INÉDITO: 649 professores, alunos e técnicos da UFPE foram vítimas da ditadura
Levantamento parcial da Comissão da Verdade detalha prisões, demissões e mortes de membros da universidade entre 1964 e 1985
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Pelo menos 649 professores, estudantes e técnicos vinculados à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) foram alvo de práticas autoritárias do regime militar. Os dados inéditos, que revelam desde o monitoramento de atividades consideradas "subversivas" até desligamento de cursos, demissões e mortes, foram apresentados nesta terça-feira (31) pela Comissão da Verdade, Memória e Reparação da instituição.
O relatório parcial é fruto de um trabalho de investigação iniciado em junho de 2025. (Veja a matéria completa no JT1 de Luciana Queiroz)
O rastro da violência estatal
O detalhamento dos resultados expõe - no dia que marcou os 62 anos do golpe - gravidade da repressão no campus. Do total de atingidos, 132 foram presos ou detidos e, pelo menos, seis estudantes foram mortos pela repressão.
O evento “A UFPE e o compromisso com as memórias”, realizado no Auditório Reitor João Alfredo, marcou a divulgação desses números e serviu para anunciar as próximas etapas da reconstrução histórica do período que compreende os anos de 1964 a 1985.
Audiovisual e o resgate da memória
Como parte do esforço de reparação, a universidade lançou uma série de vídeos de três minutos cada, recuperando a história dos alunos assassinados por agentes do Estado. O material foi produzido por estudantes da disciplina “Jornalismo, Memória e Verdade” e será exibido como interprogramas na TVU a partir das 18h deste dia 31. Além disso, 18 trabalhos escritos, entre reportagens e entrevistas, foram disponibilizados no site da Comissão sob orientação das professoras Paula Reis e Yvana Fechine.
Exposições e a luta de classes
O evento também contou com a remontagem das exposições “Lutas de Classes sob a ditadura de 1964-1985” e “Tecendo memórias e lutas”, sob responsabilidade dos professores Soraia de Carvalho e José Marcelo Ferreira Filho. As mostras focam na memória de Soledad Barrett e do Padre Henrique, figuras centrais da resistência em Pernambuco que foram assassinadas por motivos políticos. A importância do direito à memória foi o tema central da palestra da professora Ana Paula Brito, integrante da Comissão.
Metodologia e protagonismo estudantil
Uma particularidade do trabalho da Comissão é o envolvimento direto de estudantes bolsistas e voluntários na sistematização dos dados, acompanhados pela servidora técnico-administrativa Roberta Lira. Atualmente, o esforço de pesquisa segue integrado à disciplina “Prática de pesquisa histórica”. Todo o processo conta com a supervisão de professores especialistas e membros da Comissão Estadual da Verdade.
O simbolismo do Auditório João Alfredo
A cerimônia ocorreu no Auditório Reitor João Alfredo, local que carrega um simbolismo histórico. João Alfredo Costa Lima, reitor da então Universidade do Recife na eclosão do golpe de 1964, foi uma vítima da repressão. Acusado de abrigar "comunistas" e sob forte pressão dos militares, o intelectual acabou renunciando ao cargo poucos meses após a instauração do regime autoritário no Brasil.
Mesa de peso
Participarão da mesa de abertura o reitor Alfredo Gomes, o vice-reitor Moacyr Araújo, o presidente da Comissão da Verdade, professor Bruno Kawai (Departamento de História), a professora Socorro Ferraz (representante da Comissão da Verdade Estadual), a professora Márcia Ângela da Silva Aguiar (presidente da Fundação Joaquim Nabuco).
Também estiveram no local o escritor Sidney Rocha (diretor do Arquivo Público do Estado de Pernambuco) e a ativista Amparo Araújo (representante da Comissão Nacional de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos).
Ainda entre os presentes, estiveram familiares, representantes ou os próprios professores, estudantes ou técnicos que sofreram algum tipo de violência política no período investigado, como o advogado Marcelo Santa Cruz, que foi expulso do curso de Direito da UFPE e hoje volta à Universidade como integrante da Comissão.
Veja a matéria de Luciana Queiroz exibida na TV Tribuna PE/Band
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