Da Ilha de Deus ao Litoral Sul: 6 anos de Negralinda e 14 mil vidas impactadas
O Instituto consolidou um trabalho voltado principalmente para mulheres marisqueiras, pescadoras artesanais, quilombolas, artesãs e empreendedoras
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Ser referência no empoderamento feminino, no empreendedorismo e valorização da cultura do mangue no litoral de Pernambuco. Desde que foi fundado, há seis anos, esse tem sido o objetivo central do Instituto Negralinda, iniciativa criada na Ilha de Deus, Zona Sul do Recife. Hoje, o Instituto atua a partir de uma sede instalada no município de Tamandaré, no Litoral Sul de Pernambuco.
Nascido a partir da trajetória da chef e marisqueira Negralinda e do empreendedor social Edy Rocha, o Instituto chega a 2026 celebrando a marca de aproximadamente 14 mil pessoas impactadas por suas ações de formação, geração de renda e fortalecimento comunitário.
“Quando eu comecei lá na Ilha de Deus, eu só queria garantir o sustento da minha família e mostrar que a Gastronomia do Mangue tinha valor”, relembra Negralinda, presidente do Instituto. “Hoje, ver 4 mil mulheres caminhando com mais autonomia, ocupando espaços na cozinha profissional, no turismo e no artesanato, mostra que a mariscada que a gente faz aqui também tempera o futuro de muita gente”, completa Edy Rocha, fundador do INL.
Da cozinha ao negócio: qualificação profissional
Ao longo desses seis anos, o Instituto consolidou um trabalho voltado principalmente para mulheres marisqueiras, pescadoras artesanais, quilombolas, artesãs e empreendedoras periféricas, conectando qualificação profissional, identidade cultural e inclusão produtiva. A organização atua como uma instituição privada sem fins lucrativos, com sede em Pernambuco, e expandiu suas frentes da Ilha de Deus para diversos municípios, principalmente, do litoral sul do estado.
“O Instituto nasceu da cozinha, do mangue e da necessidade de dizer que as mulheres negras e periféricas não são apenas mão de obra, elas são protagonistas de seus próprios negócios” Negralinda, Chef e marisqueira
Já o diretor executivo, Edy Rocha, resume o propósito da instituição: “Nosso compromisso é transformar saber tradicional em oportunidade econômica, sem abrir mão do território, da memória e da dignidade dessas mulheres.”
Mudança direta na vida de 4 mil mulheres
Em seis anos, o Instituto Negralinda já contribuiu diretamente para mudar a trajetória de vida de 4 mil mulheres, com cursos, oficinas e programas continuados de acompanhamento, e impactou cerca de 10 mil pessoas de forma indireta, entre famílias, redes comunitárias e cadeias produtivas do turismo e da gastronomia.
As formações incluem desde técnicas de Gastronomia do Mangue e beneficiamento de mariscos até finanças básicas, precificação e estratégias de venda para pequenos negócios.
“Cada certificado que a gente entrega representa muito mais do que horas de aula”, destaca Edy Rocha. “Representa uma mulher que passa a enxergar seu trabalho como negócio, sua cozinha como empresa e seu território como potência turística e cultural.”
Somente no início de março deste ano, mais 100 certificados foram entregues a participantes de cursos realizados em Sirinhaém e Tamandaré, reforçando o compromisso com a formação contínua no Litoral Sul. Essas mulheres se somam a milhares de outras que já passaram pelos programas do Instituto e hoje atuam como empreendedoras, fornecedoras de serviços turísticos, cozinheiras profissionais e articuladoras comunitárias.
Ôxe, Pernambuco tem Mariscada sim, senhor!
Uma das iniciativas mais emblemáticas do Instituto é a campanha “Ôxe, Pernambuco tem Mariscada sim, senhor!”, que reivindica o reconhecimento da mariscada como expressão da Gastronomia do Mangue e símbolo da cultura popular das comunidades pesqueiras. A ação dialoga com a luta de marisqueiras e cozinheiras tradicionais para valorizar o prato e sua cadeia produtiva, da coleta no mangue até a mesa do turista.
“Quando a gente diz ‘Ôxe, Pernambuco tem Mariscada sim, senhor!’, a gente está dizendo que o trabalho das marisqueiras não é invisível, é patrimônio vivo deste estado”, ressalta Negralinda. “Cada panela de mariscada que sai do fogão é uma história de resistência, de cuidado com o mangue e de orgulho da nossa identidade.”
Para além da gastronomia, a iniciativa também fortalece o turismo de base comunitária, atraindo visitantes interessados em experiências autênticas que conectam culinária, histórias de vida e preservação ambiental. “O turismo que nos interessa é aquele que deixa renda na comunidade, respeita o mangue e reconhece as mulheres como anfitriãs e donas de seus roteiros”, pontua Edy Rocha.
Novos cursos e expansão no Litoral Sul
Em 2026, o Instituto Negralinda dá mais um passo em sua expansão ao abrir 520 vagas em cursos gratuitos de qualificação profissional voltados ao fortalecimento do empreendedorismo feminino em cinco municípios do litoral pernambucano: Ipojuca, Sirinhaém, Rio Formoso, Tamandaré e São José da Coroa Grande. As formações abrangem Empreendedorismo Feminino, Gastronomia do Mangue, Pastelaria e Confeitaria, Artesanato Sustentável e Turismo de Base Comunitária, áreas diretamente ligadas à cultura do litoral, ao mangue e ao turismo.
A grande novidade deste ano são os cursos de Pastelaria e Confeitaria, com 40 horas por turma, estruturados como um guia completo para iniciantes e empreendedoras: do básico ao avançado, passando por modalidades, tendências, formação de preços, escolha de embalagens e estratégias para transformar a qualificação em renda real.
“As mulheres já fazem bolos, doces e salgados há muito tempo; o que estamos oferecendo agora é a ponte entre esse talento e um negócio sustentável, com cálculo de custos, identidade de marca e acesso a novos mercados”, explica Edy Rocha.
Parcerias visionárias
As inscrições são presenciais e realizadas por meio de instituições parceiras em cada município, como colônias de pescadores, secretarias municipais da Mulher, Desenvolvimento Econômico e Turismo, além da própria sede do Instituto em Tamandaré. As ações contam com apoio do Programa PE Produz, do Governo de Pernambuco via ADEPE, do Sebrae Pernambuco e das prefeituras dos municípios participantes, formando uma rede colaborativa de inclusão produtiva e protagonismo feminino.
“Quando uma marisqueira entra numa sala de aula para aprender sobre preço, embalagem e atendimento, ela não está apenas fazendo um curso, ela está reescrevendo a própria história”, sintetiza Negralinda. “É por isso que a gente comemora esses seis anos como se fosse um grande almoço de domingo: com a mesa cheia de mulheres, de mariscada e de futuro.”
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