Em Coqueiral, lama e desalento: o rastro de destruição após três cheias em 15 dias
Moradores perdem tudo e denunciam abandono do poder público no Recife; maior volume de chuva em 24h atingiu 81,78 mm
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Colaboração de Carlos Simões, com imanges de Onildo Xavier
O bairro de Coqueiral, na Zona Oeste do Recife, vive um cenário de guerra após as chuvas que atingiram a capital. Nas últimas 24 horas, o acumulado chegou a 81,78 mm. Na tarde desta terça-feira (5), o céu deu trégua, mas o que restou na Rua Professor Rutilho e imediações foi um rastro de lama, esgoto e móveis destruídos. Para muitos, o prejuízo não é novidade, mas, segundo os moradores, o ciclo se repetiu três vezes em apenas 15 dias.
De longe ou de perto, é possível ver pilhas de móveis inutilizados nas ruas, sonhos pagos em prestações por anos.
Nas ruas alagadas, o movimento é de quem tenta salvar o que sobrou ou de quem decidiu desistir do bairro. Karoline Ferreira de Melo, beneficiária do Bolsa Família, carregava um colchão e algumas roupas em sacos plásticos. Ela morava de aluguel há três anos e agora busca abrigo na casa de parentes.
"Minha casa era alugada. Tô indo agora morar na casa de parente, porque eu não tenho pra onde ir. Perdi tudo da minha casa. Até o fogão eu perdi. Acho que a pressão da água explodiu a parte de cima todinha. Só sobrou essa cama e o saco de umas roupas, que ainda vou ter que lavar porque é tudo lama. Não sei nem por onde recomeçar", relatou Karoline.
Ratos, doenças e a revolta de quem fica
A indignação contra a Prefeitura do Recife e o Governo do Estado é o sentimento comum entre os moradores que observam ratos circulando em meio à água suja. Sem a presença visível de assistentes sociais ou equipes de limpeza urbana no momento da maior crise, a comunidade diz que se apoia exclusivamente em redes de solidariedade local. Para a comunidade, a Igreja da Tenda, liderada pelo Pastor Marcos, tem sido o único ponto de suporte para doação de cestas básicas, colchões e material de limpeza. (veja mais detalhes sobre este assunto abaixo)
O vigilante Fernando de Barros, visivelmente emocionado e revoltado, caminha com dificuldade. Ele contraiu uma infecção na pele — que os moradores chamam de 'germe de rato' — após enfrentar as sucessivas enchentes. Fernando caiu na água durante o deslocamento e agora exibe as marcas da doença nas nádegas e os machucados nas pernas.
"Acabou com tudo. Cadê o prefeito? Ele não vê isso não? E o governo do estado? Quatro anos atrás deram uma migalha a gente, dois de quinhentos. E agora esse ano? Cadê a verba do Governo Federal que não chegou até a gente? Isso não existe não. Ele (o prefeito) tem que ver com a comunidade, porque a gente aqui é pobre, não é rico não. Se fosse rico, eu tava em Boa Viagem", desabafou o vigilante.
Água que brota pelas paredes
Em pontos onde a água alcançou níveis mais altos, mesmo casas com escadarias foram invadidas. A dona de casa Isabel Cristina viu a água brotar pelas paredes dos fundos. "Entrou por trás, veio invadindo tudo e boiando. Coisa da sala foi pra cozinha, coisa da cozinha foi pro banheiro. Perdi as camas boxes, a minha e a da minha filha. Sem condições", lamentou.
O isolamento também afeta quem precisa trabalhar. Nadja Mariano, doméstica, tentava equilibrar-se nos cantos dos muros para não mergulhar na água contaminada. "Era para atender às sete da manhã, mas tô indo agora. Mais cedo não deu, encheu muito. Tá bem difícil de passar", disse enquanto tentava vencer o trecho alagado para chegar ao emprego. Enquanto o nível do Rio Tejipió não baixa e a lama endurece sobre as calçadas, os moradores de Coqueiral permanecem em alerta.
Igreja do Coqueiral recebe assistência da Prefeitura do Recife
A Prefeitura do Recife (o principal alvo dos moradores) negou as críticas de abandono ao bairro de Coqueiral, afirmando que a estrutura de apoio citada pelos moradores é, na verdade, abastecida pelo poder público. Segundo a gestão, a Igreja Batista do Coqueiral atua como parceira e recebe suporte direto para funcionar como abrigo.
"Apenas entre os dias 1 e 3 de maio, a igreja recebeu 25 colchões, 35 lençóis, 35 kits de higiene e 46 kits de material de limpeza, além de 253 refeições", detalhou a nota oficial.
Enquanto os moradores atribuem apenas à figura do pastor o socorro imediato, a prefeitura reforça que a população pode recorrer ao CSU Bidu Krause e deve acionar a Defesa Civil pelos números 0800-0813400 ou 3036-4873. Sobre as soluções definitivas, o município informou que investe R$ 500 milhões por meio do programa Promorar na bacia do Tejipió, incluindo o desassoreamento da calha do rio e construção de parques alagáveis para tentar conter o avanço das águas em Coqueiral.
Veja resposta da Prefeitura do Recife na íntegra
A Prefeitura do Recife esclarece que apoia e fornece insumos para a Igreja Batista do Coqueiral, que funciona como abrigo nos dias de fortes fenômenos climáticos. Apenas entre os dias 1 e 3 de maio, por exemplo, a igreja recebeu 25 colchões, 35 lençóis, 35 kits de higiene e 46 kits de material de limpeza, além de 253 refeições para almoço, café da manhã e jantar. A população do bairro também pode usar o abrigo do CSU Bidu Krause, que fica nas proximidades. É importante que os moradores acionem a Defesa Civil do Recife, que atende 24h por dia pelos telefones 0800-0813400 e 3036-4873, ou pelo Conecta Recife.
A Prefeitura do Recife tem atuado diretamente na bacia do Tejipió com investimentos da ordem de R$ 500 milhões do Promorar para minimizar os impactos ambientais na área. Além do desassoreamento da calha do rio e construção de parques alagáveis ao longo das margens, o Promorar vem realizando estudos de macrodrenagem para a área. Entre as ações em curso no momento, o programa vem construindo reservatório, perfilamento do rio e requalificação de canais.
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