Uvas de volta ao berço: Itamaracá aprova Título de Cidadão para biólogo pioneiro
Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
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A Câmara Municipal da Ilha de Itamaracá aprovou a concessão do Título de Cidadão ao biólogo Alessandro Albertini nesta terça-feira (17). Ele resgatou uma história esquecida de vinícolas da ilha, embora eternizada no brasão do município, que tem escudo de prata, adornado por cachos de uvas, folhas e duas asas. Uma imagem que remete a 1534, durante a colonização portuguesa.
O projeto, de autoria da vereadora Silvana Celestino Pereira, a Duzinha (Agir), de 39 anos, homenageia o responsável por restabelecer o plantio de videiras na Ilha. Alessandro recuperou a uva Bastardo, variedade extinta em solo brasileiro há cerca de 500 anos. A entrega oficial do título deve ocorrer em maio, em sessão solene. Eis o motivo de Alessandro, novamente, ser tema da coluna Pernambuco que encanta.
O resgate de uma identidade cravada no brasão de Itamaracá
A iniciativa da vereadora Duzinha traz à tona a memória histórica e afetiva da ilha, ligada ao continente pela ponte Presidente Getúlio Vargas, por onde passam as águas do canal Santa Cruz. A homenagem de Duzinha resgata a identidade da Ilha, estampada em uma bandeira que já celebrava os frutos da terra muito antes de Alessandro chegar. Em 2019, o biólogo trocou a estabilidade pelo desafio de plantar videiras sob o sol de Itamaracá. E seu solo já produz uvas e vinho.
O biólogo, que também é mestre em bioquímica, doutor em ciências biológicas e com dois pós-doutorado na bagagem insistiu em erguer uma vinícola onde os termômetros chegam a bater 38 graus. Decidiu contrariar qualquer previsão técnica.Esse Título de Cidadão, portanto, é um brinde ao resgate das uvas trazidas pelos portugueses a Pernambuco no século 16 e apreciadas pelos holandeses no século 17.
Na bandeira de Itamaracá, o escudo é sustentado por uvas e folhas, como se o próprio chão da ilha quisesse acolher o símbolo e, agora, abraçar Alessandro. A coroa do brasão lembra que Itamaracá tornou-se Capitania Hereditária. É filha de reis e também destino de náufragos. Mas alça voo com suas duas asas para novos horizontes, enquanto uma estrela solitária brilha como um farol para quem chega de fora e para quem é da casa e ainda não viu.
Veja, também, os detalhes de como essa jornada começou: Vinho e maresia: Alessandro Albertini resgata uva extinta há 500 anos em Itamaracá
Do pós-doutorado ao segredo da Vinícola Albertini sob a terra
A homenagem de Duzinha reconhece o esforço do biólogo, que deixou para trás dois pós-doutorados quando decidiu mudar de vida e levar seus afetos e sonhos para a Ilha. Ele largou a academia para morar em Itamaracá e erguer a Vinícola Albertini — a Videira que Dança. De forma pioneira, trouxe de volta ao Brasil uma uva que não era plantada por aqui há cerca de 500 anos.
Alessandro já produz outros vinhos. Porém, a maior expectativa é o que está sendo maturado, feito com a uva Trousseau, também conhecida como Bastardo. Essa videira nasceu no frio das montanhas da França, perto da Suíça. Os portugueses a trouxeram para Pernambuco pela sua resistência, resultando em um vinho que volta a ser feito no estado de forma artesanal, sem agrotóxicos.
A safra da uva Bastardo já deixou o pé, enquanto novas uvas começaram a nascer. No entanto, este vinho de Alessandro Albertini permanece um segredo sob o chão da Ilha.
Alessandro decidiu maturar a bebida em ânforas, num buraco de 2 metros de profundidade e ainda enterrá-las - uma técnica milenar que protege o líquido do calor e alimenta a curiosidade de especialistas e moradores.
Alma goianense e o destino da vitivinicultura na Ilha
A história de Alessandro casa com o escudo da Ilha, no qual uma coroa se ergue, lembrando que Itamaracá nasceu em capitania, mas caminha livre desde sua emancipação, em 1º de janeiro de 1954. Com o Título de Cidadão, a Ilha reconhece no bilóglo o fôlego que precisava para estimular um reencontro com sua vocação econômica e histórica.
É tanta coincidência nessa trajetória de Alessandro que, antes de falecer, o seu tio-avô, Luiz Gomes Corrêa de Arruda, fez diversos diplomas para pessoas que receberam o Título de Cidadão de Itamaracá. E agora, o sobrinho-neto - que guarda no nome e no afeto a memória do querido parente - é o próprio homenageado.
Alessandro Albertini nasceu no Recife, mas aprendeu a ler em Goiana, na Mata Norte do estado. Fez lá seus melhores amigos e nunca mais voltou a viver na capital ou pertencer a outras cidades onde morou, como Olinda. Depois de Goiana, seu coração e sonhos pousaram em Itamaracá, onde queria ver o mar do alto e plantar suas videiras, que ficam a 800 metros do Atlântico, a menor distância entre uma videira e o mar no Brasil.
“Eu fiquei emocionado ao saber do título, e feliz! Antes minha frase era: 'coração recifense, alma goianense e apaixonado por Itamaracá'. Mas, desde 2019, eu sinto os três sentimentos no meu modo de vida de agricultor e produtor de vinho no berço da Vitivinicultura do Brasil: a Ilha de Itamaracá!”, afirmou. "Agora eu sou itamaracaense. Eu sou itamaracaense!", continuou, com orgulho de pertencer aquela terra.
O biólogo, também considerado por esta coluna como um alquimista, disse que vai apresentar uma sugestão para estimular pessoas da Ilha a cultivarem ao menos uma videira em seus jardins. “Se eu morrer, o projeto morre junto”, disse, mas sem querer apostar na ideia. Ele pensa na continuidade, no amanhã.
Reconhecimento e o futuro do turismo em Itamaracá
Para Duzinha, que está no primeiro mandato, “conceder este título é reconhecer quem está resgatando uma tradição que faz parte da nossa história e pode transformar o nosso futuro. O cultivo de videiras não é apenas agricultura, é cultura, geração de renda, incentivo ao turismo e fortalecimento da identidade de Itamaracá”, declarou.
A história, afinal, é como o vinho de Alessandro: precisa de tempo, de barro e de chão para amadurecer. Ao aprovar este Título de Cidadão, Itamaracá abraça o homem que não teve medo do calor nem de enfrentar o esquecimento. Alessandro não resgatou apenas a uva Bastardo; ele devolveu o sentido às uvas purpúreas que sempre estiveram na bandeira do “Reino Encantado”. O que era símbolo estático, agora é vida brotando da terra, sob o olhar atento do Atlântico.
Quer conhecer a Vinícola Albertini (a Videira que dança)?
Serviço:
Endereço: Avenida Assunção, 91, Forte de Orange (Ilha de Itamaracá)
O que é necessário: Hora marcada com antecedência
Valor: De 1 a 4 pessoas com direito a degustação (R$ 100 por cada)
Valor: Grupo de de 5 a 10 pessoas com direito a degustação (R$ 80 por cada)
Contatos: 81-99727-4383(Alessandro Albertini)
81-98116-2362 (Guia turística Danny)
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PÁGINA DO AUTORPernambuco que encanta
A coluna Pernambuco que encanta, do Tribuna Online PE, revela histórias inspiradoras dos municípios pernambucanos e seus moradores. Com olhar sensível, informativo e analítico, valoriza as riquezas humanas, econômicas e culturais do estado, mostrando quem transforma comunidades com criatividade, coragem e afeto.