O fim de uma era sem glória e a crise de identidade do nosso futebol
Rafael Araújo
Rafael Araújo é formado em jornalismo pela Uninassau Recife. Atua como repórter e colunista de esportes no portal Tribuna Online. É também produtor do Jogo Aberto Pernambuco da Tv Tribuna PE / Band.
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O sonho do hexa foi, mais uma vez, adiado. A Seleção Brasileira foi derrotada pela Noruega por 2 a 1, com dois gols marcados pelo Erling Haaland. O único tento do Brasil foi assinalado por Neymar, de pênalti, já nos acréscimos da partida.
Mais uma eliminação precoce da Canarinha em uma Copa do Mundo; porém, não se pode dizer que foi uma surpresa. Embora a torcida era de ver o Brasil na decisão e conquistando o título, não era novidade para ninguém que a equipe apresentou sérias deficiências durante todo o ciclo de preparação e elas continuaram evidentes até também na Copa. Um time que deixa espaços entre os setores, bate cabeça na defesa e perde chances claras na hora que precisa decidir. A frase "a bola pune" nunca foi tão real.
Perdemos a nossa essência com o tempo?
O futebol apresentado pelo Brasil nesta Copa revelou que ainda estamos distantes de ter uma identidade, algo que historicamente sempre nos sobressaiu. Não me conformo com o discurso de que o futebol mudou no mundo inteiro, que os estilos de jogo se modernizaram e que, por isso, fomos obrigados a abandonar o nosso jeito único, leve e alegre de jogar. Fica o questionamento : onde foi parar o futebol-arte do Brasil que sempre fez a diferença? Alguém saberia responder?
Incompetência na hora decisiva
Apontar um único culpado pela eliminação não é algo correto, especialmente no calor do momento pós-queda. No entanto, é inegável que, dentro de campo, o time deixou muito a desejar. Endrick perdeu uma chance clara de gol, daquelas que não se pode desperdiçar em um torneio desse nível. Bruno Guimarães fez uma cobrança de pênalti muito aquém do esperado e também viu sumir uma oportunidade de ouro. O Brasil até conseguiu criar chances ofensivas, mas demonstrou incompetência na hora de concluir. Para piorar, cedeu espaços para quem não se podia. Haaland recebeu os presentes e retribuiu com duas bolas na rede. O norueguês mostrou como se deve fazer. Agora é importante registrar que não podemos, enquanto imprensa, querer descontruir a imagem de qualquer atleta que for, simplesmente por razões de possiveis alinhamentos políticos. Querer colocar a tragédia de uma geração inteira no colo de Neymar, apesar de tudo que ele contribuiu para o futebol beira a covardia. Ele é o único atleta genial que temos e deve encerrar seu ciclo na Seleção Brasileira como um craque que deixa o sentimento de "poderia ter conquistado algo mais". Criticar o futebol é natural, mas se passar disso é querer se aproveitar para outros fins, que vão além do esporte.
"A derrota é dolorida, mas serve como um duro alerta de que estamos distantes daquele Brasil que já foi temido no passado."
A desorganização crônica nos bastidores
O grande problema do Brasil, contudo, vai muito além das quatro linhas. Ao longo de todo o ciclo de preparação após a saída de Tite, testemunhamos uma verdadeira ciranda de técnicos: Ramon Menezes, Fernando Diniz (que chegou ao absurdo de dividir o trabalho na Seleção com o Fluminense) e Dorival Júnior. Tudo isso antes da tão aguardada chegada de Carlo Ancelotti, que era o grande desejo da CBF.
Essa sucessão de remendos evidencia uma desorganização sem fim na entidade máxima do futebol brasileiro. Ancelotti tem contrato vigente e a pergunta que surge já é conhecida: ele vai seguir no comando para o projeto de 2030? Creio que deve seguir, até pelo fato do trabalho dele ser recente.
O fim de uma geração e o vazio de liderança
Por fim, a Seleção Brasileira volta para casa mais cedo. O choro de Neymar ao término do jogo simboliza o encerramento definitivo de uma geração inteira que passou pelo ciclo da Seleção sem conseguir conquistar uma Copa do Mundo. Dificilmente o camisa 10 estará presente na próxima edição do torneio. E se uma geração se encerra, outra já está em andamento. O que realmente preocupa ao olhar para o futuro é perceber que ainda não dispomos de nomes com plenas condições de se tornar ídolo, assumir o papel de líder, colocar a bola no chão e chamar a responsabilidade para si. A derrota é dolorida, mas serve como um duro alerta: ela nos avisa que estamos muito distantes de sermos aquele Brasil que já foi temido no passado. Resta-nos seguir acreditando e esperar por 2030, onde independente de qualquer coisa estaremos mais uma vez torcendo pelo tão almejado hexa.
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Na coluna Tribuna da Bola você encontrará muita informação e sempre com o olhar crítico do jornalista e cronista esportivo Rafael Araújo. O futebol é muito mais que bola na rede ou dois times em campo. Tem paixão, histórias marcantes, negociações milionárias e até mesmo política nos bastidores. E por ser tão amplo, o Tribuna da Bola não poderia ser diferente. Falamos de tudo que envolve esse esporte absurdamente apaixonante.