Onde o afeto deu lugar ao vazio: os órfãos do feminicídio neste Dia das Mães
Atrás de cada estatística de violência doméstica, há uma casa que silenciou. Em 2025, ao menos 1,6 mil crianças perderam o colo materno
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Neste domingo de Dia das Mães, o movimento nas casas é de flores e abraços. Mas em pelo menos 1.653 lares brasileiros, o despertar é o avesso da festa. Onde deveria haver o café na cama e o riso dos filhos, sobrou a poeira sobre os móveis e uma ausência que o tempo não cicatriza. Dados do Instituto Banco Vermelho revelam que, em 2025, o feminicídio não apenas interrompeu vidas femininas; ele redesenhou, à força, o destino de crianças e adolescentes que agora conhecem o mundo através da perda.
Em Pernambuco, a estatística ganha rostos e nomes. Só até março deste ano, 18 mulheres foram retiradas de cena. A maioria delas era o alicerce de suas casas. No ano passado, 88 foram mortas por ex ou companheiros. Algumas, na frente dos filhos.
O rastro da casa vazia
A cena da violência doméstica é quase sempre uma sucessão de objetos interrompidos. Um prato que ficou sobre a mesa, um brinquedo no canto da sala, um quarto que mantém o cheiro de um perfume que não será mais usado. Para os filhos que ficam, o feminicídio é o fim súbito da infância. É o momento em que a casa, lugar de proteção, torna-se o cenário do trauma.
Especialistas e o Instituto Banco Vermelho alertam: essas mortes são o ponto final de frases que começaram muito antes. São tragédias anunciadas em tons de controle, ameaças e portas fechadas. O impacto nos órfãos é uma herança de dor que exige do Estado um amparo que, muitas vezes, chega tarde demais.
A falha que rompeu o cadeado
Há casos em que a ausência tem um custo jurídico, mas nunca um preço que a compense. Em Serra Talhada, no Sertão, o destino de dois irmãos foi selado por uma falha de segurança. Em agosto de 2018, um homem fugiu da cadeia pública para executar a ex-companheira. Ele estava preso justamente por violência doméstica desde maio, mas a custódia do Estado falhou.
Oito anos depois, a Justiça de Pernambuco condenou o Estado a pagar R$ 300 mil aos filhos da vítima. A decisão, confirmada pela 1ª Câmara do TJPE, sublinha que quando o Estado permite a fuga de quem já era um risco, ele se torna cúmplice do vazio. O valor financeiro ajuda a garantir o pão e os livros, mas não devolve o direito de os filhos crescerem sob a sombra protetora da mãe.
O dossiê de Priscila: um grito no pen drive
Em Jaboatão dos Guararapes, a técnica de enfermagem Priscila Carla Pimentel, de 32 anos, tentou escrever um final diferente para sua história no ano passado. Ela não foi à polícia de mãos vazias; levava consigo um dossiê. Dentro de um pequeno pen drive, Priscila guardou as provas de 17 anos de medo: áudios de ameaças e o registro do terror que invadia sua casa em Cajueiro Seco.
O sonho de Priscila era o jaleco branco, o primeiro emprego na saúde que começaria em janeiro. No entanto, em dezembro passado, o ciclo de facadas interrompeu o projeto diante de dois de seus seis filhos. O agressor foi preso, mas o pen drive de Priscila permanece como um monumento ao socorro que não veio a tempo. Seus filhos agora crescem com o registro de uma mãe que lutou para ficar, mas foi vencida pela omissão.
O caminho da prevenção
O feminicídio é um crime com ensaios. O Instituto Banco Vermelho reforça que a prevenção é o único caminho para que o Dia das Mães não seja, para tantos, uma data de luto. A identificação de sinais de controle e o apoio de redes de proteção são as ferramentas para evitar que novas crianças percam sua referência de mundo.
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Ligue 190: Para situações de perigo imediato.
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