Médico foragido: Justiça decreta prisão por morte em harmonização no Recife
Marcelo Alves Vasconcelos não tinha CRM na época do crime; vítima pagou R$ 21 mil e morreu após ter "plástico" injetado no corpo
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Com informações de Carlos Simões
O brilho das redes sociais esconde um rastro de impunidade e luto. Marcelo Alves Vasconcelos é, oficialmente, um foragido da Justiça. Com prisão preventiva decretada desde o dia 27 de março para garantir a ordem pública, o homem que se apresenta como médico desapareceu após ser acusado pela morte da comerciante Adriana Soares Lima Laurentino, de 46 anos.
O crime, ocorrido em janeiro do ano passado em uma clínica particular no Recife, revela um cenário de exercício ilegal da medicina e lucro acima da vida. Marcelo já tinha sido indiciado por homicídio doloso em maio do ano passado, mas estava livre.
Lucro acima da tragédia
O que mais estarrece a família e as autoridades é o comportamento de Marcelo após o desfecho fatal. Segundo a advogada Cira Filizola, o acusado não apenas continuou atendendo, como intensificou sua estrutura de marketing no Instagram.
De acordo com a advogada, ele quase dobrou o número de seguidores — chegando a mais de 230 mil com um marketing agressivo — vendendo promessas de "corpo perfeito" enquanto o processo pela morte de Adriana corria em segredo de justiça. Para a magistrada que assinou a prisão, a liberdade de Marcelo representa um risco real, já que ele atuava em 11 estados da federação.
"Entre as razções da magistrada estão: a garantia da ordem pública e o risco à saúde pública que a soltura desse médico proporciona", diz.
"Plástico" nos tecidos: uma bomba-relógio
Adriana pagou 21 mil reais por uma harmonização glútea. O exame pericial confirmou que foi injetada uma quantidade absurda de PMMA, um plástico de grau 5 pela Anvisa, substância que "gruda" nos tecidos e não sai do corpo.
"Minha prima não teve nem a chance de ser socorrida. Ela morreu em poucas horas", desabafa Rita de Cássia, prima da vítima. O uso desse material para fins estéticos de grande volume é condenado por especialistas, agindo como um veneno que pode paralisar órgãos até anos após a aplicação.
Uma família desestruturada
Enquanto o "médico" ostentava resultados de "antes e depois" na internet (prática vedada pelo CRM), a realidade na casa de Adriana é de silêncio e dor. Ela era o esteio da família: cuidava da mãe acamada e de um filho, que agora, aos 18 anos, vive desolado. "Ele está dormindo de dia e acordado à noite, precisando de terapia. Quem vai devolver a vida da minha prima?", questiona Rita.
A caçada ao acusado
Na época do procedimento que resultou na morte de Adriana, Marcelo não possuía registro no Cremepe. A Polícia Civil informou que realiza o monitoramento contínuo e cruzamento de dados para localizar o paradeiro do acusado. O mandado de prisão é público e a família agora pede ajuda à população para compartilhar informações que levem à captura de Marcelo, evitando que novas vítimas sejam enganadas pelo marketing agressivo de um profissional sem licença.
A ilusão da agulha
O caso de Adriana Soares é um alerta sobre a perigosa "indústria da perfeição". Injetar um material definitivo e plástico no organismo não é apenas estética; é um risco de morte anunciado. Enquanto Marcelo Alves Vasconcelos permanecer foragido, a justiça segue incompleta e outras vidas permanecem na mira de um procedimento que não oferece retorno, apenas sequelas ou o vazio.
Saiba mais: o perigo por trás do PMMA
- O Polimetilmetacrilato (PMMA) é uma substância plástica definitiva (um tipo de acrílico) que não é absorvida pelo organismo. Embora tenha registro na Anvisa, seu uso é cercado de restrições severas.
- O "cimento" no corpo: diferente de preenchedores seguros (como o ácido hialurônico), o PMMA se infiltra nos tecidos e músculos. Se houver complicação, a remoção é quase impossível sem causar mutilações.
- Riscos a curto e longo prazo: pode causar necrose, cegueira, insuficiência renal e embolia pulmonar imediata. Também é uma "bomba-relógio": sequelas graves podem surgir até 10 anos após a aplicação.
- Uso proibido para estética: O Conselho Federal de Medicina (CFM) contraindica o uso de PMMA para aumento de volume em glúteos ou seios devido ao altíssimo risco de morte.
Checklist: como não cair em ciladas
- Antes de realizar qualquer procedimento injetável, o Tribuna Online PE recomenda:
- Consulte o CRM: verifique no site do Conselho Regional de Medicina se o profissional tem registro ativo.
- Exija o RQE: além de médico, ele precisa ser especialista (Dermatologia ou Cirurgia Plástica).
- Peça o rótulo: você tem direito de ver a embalagem, a validade e o número do lote do produto antes da aplicação.
- Desconfie de milagres: resultados rápidos com preços muito abaixo do mercado geralmente escondem o uso de substâncias perigosas.
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