Rachadinha na Alepe: ex-deputado é alvo de esquema de até R$ 6 milhões
Esquema também envolvia outro líder político, que já havia sido deputado e dava suporte ao gabinete dos desvios
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Um ex-deputado estadual é apontado como peça central de um esquema que pode ter desviado entre R$ 2,8 milhões e R$ 6 milhões da Assembleia Legislativa de Pernambuco, por meio de um sistema de “rachadinha” com funcionários-fantasmas. A informação foi detalhada nesta quarta-feira (15), durante coletiva da Polícia Civil, que deflagrou a Operação Draft. Nas buscas, foram encontradas até barras de prata e moeda estrangeira em uma imóvel com porta blindada.
Segundo o delegado Juliano Ferronato, as investigações, conduzidas pela 1ª Delegacia de Combate ao Crime Organizado, também apontam a participação de um segundo ex-deputado estadual no esquema, embora a atuação principal esteja concentrada em um único gabinete. Os mandados foram cumpridos no Recife, em Jaboatão e em Olinda.
“A investigação aponta que […] o esquema era operado em um gabinete de deputado estadual específico. Agora, um dos integrantes desse esquema já havia sido também deputado estadual em momento anterior”, afirmou o delegado.
Ao todo, a operação teve oito alvos de mandados de busca e apreensão. Todos, segundo a polícia, são ou foram agentes públicos ligados ao grupo investigado.
Questionado sobre eventuais prisões, o delegado não detalhou se houve detidos durante a operação. O principal foco da operação deixou de ser deputado em 2024. A Polícia Civil não divulgou os nomes dos ex-deputados investigados.
Esquema de rachadinha dentro de gabinete da Alepe
De acordo com a Polícia Civil, o esquema funcionava com a nomeação de assessores que não exerciam qualquer atividade, mas eram obrigados a devolver quase todo o salário.
“Os fatos apurados são peculato desvio, em que pessoas, assessores, são nomeados formalmente, mas sem a contraprestação de trabalho, devendo repassar quase a totalidade do salário para o esquema”, explicou o delegado.
Os salários variavam entre R$ 6 mil e R$ 18 mil. Na prática, os servidores ficavam com uma quantia simbólica.
“Sendo acordado com cada funcionário, ele deveria ficar com R$ 300, passando a totalidade do salário para o esquema”, disse.
Funcionários fantasmas também são investigados
Os próprios assessores nomeados ilegalmente também devem responder criminalmente.
“Penalmente, os funcionários fantasmas respondem também pelo crime de peculato de desvio, porque anuíram o esquema e, de certa forma, se beneficiaram com valores que ingressavam nas contas”, afirmou Ferronato.
Estrutura criminosa com divisão de tarefas
A investigação identificou que o esquema não era pontual, mas estruturado como uma organização criminosa.
O grupo era composto por oito integrantes, divididos entre núcleo político, operadores financeiros e executores responsáveis pela arrecadação dos valores.
“Conseguiu-se verificar que o núcleo […] era composto por oito membros, tendo dois líderes políticos, operadores financeiros e operadores materiais do esquema”, detalhou o delegado.
Operador financeiro movimentou até R$ 2 milhões
Um dos personagens centrais da engrenagem era um operador financeiro, responsável por conectar o núcleo político aos demais envolvidos.
“No decorrer do período investigativo, movimentou valores extremamente relevantes, em torno de R$ 200 mil reais a R$ 2 milhões de reais”, afirmou.
Segundo a polícia, ele atuava na escolha dos envolvidos, intermediação e cobrança dos repasses.“Escolhia as pessoas, cobrava, por vezes exigia”, disse o delegado.
A evolução do crime
A investigação também aponta uma mudança no comportamento do grupo ao longo do tempo.
Inicialmente, os repasses eram combinados. Depois, passaram a ser exigidos — o que caracteriza outro crime.
“Não só o peculato desvio foi apurado, também a concussão, quando já não há mais uma solicitação, uma exigência de devolução desses valores”, explicou Ferronato.
Dinheiro em espécie e lavagem para ocultação
A maior parte do dinheiro era sacada em espécie e entregue diretamente aos operadores.
“Na maior parte dos casos, o próprio assessor fantasma sacava o dinheiro em espécie e repassava a totalidade do valor”, disse.
Para dificultar o rastreamento, o grupo também utilizava transferências para contas de terceiros.
“Pulverizando em contas de terceiros para dificultar a própria rastreabilidade do dinheiro”, afirmou.
Segundo a polícia, há indícios de lavagem de dinheiro com uso de laranjas e movimentações fracionadas.
Apreensão de dinheiro, moedas estrangeiras e barras de prata
Durante a operação, foram apreendidos celulares, documentos, dinheiro em moeda estrangeira e três barras de prata. O valor em moedas estrangeiras gira entre R$ 110 mil e R$ 120 mil.
Em um dos imóveis, na Zona Sul do Recife, a polícia encontrou resistência para entrar. “Havia uma porta blindada na residência, o que dificultou ainda mais a entrada da equipe”, relatou o delegado.
Segundo ele, foi necessário romper a barreira após recusa do investigado em abrir o local.
Investigação começou com compartilhamento de dados
A apuração teve início em 2023, a partir do compartilhamento de informações entre órgãos policiais.
“A partir daí, a DECOR instaurou o inquérito policial, com base nesses dados compartilhados”, explicou. As investigações analisam fatos ocorridos entre 2015 e 2019.
Outro deputado citado, mas sem detalhamento
Embora a polícia confirme a existência de dois líderes políticos no esquema, os detalhes sobre a participação do segundo ex-deputado ainda são limitados. O delegado deu a entender que um dos líderes já não era mais deputado, mas dava suporte ao mandato do investigado.
Até o momento, a investigação indica que o funcionamento do esquema estava concentrado em um único gabinete, mas com ramificações políticas.
Próximos passos
O material apreendido será analisado para aprofundar as investigações.A Polícia Civil apura os crimes de peculato-desvio, concussão, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
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