Motorista de app escapa de carro em chamas após ser sentenciado à morte
Homem de 30 anos foi torturado e trancado no porta-malas; em meio ao fogo, ele resgatou a lembrança do chá de bebê da filha dele
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Com informações de Luciana Queiroz
O cheiro de combustível misturado ao couro queimado ainda parece sufocar Rafael, cujo sobrenome será preservado. Aos 30 anos, o motorista por aplicativo não carrega apenas as bolhas e os curativos que cobrem seus braços, rosto e peito; ele carrega a memória nítida do momento em que o metal do porta-malas de seu próprio carro se transformou em uma câmara de execução.
Na madrugada da última quinta-feira (16), o que seria apenas mais uma jornada de trabalho para garantir o sustento de uma bebê de dois meses tornou-se um dos episódios mais brutais da recente onda de violência que atinge a categoria em Pernambuco.
O início do pesadelo: do Curado ao medo
Tudo começou com uma chamada comum no bairro do Curado I, em Jaboatão dos Guararapes. Rafael seguia para o Terminal Integrado de Passageiros (TIP) para buscar um cliente. No entanto, sob a sombra fria do viaduto, o destino foi interceptado. Dois homens, encapuzados e armados com revólveres, surgiram do nada. Um ocupou o banco da frente; o outro, o de trás.
Ali, a liberdade de Rafael foi a primeira coisa a ser roubada. "Eu pensei em correr, mas pensei na minha filha de dois meses", relatou ele, com a voz interrompida vez por outra e uma respiração curta - sinal do trauma que ainda reverbera em seus pulmões. Ele cooperou. Entregou o celular, cancelou a viagem na plataforma e desligou o aparelho sob ordem dos criminosos. Mas a cooperação não foi suficiente para aplacar a agressividade da dupla.
Ao vasculharem o veículo, os bandidos encontraram a carteira do motorista. Nela, havia R$ 500. Era o dinheiro suado, guardado nota sobre nota, para pagar a parcela do carro que ele havia adquirido há apenas 11 meses. A descoberta do valor, que Rafael inicialmente negou ter, serviu de gatilho para a primeira sessão de espancamento. Coronhadas de revólver e bofetadas estalaram dentro do habitáculo.
"Atrasando o corre": o plano de morte
Os criminosos não queriam apenas o dinheiro. Eles tinham um objetivo mais sombrio: usar Rafael e seu veículo como escudo e transporte para um assassinato em São Lourenço da Mata. "Eles disseram que iam matar um cara em São Lourenço e iam tocar fogo na casa dele", contou o motorista.
Contudo, a mecânica e a física impuseram um obstáculo ao crime planejado. Próximo à Arena de Pernambuco, o carro apresentou sinais de pane seca. Rafael avisou que precisava abastecer, mas os bandidos, cegos pela desconfiança e pela adrenalina, acreditaram tratar-se de um truque, um "botão de segurança" acionado pela vítima.
Quando o motor finalmente silenciou na BR-408 por falta de combustível, a sentença foi proferida: Rafael estava "atrasando o corre" deles. E, por isso, teria seu próprio "corre" atrasado definitivamente.
O inferno no porta-malas
Sob a mira das armas e sob o peso de novos golpes, Rafael foi obrigado a ir para o banco de trás e, em seguida, para o porta-malas. "Eu perguntei se ia morrer ali mesmo, eles disseram que sim". Trancado no compartimento escuro, ele ouviu o som do líquido sendo despejado. Não havia galões visíveis; os criminosos carregavam o combustível dentro de mochilas, um detalhe que revela o planejamento para o incêndio.
"Eu só senti o cheiro forte de combustível. Quando levantei a cabeça para ver, só foi o fogo. Fogo na minha cara, fogo pegando tudo". O calor era insuportável. O plástico derretia e pingava sobre sua pele. O oxigênio desaparecia. Foi nesse átimo de segundo entre a vida e a morte que o instinto de pai falou mais alto que o medo.
Rafael conseguiu forçar a passagem para o banco traseiro. Em meio às chamas que já consumiam o painel, ele viu um pequeno objeto: a lembrancinha do chá de fraldas de sua filha. Com as mãos queimadas, ele agarrou um dos símbolos do nascimento da sua criança. Era o seu elo com o mundo dos vivos.
Saltou pela janela traseira – que ele acredita ter sido deixada aberta pelos bandidos apenas para que o oxigênio alimentasse as chamas – e caiu de joelhos no asfalto. Segundos depois, o veículo explodiu.
“Quando eu saí pela janela, que eu caí de joelho no chão, quando eu me levantei, o veículo explodiu na minha cara. Fui arremessado para dentro dos mato. Levantei zonzo, a camisa pegando fogo, o ouvido estava apitando. Aonde eu comecei a correr na BR, eu só pensava em correr, correr, correr.”
O resgate e a nova data de nascimento
Rafael correu pela rodovia. Todo queimado, com o ouvido apitando pela explosão, ele tentou parar carros na rodovia. Ninguém parava. O medo do outro, tão comum em tempos de violência, quase o deixou morrer à beira da estrada.
A salvação veio na forma de uma viatura que passou, hesitou, deu ré e o acolheu. No Hospital Maternidade de São Lourenço da Mata, o encontro com a família foi o seu verdadeiro renascimento.
Sua mãe, que o esperava em casa com a neta no colo, descreveu o horror de receber a notícia. "Dói saber que podia ser pior. Saber que ele podia estar sem vida aí, estar pior do que esse carro. Eu me desesperei, a esposa também. Eu clamei muito a Deus para descansar meu coração. Só descansei quando ele chegou. Não chegou da maneira que eu queria, todo queimado, mas estava ali", desabafou ela, emocionada.
Para a esposa, que segurava a mão de Rafael na entrevista, a perda material é o de menos diante do herói que o marido se tornou. "Feliz em saber que eu escolhi a pessoa certa para ser o pai dela. Receber a notícia não foi fácil, foi desesperador. Mas saber que ele está vivo e bem... bens materiais a gente consegue de novo", disse ela, enquanto olhava para os curativos que agora marcam o corpo do companheiro.
A inércia do Estado e a dor do recomeço
Enquanto Rafael tenta lidar com as bolhas e a dor física, a categoria dos motoristas por aplicativo em Pernambuco clama por socorro. Este foi o segundo caso grave na mesma semana envolvendo profissionais de 30 anos. Anderson Câmara, presidente do sindicato da categoria, expressou profunda indignação com a postura do Governo de Pernambuco. Ainda nesta sexta-feira, ocorreu o velório e enterro de Djalma Alves da Silva Júnior, também de 30 anos.
Câmara revelou que existe uma tecnologia de segurança — um aplicativo que conecta o motorista diretamente à central da polícia em situações de risco, já utilizado com sucesso no Mato Grosso — mas que o estado de Pernambuco ainda não demonstrou interesse real em implementar. Somente este ano, quatro motoristas de app foram vítimas de latrocínio (média de 1 por mês) e um passou por tentativa.
"Já tivemos várias audiências públicas. O governo do estado ainda não se interessou. Se tivesse esse aplicativo, ele poderia ter acionado antes de o pessoal entrar, e a polícia já ia monitorar o carro", criticou.
Para Rafael, o futuro é uma incerteza enfaixada. O carro, comprado com sacrifício há menos de um ano, está reduzido a cinzas. O seguro pode levar até 90 dias úteis para processar a burocracia.
"Como é que eu vou trabalhar? Como vou sustentar minha filha de dois meses?", questionou, com a voz de quem ainda não acredita que sobreviveu. Ele já havia sido assaltado antes, em Boa Viagem. Daquela vez levaram o carro. Desta vez, tentaram levar a vida.
Mesmo com o corpo marcado pelo fogo e o trauma pulsando em cada respiro curto, Rafael diz que não tem dúvidas: o que o tirou daquela mala foi a força de um amor que nem as chamas puderam apagar. Ele agora guarda a lembrancinha do chá de fraldas não apenas como um souvenir, mas como símbolo do primeiro dia de sua segunda vida.
Quem quiser ajudar Rafael, o pix é: (81) 99667-7779
Veja a matéria completa de Luciana Queiroz n JT1, apresentado por Artur Tigre
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