Justiça condena Neoenergia a pagar R$ 600 mil por morte de jovem no Recife
Decisão de segunda instância do TJPE reforma sentença e indenização total pode ultrapassar R$ 1 milhão com juros e correções
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A segunda batalha jurídica chegou ao fim, e o peso da caneta do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) impôs uma derrota à Neoenergia Pernambuco. Em decisão de segunda instância (um colegiado de desembargadores), a concessionária foi condenada a indenizar a família de Juan Pablo da Silva Melo, 21 anos, o jovem que teve a vida interrompida por um choque elétrico em 2025.
O valor soma danos morais de R$ 150 mil para cada um dos quatro familiares e pensão mensal é de R$ 600 mil. Mas pode ultrapassar R$ 1 milhão após as correções.
A empresa tentou erguer um muro de defesa sobre a tese de "ligação clandestina", mas os magistrados foram enfáticos: a responsabilidade de fiscalizar e garantir a segurança da rede é de quem opera o serviço. Segundo o TJPE, a negligência na manutenção, especialmente sob o açoite das chuvas, custou uma vida que a justiça agora tenta, de forma financeira, mensurar o prejuízo.
A armadilha invisível na Rua Dom Bosco
O cenário era o Recife de fevereiro de 2025. O céu desabava e o asfalto sumia sob a água suja. Juan Pablo, mochila nas costas e planos na cabeça, tentava apenas chegar ao curso de informática. Na Rua Dom Bosco, uma das principais da Boa Vista, no Centro do Recife, a enchente não era o único obstáculo. Debaixo da lâmina d'água, a eletricidade se dissipava, transformando a via pública em uma armadilha mortal.
O laudo médico não deixou dúvidas: o coração de Juan parou por causa da descarga. Ele foi uma das oito vítimas daquele dia cinzento na Região Metropolitana, mas seu caso tornou-se o símbolo da luta contra o descaso.
O último eco: "mãe, o ônibus vai demorar"
A voz de Juan Pablo ainda ecoa no celular de Eliene, sua mãe. Foi uma conversa de logística cotidiana que virou despedida. O jovem relatou o caos urbano: a Conde da Boa Vista travada, o ônibus que não vinha, a tentativa de alcançar o Derby para pegar o PE-15.
"Mãe, eu tô aqui na rua... não pode passar não, que tá muita água", disse ele. A mãe, pressentindo o perigo, pediu a volta. Juan, com a pressa de quem quer o futuro, decidiu seguir a pé por outro caminho. O passo dado na Rua Dom Bosco foi o último. Ele não chegou ao Derby. Não pegou o PE-15. Ficou ali, onde a omissão e a corrente elétrica se encontraram.
Veja o que disse a Neoergia em nota nesta terça (28)
A empresa informou ao Tribuna Online PE que já recorreu da decisão, no próprio TJPE, o que, na prática, a faz ganhar tempo.
"A Neoenergia Pernambuco informa que já apresentou contra razões ao recurso apresentado e reitera que a ocorrência não teve relação com qualquer estrutura da distribuidora".
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