Lewis Walker: o recifense que mantém vivo o legado de Michael Jackson
Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
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O som do impacto da sola de borracha contra o chão do palco não é ouvido pelo público. O ruído desaparece sob os gritos de centenas de pessoas que, entre a fumaça cenográfica e as luzes estroboscópicas, enxergam uma silhueta mítica. Chapéu de feltro preto inclinado sobre os olhos, jaqueta repleta de fechos metálicos, uma única luva branca que reluz a cada movimento de pinça dos dedos.
Do palco do teatro Amália Rodrigues, dentro do complexo do Enotel, em Porto de Galinhas, Lewis Walker, 42 anos, salta de uma altura que quase atinge os seus ombros. Um voo cego de quase dois metros que termina em base firme.
Ninguém ali vê o cálculo milimétrico nas articulações, aterrissagem precisa que o corpo aprendeu nas pistas de atletismo do Recife, entre prova de longa distância e de velocidade até os 19 anos de idade. Quem está na plateia vê apenas a gravidade ser revogada pelo magnetismo de Michael Jackson. Ali também, o artista vive!
“Nem sempre eu faço isso, porque o impacto é muito grande. Mas eu acho que o atletismo que eu fazia na época ajudou o meu físico hoje a ter essa força, essa agilidade, essa firmeza para aguentar esses impactos. Naquela energia, naquela emoção, eu esqueço tudo. Eu pulo com todo cuidado, lógico, sabendo o que estou fazendo, mas ao mesmo tempo aquilo ali é um impulso que vem de dentro. É a troca de energia com o público.” Lewis Walker,
O Rei do Pop de Pernambuco
O homem por trás da silhueta se chama Luiz Antônio Nascimento Júnior. Nascido na capital pernambucana em 7 de novembro de 1983, o menino que cresceu no bairro de Santo Amaro, zona central do Recife, hoje atende pelo nome artístico que resume sua devoção técnica: Lewis Walker. O sobrenome é uma apropriação direta dos moonwalkers, a comunidade global de seguidores que mantém vivo o legado do maior ícone da cultura pop mundial.
Há 24 anos, Luiz Antônio divide a existência com a precisão cirúrgica dos passos de Michael. Em uma época em que o mercado audiovisual celebra o resgate estético dos anos 1980 e 1990 — impulsionado por cinebiografias que arrastam milhões de espectadores aos cinemas brasileiros —, o artista pernambucano consolida-se como o cover mais solicitado e de maior relevância técnica no Estado. O trabalho, que começou de forma despretensiosa dentro de casa, hoje também cruza fronteiras em apresentações interestaduais, com passagens por palcos de Goiânia (GO) e pelo reduto do rock no Galpão 17, em Brasília.
O espelho de Rosângela e o talco na cerâmica
A trajetória de Lewis Walker não foi desenhada por acaso, mas pela insistência visual de uma mulher. Sua prima, Rosângela Ramos de Barro Belo, hoje com 43 anos, liderava um grupo de dança do ventre na comunidade. Entre os tecidos e os ritmos orientais, ela observava o primo de 19 anos imitar os movimentos do Rei do Pop na sala de casa, de forma quase intuitiva.
A música que operava como trilha sonora daquela obsessão era "Black or White", faixa lançada em 1991 no álbum Dangerous. Antes de ter acesso aos primeiros aparelhos de videocassete ou às transmissões de televisão, o jovem Luiz conhecia Michael apenas pelas frequências de rádio. Imaginava os movimentos antes de vê-los. Quando finalmente assistiu à antológica apresentação de "Billie Jean" no especial de 25 anos da gravadora Motown, os olhos brilharam.
“Criança imagina um monte de coisas. Como é que ele faz isso? Como é que ele faz esse passo para trás? Tem rodinhas no sapato? Eu fiquei bem chocado. Minha prima ficava me observando e disse para mim: ‘Por que você não faz imitação desse cara? Tu parece com ele’. Eu disse: ‘Tu tá louca, bicho?’. Ela disse: ‘Prima, tu parece. Teu sorriso é igual’. Ela insistiu tanto que eu terminei cedendo.” Lewis Walker,
A decisão de manter-se na estrada da dança, que anos mais tarde se sobrepôs ao curso de edificações e ao horizonte da engenharia civil, deu início a uma rotina de treinamentos. No início da década de 2000, Luiz Antônio passou a "treinar Michael Jackson 24 horas por dia". Eram noites inteiras passadas em claro diante do espelho para decifrar os três-jeitos, o arco das sobrancelhas, a contração muscular da face e o tempo exato de cada passada.
A engenharia que ficou em segundo plano terminou sendo aplicada de forma empírica nos palcos. Diante da dificuldade de encontrar sapatos de sola de couro legítimo no mercado local — item essencial para a fluidez do Moonwalk —, Lewis desenvolveu uma técnica própria de adaptação para pisos de mais alta aderência ou cerâmicas ásperas. Antes de entrar em cena, sua equipe joga uma fina camada de talco no bastidor. O artista pisa, realiza uma breve sequência de movimentos sobre o pó e ganha a aderência perfeita.
“O sapato influencia muito. O sapato não faz milagre, ele dá facilidade ao movimento. Quando o sapato não desliza em determinados pisos, a minha assistente joga um talco, eu piso em cima e o sapato começa a deslizar com fluidez, como se fosse um gelo escorregando na cerâmica. Isso foi uma coisa que eu inventei. Porque quando o sapato não desliza, você força mais, gasta mais energia e a dança fica travada.”
Os quinhentos metros de Santo Amaro
O batismo oficial de fogo ocorreu no Carnaval do ano 2000. Vestindo a indumentária mais simples do repertório — o terno escuro de lantejoulas de "Billie Jean", meias brancas e sapato preto —, Lewis Walker subiu ao palco montado pela prefeitura do Recife na estrutura dos polos da época. O público que lotava o setor reagiu de forma imediata à presença do rapaz que havia raspado o bigode fino para mimetizar os traços do ídolo vivo.
Ao descer as escadas do palco após o término da apresentação, a euforia coletiva quebrou as barreiras do isolamento de segurança. Uma multidão de crianças e adultos avançou sobre o performer na tentativa de tocar o ídolo, conferir o figurino, ver quem era de verdade. Parecia uma ilusão, porque ali, estava o próprio Michel e sua glória.
Sem carro de apoio ou escolta, o jovem precisou acionar a velocidade dos tempos de pista de atletismo. Conta, sorrindo, que precisou correr exatamente quinhentos metros, paramentado, entre as ruas do bairro até atingir o trinco da porta de casa. Na calçada, vizinhos riam da cena que parecia decalcada dos documentários de perseguição do próprio astro norte-americano.
A aceitação popular abriu as portas dos programas de auditório das emissoras de televisão locais e o levou ao primeiro lugar do tradicional concurso de covers promovido no clube da Associação dos Beneficiários da Previdência Social (APSE), coordenado pelo diretor artístico Cláudio Melo.
O prêmio em dinheiro deu o impulso necessário para a aquisição de novos tecidos e adereços, comprados inicialmente com o apoio financeiro da avó materna, Maria José de Santana, conhecida como Dona Dadá, e com o suporte logístico da mãe, Maria Jerusa de Santana, hoje com 58 anos.
A conexão profunda com a dor do personagem que interpreta tornou-se evidente anos mais tarde. Em 25 de junho de 2009, com a notícia da morte de Michael Jackson, Lewis Walker permaneceu de cama, impossibilitado de levantar pelo impacto emocional da perda do ídolo. Uma semana após o sepultamento do astro, depois da notícia de que Lewis não saia da cama e não ia mais vestir o personagem, um vereador da cidade e lideranças comunitárias montaram um palco na localidade e fizeram plantão na residência do artista.
Ele, que tinha passado uma semana de luto, subiu ao palco chorando, sob o peso de consolar a própria comunidade através da dança.
O olhar na altura dos olhos
No cenário atual do entretenimento, onde o profissionalismo exige mais do que o talento individual, o espetáculo comandado por Lewis Walker funciona como uma engrenagem empresarial. Acompanhado por uma equipe fixa de quatro dançarinos — Luan Vinícius de Lima Gonçalves, Rafael Costa de Paiva, Wanderson Sanlyn da Silva e Brayan Luna dos Santos — e coordenado pelas produtoras Marília Moura da Costa e Priscilla Felix da Silva, o grupo entrega um produto cultural lapidado para o mercado corporativo. Lewis participa de eventos que vão feiras de cultura pop como o PowerKon, idealizado por Kelmer Luciano, ao circuito hoteleiro de alta rotatividade de Pernambuco.
Nas comemorações do Orgulho Nerd, a coluna Pernambuco que encanta presenciou a entrega artística do homem que repete os passos mais difíceis da dança de Michel: o moonwalker. Ele preserva uma característica que o diferencia no mercado: quebra uma parede invisível para atingir o público que assiste ao show na primeira fila. O performer direciona uma atenção especial a crianças, idosos e pessoas neurodivergentes e autistas, descendo do palco para realizar o contato visual direto e distribuir os tradicionais acenos e expressões de afeto que marcaram as turnês mundiais do Rei do Pop. É o magnetismo que desarma o ceticismo da plateia e transforma a experiência em um espetáculo de entretenimento puro. Um encanto!
““A arte não é minha, é de Michael Jackson. Mas eu represento a arte dele. Eu me preocupo muito em dar atenção às crianças, aos adultos e aos idosos. Cada um tem o seu momento Michael Jackson, tem a sua fase. Os velhinhos pegaram a fase de Jackson 5, de Bad, de History. As crianças de hoje conhecem através dos pais e se apaixonaram pelo artista. Minha obrigação e carinho é representar o artista ao pé da letra.” Lewis Walker,
Ao final de cada apresentação, quando os refletores são desligados e a maquiagem começa a ceder, Luiz Antônio Nascimento Júnior retorna. Mas a fronteira entre o homem e o mito é quase invisível. Mesmo com o fim do espetáculo, quando os adereços voltam para a mala, os amigos, vizinhos e conhecidos continuam chamando o recifense pelo nome de Lewis. Ele vive o Rei do Pop no compasso do dia a dia em Pernambuco. O dançarino intrépido permanece no camarim até atender o último fã, consciente de que a magia de Michael Jackson só continua viva porque ele também escolheu nunca parar de dançar.
Serviço:
Lewis Walker - o melhor cover de Michel Jackson de Pernambuco
Contato: Marília: (81) 99164-0138
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PÁGINA DO AUTORPernambuco que encanta
A coluna Pernambuco que encanta, do Tribuna Online PE, revela histórias inspiradoras dos municípios pernambucanos e seus moradores. Com olhar sensível, informativo e analítico, valoriza as riquezas humanas, econômicas e culturais do estado, mostrando quem transforma comunidades com criatividade, coragem e afeto.