Pernambuco bate recorde histórico de doadores de órgãos e celebra a vitória do sim
Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
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O relógio de uma Unidade de Terapia Intensiva não marca apenas horas; ele cronometra a tensão entre a despedida e o recomeço. Em Pernambuco, o mês de abril não trouxe apenas as chuvas sazonais, mas uma torrente de generosidade que redesenhou o mapa da vida no Estado. Pela primeira vez na história da Central de Transplantes (CT-PE), a morte não teve a última palavra em 27 ocasiões — o maior número de doadores de órgãos já registrado em um único mês.
Para José Gomes de Moura Filho, de 55 anos, essa estatística tem rosto e pulsação. Diagnosticado com cirrose hepática em 2023, ele viu o horizonte estreitar-se até que o "sim" de uma família desconhecida abrisse uma clareira na mata fechada da doença.
"Graças à vontade de uma família de abraçar essa causa, estou vivo. Eu fui salvo pelo amor", resume José, hoje um homem que caminha pelas ruas com o fígado de outrem batendo no ritmo de sua própria esperança. Ele é a prova de que o corpo humano, em sua finitude, pode ser solo fértil para o amanhã de quem fica.
A queda histórica da negativa familiar em Pernambuco
O dado mais contundente deste balanço reside naquilo que às vezes fica invisível. A taxa de negativa familiar — aquele instante doloroso em que o luto se fecha em si mesmo — caiu para 35%, o menor índice desde o início dos registros. É um movimento tectônico na cultura do nosso: a compreensão de que a dor da perda pode ser transmutada em alento para desconhecidos.
Essa mudança de comportamento reflete um Estado que aprendeu a confiar nas suas instituições de saúde. Cada doador pode salvar mais de uma pessoa. E aconteceu.
Em abril, essa confiança atravessou a ponte dos 69 procedimentos realizados: foram 23 rins que voltaram a filtrar sonhos, 24 fígados que restauraram metabolismos e 22 córneas que devolveram a luz a olhos cansados de esperar na penumbra das filas. Pernambuco alcançou a marca de 33,8 doações por milhão de população (PMP), um patamar que nos coloca em uma vitrine de eficiência e humanidade.
O papel estratégico de servidores públicos no recorde
Se os números impressionam, o cenário onde eles ganham corpo é o Hospital da Restauração (HR). A unidade, muitas vezes palco das batalhas mais rudes contra a finitude, tornou-se o principal celeiro de renascimentos em abril. Das doações registradas, 22 partiram dali, fruto de um trabalho minucioso das equipes de Doação e Transplante (eDOT) e da Organização de Procura de Órgãos (OPO).
André Bezerra, coordenador da Central de Transplantes, aponta que a reforma da emergência e o treinamento humanizado das equipes não são apenas melhorias burocráticas, mas ferramentas de acolhimento.
Quando uma família é recebida com dignidade no momento da tragédia, o "sim" floresce com mais facilidade. O investimento em pessoal transformou o HR em um porto seguro onde a morte encefálica é tratada com o rigor da ciência e a delicadeza necessária para abordar quem acaba de perder um mundo.
Como funciona a rede de procura de órgãos no estado
O sistema opera como uma orquestra invisível. Enquanto as OPOs coordenam o suporte regional, as eDOTs agem no cotidiano das unidades hospitalares, identificando potenciais doadores e conduzindo a entrevista familiar. É um trabalho de ourivesaria emocional. O treinamento intensificado no início deste ano afinou esses instrumentos, otimizando a comunicação entre quem identifica o doador e quem realiza a cirurgia.
Lucas Stterphann, coordenador da Rede de Procura de Órgãos, observa que o destaque nacional de Pernambuco, especialmente nos transplantes renais, é consequência direta dessa agilidade. Cada minuto ganho na notificação de uma morte encefálica é uma vida salva na outra ponta da fila. O recorde de abril não é apenas um número em um gráfico de Excel; é o som de dezenas de corações que continuam a bater porque famílias de Pernambuco decidiram que, por aqui, a solidariedade é uma lei não escrita.
Neste "Pernambuco que Encanta", a maior riqueza não está apenas no que construímos em pedra e cal, mas no que somos capazes de doar de nós mesmos. O recorde é um marco, mas o "obrigado" de José Gomes é o que realmente dá sentido à jornada.
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PÁGINA DO AUTORPernambuco que encanta
A coluna Pernambuco que encanta, do Tribuna Online PE, revela histórias inspiradoras dos municípios pernambucanos e seus moradores. Com olhar sensível, informativo e analítico, valoriza as riquezas humanas, econômicas e culturais do estado, mostrando quem transforma comunidades com criatividade, coragem e afeto.