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PERNAMBUCO QUE ENCANTA

Família chinesa acolhida no Recife trata olhos de indígenas na Amazônia

Após acolhimento no Recife em 1969, descendentes de imigrantes cruzam o mundo para levar atendimento oftalmológico a comunidades do Rio Negro

Aline Moura | 25/06/2026, 18:28 h | Atualizado em 25/06/2026, 19:31
Pernambuco que encanta

Aline Moura

Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.


          Imagem ilustrativa da imagem Família chinesa acolhida no Recife trata olhos de indígenas na Amazônia
Alice King, com 56 anos, é a tradutora oficial do grupo que ajuda ribeirinhos na Amazônia |  Foto: Arquivo pessoal/divulgação

O som das palmas ecoava nas portas das casas do Recife no início da década de 1970. De um lado da rua, um homem chinês, Julius King; do outro, sua esposa, Lucinda. Nos braços, carregavam a pequena Alice, de apenas dois anos, e uma mala cheia de esperança. "Tenho toalha, peruca e bolsa", repetiam os imigrantes com o sotaque carregado, as poucas palavras que sabiam em português.

O ano era 1969 quando o patriarca chegou sozinho para fincar raízes em solo pernambucano. Dois anos depois, a família se reunia na capital pernambucana. A dureza do comércio de porta em porta transformou-se, cinco anos mais tarde, na tradicional loja Casa Chinesa, que funcionou por mais de 45 anos na Avenida Conde da Boa Vista. Os anos passaram, mas a memória do acolhimento permaneceu viva.

“Meus pais começaram do zero no Recife, sem saber português. Me levavam com eles pra vender mercadorias de porta em porta. Minha mãe cobria um lado da rua e meu pai outro. Eles me contam isso sempre. Batiam palmas e quando a dona abria a porta, diziam: ‘tenho, toalha, peruca e bolsa’. A gente ri muito quando ouvi isso, mas sabemos como a vida foi dura pra eles”, conta Alice King, 56 anos, filha do casal que hoje está aposentado.

Segundo Alice, os pais sempre dizem que “o coração do povo brasileiro é o melhor do mundo!”.

De Pernambuco para a Amazônia

A semente da generosidade plantada em Pernambuco floresceu décadas depois e a milhares de quilômetros de distância, no coração da Floresta Amazônica. Alice King hoje mora na Califórnia, nos Estados Unidos, onde se formou em informática e atua na negociação de gás natural. O elo com o Brasil, no entanto, nunca se rompeu.

Em 2023, uma viagem de turismo em família pelas águas e matas do Amazonas mudou o destino não apenas de Alice, mas de centenas de moradores das comunidades indígenas ribeirinhas e da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro.

O olhar de uma jovem de 16 anos


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Kara, nas imagens, se comoveu com a falta de assistência médica aos ribeirinhos quando ainda tinha 13 anos |  Foto: Arquivo pessoal/divulgação

Durante os passeios de canoagem, caminhadas na mata e pescarias de piranhas, o grupo visitou as populações locais. O cenário de isolamento e as dificuldades enfrentadas pelos moradores tocaram profundamente Kara, que hoje tem 16 anos, filha de Alice com o oftalmologista e cirurgião Kevin Choy, de 59 anos.

Ao desembarcar nas comunidades, no início da adolescência, (ainda mais nova do que é hoje) Kara percebeu que a beleza da floresta contrastava com a escassez de assistência básica.

"Daí surgiu a pergunta se tinha algo que ela poderia fazer para ajudar", recorda Alice. O questionamento da adolescente não ficou no vazio. Com o apoio do Instituto Anavilhanas, a família desenhou um plano de ação e fundou a organização COMPASS for Communities. Kevin, nascido em Hong Kong e criado nos Estados Unidos, trouxe o conhecimento médico e oftamológico; Kara assumiu a articulação, e-mails, telefonemas e a busca por doações; Alice transformou-se na ponte verbal da missão.

Como tradutora oficial, a profissional de informática conecta dois mundos. Ela traduz as orientações técnicas do marido, faladas em inglês, para o português dos ribeirinhos, e as dores dos pacientes para o médico. "Nesse projeto, eu sou a tradutora", sorri Alice.

A barreira invisível do pterígio


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O oftamologista Kevin Choy em atendimnento na Amazônia |  Foto: Arquivo pessoal/divulgação

Nas primeiras incursões em 2024 pelas comunidades de Tiririca, Aracarí e Santo Antônio, a equipe atendeu mais de 150 pessoas, entre adultos e crianças. Ali, o diagnóstico clínico revelou um inimigo silencioso e frequente na linha do Equador: o alto índice de pterígio, conhecido popularmente como "carne crescida" nos olhos.

A exposição severa e contínua aos raios ultravioletas, sem qualquer proteção, causa o espessamento da membrana ocular, o que pode comprometer a visão de pescadores, agricultores e donas de casa.

"Depois da primeira visita, foi observada a dificuldade enorme de obter cirurgia para o pterígio. Então, o uso de óculos de sol para proteção contra os raios ultravioletas é muito importante", explica a tradutora. Diante da barreira geográfica para procedimentos cirúrgicos complexos, a prevenção tornou-se a principal arma. Kara passou a mobilizar campanhas nos Estados Unidos para arrecadar óculos de sol e óculos de leitura.

No ano de 2025, o projeto expandiu-se para o município de Novo Airão. Mais de 100 atendimentos foram realizados em parceria com uma clínica local, além do retorno às comunidades visitadas no ano anterior para o trabalho de acompanhamento. Os voluntários realizaram exames de acuidade visual, medição de pressão ocular, testes de glicemia capilar e aferição de pressão arterial. Os óculos doados são ajustados e entregues diretamente aos moradores.

O motor da gratidão e o futuro


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Na ponta direita da imagem, Kevin e Aline com crianças atendidas pelo projeto |  Foto: Arquivo pessoal/divulgação

A terceira etapa da missão teve início no dia 29 de maio de 2026, quando a família embarcou novamente rumo ao Amazonas. A permanência na floresta renova os votos de compromisso da família com o país que acolheu os pais de Alice no século passado. Até a última contagem, segundo a Compass for Communities, foram feitos 600 exames médicos e oftamológicios em seis comunidades e mais de 500 óculos distribuídos.

Embora aposentados e dividindo o tempo com a filha nos Estados Unidos, os pioneiros da Casa Chinesa da Conde da Boa Vista ainda repetem que o coração do povo brasileiro é o melhor do mundo e consideram o Brasil sua casa principal.

Para Kevin e Alice, ver o engajamento da filha adolescente é o maior combustível da jornada. "Estamos muito orgulhosos de que nossa filha quis se envolver nisso. Ela sabe que sozinha não pode fazer muita coisa, então está com esperanças que o site dela espalhe a informação e que outras pessoas ou companhias queiram fornecer ajuda", afirma Alice.


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Rio Negro, na Amazônia, onde parte das comunidades atendidas pela família vivem |  Foto: Arquivo pessoal/divulgação

A promessa da equipe é manter os atendimentos e expandir a estrutura nos próximos anos. "Sentimo-nos extremamente honrados com isso. Depois de cada viagem, a gente volta com aquela alegria de ter podido ajudar os moradores das comunidades e com aquela energia de que podemos fazer mais", conclui a coordenadora e tradutora da missão, que passou grande parte de sua vida em solo pernambucano.

Através do portal da organização, o manifesto escrito pela jovem fundadora sintetiza o intercâmbio de solidariedade: "Sua consciência constrói uma ponte de empatia que atravessa milhares de quilômetros. É por meio dessa reflexão que honramos a dignidade de cada comunidade".

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A coluna Pernambuco que encanta, do Tribuna Online PE, revela histórias inspiradoras dos municípios pernambucanos e seus moradores. Com olhar sensível, informativo e analítico, valoriza as riquezas humanas, econômicas e culturais do estado, mostrando quem transforma comunidades com criatividade, coragem e afeto.