandados também foram cumpridos nos estados da Bahia, Goiás, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Roraima, Santa Catarina e São Paulo.
Como funcionava o esquema
Investigações apontam que integrantes do esquema criminoso compartilhavam arquivos digitais, manuais de montagem e orientações para produção clandestina em plataformas online — permitindo que terceiros reproduzissem o armamento de forma ilegal.
A organização também utilizava sistemas de pagamento digitais de forma anônima, incluindo criptomoedas, com o objetivo de dificultar o rastreio das transações financeiras. Ainda segundo as diligências, os recursos eram empregados na aquisição de equipamentos, na manutenção da infraestrutura digital e no financiamento das atividades do grupo.
"Apesar de se apresentarem publicamente como defensores de projetos de “código aberto”, integrantes da organização também produziam e comercializavam fisicamente componentes de armamento fabricados por impressão 3D. Os produtos eram anunciados em plataformas de comércio eletrônico e enviados pelos correios para compradores em diferentes estados", informou o ministério.
Cruzamento de dados indicam, ainda, que parte dos destinatários possuía antecedentes criminais, incluindo possíveis ligações com milícias e organizações ligadas ao tráfico de drogas.
Denúncia
Com base nas evidências reunidas, o Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou os integrantes do grupo pelos crimes de organização criminosa, comércio ilegal de armas de fogo e lavagem de capitais. Na denúncia, o órgão solicita a condenação solidária dos acusados ao pagamento de R$ 2,3 milhões por danos morais coletivos, em razão da "grave ameaça à segurança pública decorrente da produção e disseminação de armamentos ilegais de difícil rastreamento".
As medidas judiciais cumpridas nessa quinta incluem prisões preventivas, buscas e apreensões e outras providências cautelares destinadas a interromper a produção e a circulação clandestina desse tipo de armamento.
O secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro, Felipe Curi, e o delegado Marcos Buss ressaltaram que a operação pode gerar novos desdobramentos a partir do material apreendido durante o cumprimento dos mandados.
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